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O Divino Espírito Santo.

 

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Crucificação e morte de Jesus.

 

 

            1. Os carrascos despem Jesus para a crucificação e oferecem-Lhe vinagre.

 

            Dirigiram-se então quatro carrascos à masmorra subterrânea, situada a setenta passos ao norte; Jesus rezava todo o tempo a Deus, pedindo força e paciência e oferecendo-se mais uma vez em sacrifício expiatório, pelos pecados dos inimigos. Os carrascos arrancaram-nO para fora e, empurrando, batendo e insultando-O, levaram-nO para o suplício. O povo olhava e insultava; os soldados, frios e altivos, mantinham a ordem, dando-se ares de importância; os carrascos, cheios de raiva sanguinária, arrastaram Jesus brutalmente para o largo do suplício.

 

         Quando as santas mulheres viram Jesus chegar, deram dinheiro a um homem, que o devia levar, junto com vinho aromático, aos carrascos, para que esses o descem a Jesus a beber. Mas esses criminosos não Lho deram, mas beberam-no depois. Tinham lá dois vasos de cor parda, dos quais um continha vinagre misturado com fel e o outro uma espécie de vinagre, que afirmavam ser vinho, com mirra e absinto; dessa bebida ofereceram um copo pardo, a Jesus, que apenas o provou, tocando-o com os lábios, mas não bebeu.

        

         Estavam no lugar do suplício dezoito carrascos; os seis que O tinham açoitado, quatro que O conduziram, dois que suspenderam a extremidade da cruz pelas cordas e seis que O deviam crucificar. Parte deles estavam ocupados com Jesus, outros com os ladrões, trabalhando e bebendo alternadamente. Eram homens baixos, robustos, sujos e meio nus, de feições estranhas, cabelo eriçado, barba rala: homens abomináveis e bestiais. Serviam a judeus e romanos por dinheiro.

 

         O aspecto de tudo isso era mais terrível ainda, porque eu vi o mal, em figuras visíveis para mim e invisíveis para os outros. Via grandes e hediondas figuras de demônios, agindo entre todos esses homens cruéis; era como se auxiliassem em tudo, aconselhando, passando as ferramentas; havia inúmeras aparições de figuras pequenas e medonhas, de sapos, serpentes e dragões de muitas garras, vi todas as espécies de insetos venenosos voarem em redor e escurecerem o ar.

 

         Entravam na boca e no coração dos assistentes ou pousavam-lhes nos ombros; eram homens cujos corações estavam cheios de pensamentos de ódio e maldade ou que proferiam palavras de maldição e escárnio. Acima do Senhor, porém, vi várias vezes, durante a crucifixão, aparecerem grandes figuras angélicas, que choravam e aparições luminosas, nas quais distingui apenas pequenos rostos. Vi aparecer tais Anjos de compaixão e consolo também sobre a Santíssima Virgem e todos os bons, confortando e animando-os.

 

         Os carrascos tiraram então o manto do Senhor, que lhe tinha antes enrolado em redor do peito; tiraram-Lhe o cinturão, com as cordas e o próprio cinto. Despiram-nO da longa veste de lã branca, passando-a pela cabeça, pois estava aberta no peito, ligada com correias. Depois lhe tiraram a longa faixa estreita, que caia do pescoço sobre os ombros e como não Lhe podiam tirar a túnica sem costuras, por causa da coroa de espinhos, arrancaram-Lhe a coroa da cabeça, reabrindo assim todas as feridas; arregaçando depois a túnica, puxaram-lha, com vis gracejos, pela cabeça ferida e sangrenta.

 

         Lá estava o Filho do Homem, coberto de sangue, de contusões, de feridas fechadas ou outras ainda sangrentas, de pisaduras e manchas escuras. Estava apenas vestido ainda do curto escapulário de lã sobre o peito e costas e da faixa que cingia os rins. O escapulário de lã aderira às feridas secas e estava colado com sangue na nova ferida profunda, que o peso da cruz Lhe fizera no ombro e que Lhe causava um sofrimento indizível.

 

         Os carrascos arrancaram-lhe o escapulário impiedosamente do peito e assim ficou Jesus em sangrenta nudez, horrivelmente dilacerado e inchado, coberto de chagas. No ombro e nas costas se Lhe viam os osso, através das feridas e a lã branca do escapulário ainda estava colada em algumas feridas e no sangue ressecado do peito.

 

         Arrancaram-Lhe então a última faixa de pano da cintura e eis que ficou de todo nu e curvou-se, cheio de confusão e vergonha; e como estava a ponto de cair, sob as mãos dos carrascos, sentaram-nO sobre uma pedra, pondo-Lhe novamente a coroa de espinhos sobre a cabeça e ofereceram-Lhe a beber do outro vaso, que continha vinagre com fel; mas Jesus desviou a cabeça em silêncio.

 

         Quando, porém, os carrascos O pegaram pelos braços, com que cobria a nudez e O levantaram, para estendê-Lo sobre a cruz, ouviram-se gritos de indignação e descontentamento e os lamentos dos amigos por essa vergonha e ignomínia.

 

         A Mãe Santíssima suplicou a Deus com ardor; já estava a ponto de tirar o véu da cabeça e, abrindo caminho por entre os carrascos, oferecê-lo ao Divino Filho. Mas Deus ouvira-lhe a oração; pois nesse momento um homem, vindo da porta e correndo todo o caminho com as vestes arregaçadas, atravessou o povo e precipitou-se ofegante entre os carrascos e entregou um pano a Jesus que, agradecendo-lhe, o aceitou e cobriu a nudez, cingindo-O à moda dos orientais, passando a parte mais comprida por entre as pernas e ligando-a com a outra em redor da cintura.Esse benfeitor do Divino Redentor, enviado para atender à súplica da SS. Virgem, tinha na sua impetuosidade algo de imperioso; ameaçou os carrascos com o punho e disse apenas: “Tomem cuidado de não impedir este homem de cobrir-se”. Não falou com ninguém mais e retirou-se tão rapidamente como tinha vindo.

 

         Era Jonadab, sobrinho de São José, da região de Belém, filho daquele irmão a quem José, depois do nascimento de Jesus, empenhara o jumento. Não era amigo declarado de Jesus; também nesse dia se tinha mantido afastado e limitara-se observar tudo de longe. Já quando ouvira contar que Jesus fora despido na flagelação, ficara muito indignado; depois, quando se aproximou a hora da crucificação, estava no Templo e sentia uma indizível angústia.

 

         Quando a Mãe de Jesus, no Gólgota, dirigiu o grito da alma a Deus, sentiu Jonadab de repente um impulso irresistível de correr do Tempo ao Calvário para cobrir a nudez do Senhor. Sentia na alma uma viva indignação contra o ato ignominioso de Cam, que rira da nudez de Noé, embriagado pelo vinho e sentiu-se impelido a correr, como um novo Sem, para cobrir a nudez do lagareiro. Os crucificadores eram os Camitas e Jesus pisava as uvas no lagar, para o vinho novo, quando Jonadab veio cobri-lo. Essa ação foi mais tarde recompensada, como vi e hei de contar.

 

        

         2. Jesus é pregado na cruz.

 

 

         Jesus, imagem viva da dor, foi estendido pelos carrascos sobre a cruz; Ele próprio se sentou sobre ela e eles brutalmente O deitaram de costas. Colocaram-Lhe a mão direita sobre o orifício do prego, no braço direito da cruz e aí lhe amarraram o braço. Um deles se ajoelhou sobre o santo peito, enquanto outro lhe segurava a mão, que se estava contraindo e um terceiro colocou o cravo grosso e comprido, com a ponta limada, sobre essa mão cheia de bênção e cravou-o nela, com violentas pancadas de um martelo de ferro. Doces, e claros gemidos ouviram-se da boca do Senhor; o sangue sagrado salpicou os braços dos carrascos; rasgaram-Lhe os tendões da mão, os quais foram arrastados, com o prego triangular, para dentro do estreito orifício. Contei as marteladas, mas esqueci, na minha dor, esse número. A Santíssima Virgem gemia baixinho e parecia estar sem sentidos exteriormente; Madalena estava desnorteada.

 

         As verrumas eram grandes peças de ferro, da foram de um T; não havia nela nada de madeira. Também os pesados martelos eram, como os cabos, de ferro e todos de uma peça inteiriça; tinham quase a forma dos martelos de pau que os marceneiros usam entre nós, trabalhando com formão.

 

         Os cravos, cujo aspecto fizera tremer Jesus, eram de tal tamanho que, seguros pelo punho, excediam em baixo e em cima cerca de uma polegada. Tinham cabeça chata, da largura de uma moeda de cobre, com uma elevação cônica no meio. Tinham três gumes; na parte superior tinham a grossura de um polegar e na parte inferior a de um dedo pequeno; a ponta fora aguçada com uma lima; cravados na cruz, vi-lhes a ponta sair um pouco do outro lado dos braços da cruz.

 

         Depois de terem pregado a mão direita de Nosso Senhor, viram os crucificadores que a mão esquerda, que tinham também amarrado ao braço da cruz, não chegava até o orifício do cravo, que tinham perfurado a duas polegadas distante das pontas dos dedos. Por isso ataram uma corda ao braço esquerdo do Salvador e, apoiando os pés sobre a cruz, puxaram a toda força, até que a mão chegou ao orifício do cravo. Jesus dava gemidos tocantes; pois deslocaram-Lhe inteiramente os braços das articulações; os ombros, violentamente distendidos, formavam grandes cavidades axilares, nos cotovelos se viam as junturas dos ossos.

 

         O peito levantou-se-Lhe e as pernas encolheram-se sobre o corpo. Os carrascos ajoelharam-se sobre os braços e o peito, amarram-lhe fortemente os braços e cravaram-Lhe então cruelmente o segundo prego na mão esquerda; jorrou alto o sangue e ouviram-se os agudos gemidos de Jesus, por entre as pancadas do pesado martelo. Os braços do Senhor estavam tão distendidos, que formavam uma linha reta e não cobriam mais os braços da cruz, que subiam em linha obliqua; ficava um espaço livre entre esses e as axilas do Divino Mártir.

 

         A SS. Virgem sentiu todas essas torturas com Jesus; estava de uma palidez cadavérica e fracos gemidos saiam-lhe da boca. Os fariseus dirigiram insultos e zombarias para o lado onde ela estava; por isso os amigos conduziram-na para junto das outras santas mulheres, que estavam um pouco mais afastadas do lugar do suplício. Madalena estava como louca; feria o rosto de modo que tinha as faces e os olhos cheios de sangue.

 

         Havia na cruz, em baixo, talvez a um terço da respectiva altura, uma peça de madeira, fixa por um prego muito grande, destinada a suportar os pés de Jesus, afim de que ficasse mais em pé do que suspenso; de outro modo as mãos teriam sido rasgadas pelo peso do corpo e os pés não poderiam ser pregados sem quebrá-los. Nessa peça de madeira tinham perfurado o orifício para o cravo. Tinham também feito uma cavidade para os calcanhares, como também havia outras, em vários pontos da cruz, para que o Mártir pudesse ficar suspenso mais tempo e o peso do corpo não Lhe rasgasse as mãos, fazendo-O cair.

 

         Todo o corpo de nosso Salvador tinha-se contraído para o alto da cruz, pela violenta extensão dos braços e os joelhos tinham-se-Lhe dobrado. Os carrascos lançaram-se então sobre esses e, por meio de cordas, amarraram-nos ao tronco da cruz; mas pela posição errada dos orifícios dos cravos, os pés ficavam longe da peça de madeira que os devia suportar. Então começaram os carrascos a praguejar e insultar. Alguns julgavam que se deviam furar outros orifícios para os pregos das mãos; pois mudar o suporte dos pés era difícil. Outros fizeram horrível troça de Jesus: “Ele não quer estender-se, disseram, mas nós Lhe ajudaremos”.

 

         Atando cordas à perna direita, puxaram-na com horrível violência, até o pé tocar no suporte e amarraram-na à cruz. Foi uma deslocação tão horrível, que se ouvia estalar o peito de Jesus, que gemia alto: “Ó meu Deus! Meu Deus!” Tinham-Lhe amarrado também o peito e os braços, para os pregos não rasgarem as mãos; o ventre encolheu-se-Lhe inteiramente, as costelas pareciam a ponto de destacar-se do esterno. Foi uma tortura horrorosa.

 

         Amarraram depois o pé esquerdo com a mesma brutal violência, colocando-o sobre o pé direito e como os pés não repousavam com bastante firmeza sobre o suporte, para serem pregados juntos, perfuraram primeiro o peito do pé esquerdo com um prego mais fino e de cabeça mais chata do que os cravos, como se fura a sovela. Feito isso, tomaram o cravo mais comprido que o das mãos, o mais horrível de todos e, passando-o brutalmente pelo furo feito no pé esquerdo, atravessaram-lhe a marteladas o direito, cujos ossos estalavam, até o cravo entrar no orifício do suporte e, através desse, no tronco da cruz. Olhando de lado a cruz, vi como o prego atravessou os dois pés.

        

         Essa tortura era a mais dolorosa de todas, por causa da distensão de todo o corpo. Contei 36 golpes de martelo, no meio dos gemidos claros e penetrantes do pobre Salvador; as vozes em redor, que proferiam insultos e maldições, pareciam-me sombrias e sinistras.

 

         A Santíssima Virgem tinha voltado ao lugar do suplício; a deslocação do corpo do Filho adorado, o som das marteladas e os gemidos de Jesus, causaram-lhe tão veemente dor e compaixão, que caiu novamente nos braços das companheiras, o que provocou um ajuntamento de povo.

 

         Então acorreram alguns fariseus a cavalo, insultando-as e os amigos afastaram-na outra vez a alguma distância. Durante a crucifixão e a elevação da cruz, que se lhe seguiu, se ouviam, especialmente entre as mulheres, gritos de compaixão, como: “Porque a terra não traga esses miseráveis? Porque não cai fogo do céu, para os devorar?”  - A essas manifestações de amor respondiam os carrascos com insultos e escárnio.

 

         Os gemidos que a dor arrancava de Jesus, misturavam-se com contínua oração; recitava trechos dos salmos e dos profetas, cujas predições nessa hora cumpria; em todo o caminho da cruz, até à morte, não cessava de rezar assim e de cumprir as profecias. Ouvi e rezei com Ele todas essas passagens e às vezes me lembro delas, quando rezo os salmos; mas fiquei tão acabrunhada com o martírio de meu Esposo celeste, que não sei mais juntá-las. – Durante esse horrível suplício, vi Anjos a chorar aparecerem acima de Jesus.

 

         O comandante da guarda romana fizera pregar no alto da cruz a tábua, como título que Pilatos escrevera. Os fariseus estavam indignados porque os romanos se riam alto do título “Rei dos judeus”. Por isso voltaram alguns fariseus à cidade, depois de ter tomado medida para uma outra inscrição, para pedir a Pilatos novamente outro título.

 

         Enquanto Jesus era pregado à cruz, estavam ainda alguns homens a trabalhar na escavação em que a cruz devia ser colocada; pois era estreita a cova e a rocha muito dura. Alguns dos carrascos, em vez de dar a Jesus para beber o vinho aromático trazido pelas santas mulheres, beberam-no eles mesmos e ficaram embriagados; queimava-lhe as entranhas e causava-lhes tanta dor nos intestinos, que ficaram desvairados; insultavam a Jesus, chamando-O de feiticeiro e enfureciam-se à vista da paciência do Divino Mestre; desceram várias vezes o Calvário, a correr, para beber leite de jumenta. Havia lá perto algumas mulheres, que pertenciam a um acampamento de peregrinos, vindos para a festa da Páscoa, as quais tinham jumentas, cujo leite vendiam.

 

Pela posição do sol era cerca de doze horas e um quarto, quando Jesus foi crucificado. No momento em que elevaram a cruz, ouviu-se do Templo o soar de muitas trombetas: Era a hora em que imolavam o cordeiro pascal.

        

 

            3. Elevação da cruz.

 

 

            Depois de terem pregado Nosso Senhor à cruz, ataram cordas na parte superior da mesma, por meio de argolas, lançaram as cordas sobre o cavalete antes erigido no lado oposto e puxaram a cruz pelas cordas, de modo que a parte superior se lhe ergueu; alguns dirigiram-se com paus munidos de ganchos, que fincaram no tronco e fizeram o pé da cruz entrar na cova. Quando o madeiro chegou à posição vertical, entrou na escavação com todo o peso e tocou no fundo com um terrível choque. A cruz tremeu do abalo e Jesus soltou um grito de dor; pelo peso vertical desceu-lhe o corpo, as feridas alargaram-se-Lhe, o sangue corria mais abundantemente e os ossos deslocados entrechocaram-se. Os carrascos ainda sacudiram a cruz, para a por mais firme e fincaram cinco cunhas na nova, em redor da cruz: uma na frente, uma do lado direito, outra do lado esquerdo e duas atrás, onde o madeiro estava um pouco arredondado.

 

         Foi uma impressão terrível e ao mesmo tempo comovedora, quando, sob os gritos insultuosos dos carrascos e dos fariseus, como também de muitos homens do povo, mais afastados, a cruz se elevou, balançando e entrou estremecendo na escavação; ouviram-se também vozes piedosas de compaixão, as vozes mais santas da terra: a da Mãe Santíssima, de João, das amigas e de todos que tinham um coração puro, saudaram com expressão dolorosa o Verbo eterno, feito carne e elevado sobre a cruz. Estenderam as mãos ansiosamente como para o segurar, quando o Santo dos santos, o Esposo de todas as Almas, pregado vivo na cruz, foi elevado pelas mãos dos pecadores enfurecidos.

 

         Quando, porém, o madeiro erguido com estrondo, entrou na respectiva cova, houve um momento de silêncio solene; todo o mundo parecia experimentar uma sensação nova, nunca até então sentida. O próprio inferno sentiu assustado o choque do lenho sobre a rocha e levantou-se contra ele, redobrando nos seus instrumentos humanos o seu furor e os insultos. Nas almas do purgatório e do limbo, porém, causou alegria e esperança: soava-lhes como o bater do triunfador às portas da Redenção. A santa Cruz estava pela primeira vez plantada no meio da terra, como aquela árvore da vida no Paraíso e das chagas dilatadas do Cristo corriam quatro rios santos sobre a terra, para expiar a maldição, que pesava sobre ela e para fertilizar e a tornar um paraíso do novo Adão.

 

         Quando o nosso Salvador foi elevado na cruz e os gritos de insulto foram interrompidos por alguns minutos de silencioso espanto, ouvia-se do Templo o som de muitas trombetas, que anunciavam o começo da imolação do cordeiro pascal, do símbolo, interrompendo de um modo solene e significativo os gritos de furor e de dor, em redor do verdadeiro Cordeiro de Deus, imolado na cruz. Muitos corações endurecidos foram abalados e pensaram nas palavras do precursor, João Batista: “Eis aí o Cordeiro de Deus, que tomou sobre si os pecados do mundo”.

         O lugar onde fora plantada a cruz, estava elevado cerca de dois pés acima do terreno em redor. Quando a cruz ainda se achava fora da cova, estavam os pés de Jesus à altura de um homem, mas depois de introduzida na respectiva escavação, podiam os amigos chegar aos pés do Mestre, para os abraçar e beijar. Havia um caminho para essa elevação. O rosto de Jesus estava virado para nordeste.

 

 

            4. A crucificação dos ladrões.

 

 

            Durante a crucifixão do Senhor jaziam os ladrões, de costas, com as mãos ainda amarradas aos madeiros transversais das cruzes, que tinham sobre a nuca, ao lado do caminho, na encosta oriental do Calvário; estava com eles na guarda. Suspeitos de terem assassinado uma mulher judaica, com os filhos, no caminho de Jerusalém a Jope, foram presos num castelo daquela região, onde morava às vezes Pilatos, por ocasião das manobras do exército e onde se apresentaram como ricos negociantes. Tinham estado muito tempo no cárcere, antes do julgamento e da condenação. Esqueci os pormenores. O ladrão do lado esquerdo era o mais velho e grande criminoso, o sedutor e mestre do outro. Geralmente são chamados Dimas e Gesmas; esqueci-lhes os nomes verdadeiros; vou chamar, por isso, ao bom Dimas e ao mau Gesmas.

 

         Ambos pertenciam à quadrilha de salteadores que, nas fronteiras do Egito, tinham dado agasalho à Sagrada Família, com o menino Jesus, na fuga para o Egito. Dimas fora o menino morfético que, a conselho de Maria, fora lavado pela mãe na água em que o menino Jesus se tinha banhado e que ficara curado no mesmo instante. A caridade e a proteção que a mãe proporcionara à Sagrada Família, fora recompensada naquela ocasião pela cura simbólica, que se realizou na cruz, quando foi limpo pelo sangue de Jesus. Dimas caíra em muitos crimes, mas não era perverso; não conhecia Jesus, a paciência do Senhor comoveu-o.

 

         Enquanto jaziam por terra, falava sem cessar de Jesus com o companheiro: “Maltratam horrivelmente este Galileu, dizia, o que Ele fez, pregando a nova doutrina, deve se pior do que os nossos crimes; mas Ele tem grande paciência e poder sobre todos os homens”. – Gesmas respondeu: “Que poder tem? Se fosse tão poderoso, como dizem, podia salvar-nos todos”. Desse modo continuavam a falar e quando a cruz do Senhor foi elevada, vieram carrascos dizer-lhes: “Agora é a vossa vez” e arrastaram-nos para o lugar do suplício. Desamarraram-nos dos madeiros transversais a toda a pressa, pois o sol já se escurecia e havia um movimento na natureza: como se uma tempestade se aproximasse.

 

         Os carrascos encostaram escadas às árvores das cruzes e ajustaram os lenhos transversais em cima, com cavilhas. No entanto deram a beber aos ladrões vinagre misturado com mirra e vestiram-lhe o gibão já roto, ataram-lhes cordas nos braços e lançando-as sobre os braços da cruz, puxaram-nos para cima, obrigando-os, a pancadas e pauladas, a subir pelos paus que estavam fincados no tronco das cruzes. Nos madeiros transversais e nos troncos já estavam amarradas as cordas, que pareciam ser feitas de cortiça torcida.

 

         Os braços dos condenados foram amarrados aos madeiros transversais; ataram-lhes os pulsos e cotovelos, como também os joelhos e os pés à cruz e apertaram-nos com tanta violência, torcendo as cordas por meio de paus, que os ossos estalavam e o sangue lhes esguichou dos músculos. Os infelizes soltaram gritos horríveis e Deimas, o bom ladrão, disse: “Se nos tivésseis tratado como a este Galileu, não teríeis mais o trabalho de puxar-nos aqui para cima”.

 

 

            5. Os carrascos tiram à sorte as vestes de Jesus.

 

 

            Os carrascos juntaram as vestes de Jesus no lugar onde tinham jazido os ladrões e fizeram delas vários lotes, para tirar à sorte. O manto era mais largo em baixo do quem em cima e tinha várias pregas; sobre o peito estava dobrado e formava assim bolsos. Rasgaram-no em várias tiras, como também a longa veste branca, aberta no peito, onde havia correias para atá-la e distribuíram-nas pelos lotes; assim fizeram também várias partes da faixa de pano que vestia em volta do pescoço, do cinto, do escapulário e do pano com que cobria o corpo; todas estas vestes estavam ensopadas do sangue do Nosso Senhor.

 

         Como, porém, não chegaram a um acordo a respeito da túnica sem costuras, que, rasgada em partes, não serviria mais para nada, tomaram uma tabuleta com algarismos e dados em forma de favas, com marcas, que trouxeram consigo e jogando esses dados, tiraram à sorte a túnica. Viu-lhes, porém, um mensageiro de Nicodemos e José de Arimatéia, dizendo-lhe que ao pé do Calvário havia quem quisesse comprar as vestes de Jesus; juntaram então depressa todas as vestes e, correndo para baixo, venderam-nas; assim ficaram essas relíquias com os cristãos.

        

 

            6. Jesus crucificado e os ladrões.

 

 

            Depois do violento choque da cruz, a cabeça de Jesus, coroada de espinhos, foi fortemente abalada e derramou grande abundância de sangue; também das chagas das mãos e dos pés correu o sangue em torrentes. Os carrascos subiram então pelas escadas e desataram as cordas com que tinham amarrado o santo corpo, para que o abalo não o fizesse cair. O sangue, cuja circulação fora quase impedida pela forte pressão das cordas e pela posição horizontal, afluiu-Lhe então de novo por todo o corpo e as chagas, renovando todas as dores e causando-Lhe um forte atordoamento. Jesus deixou cair a cabeça sobre o peito e ficou suspenso como morto, cerca de sete minutos.

 

         Houve um momento de calma. Os carrascos estavam ocupados em repartir as vestes de Jesus; o som das trombetas perdia-se no ar, todos os assistentes estavam exaustos de raiva ou de dor. Olhei, cheia de susto e compaixão, para meu Jesus, meu Salvador, a Salvação do mundo; vi-O imóvel, desfalecido de dor, como morto e eu também estava à morte; pensava antes morrer do que viver.

 

         Minha alma estava cheia de amargura, de amor e dor; minha cabeça, que eu sentia cercada de uma rede de espinhos, fazia-me quase endoidecer de dor; minhas mãos e meus pés eram como fornalhas ardentes; dores indizíveis passavam-me, como milhares de raios, pelas veias e nervos, encontrando-se e lutando em todos os membros interiores e exteriores de meu corpo, tornando-se uma nova fonte de sofrimentos. E todos esses terríveis tormentos não eram senão amor e todo esse fogo penetrante de dores era contudo uma noite, em que não vi senão meu Esposo, o Esposo de todas as almas, pregado à cruz e contemplava-O com muita tristeza e muita consolação.

 

         A cabeça de Jesus, com a horrível coroa, com o sangue que Lhe enchia os olhos, os cabelos, a barba e a boca ardente, meio entreaberta, tinha caído sobre o peito e também mais tarde só podia levantar-se com indizível tortura, por causa da larga coroa de espinhos. O peito do Divino Mártir estava violentamente dilatado e alçado; os ombros, os cotovelos e os pulsos distendidos até saírem fora das articulações; o sangue corria-Lhe das largas feridas das mãos sobre os braços; o peito levantado deixava em baixo uma cavidade profunda; o ventre estava encolhido e diminuído; como os braços, estavam também as coxas e pernas horrivelmente deslocadas.

 

         Os membros estavam tão horrivelmente distendidos e os músculos e a pele a tal ponto esticados, que se podiam contar os ossos. O sangue escorria-Lhe em redor do enorme prego que Lhe traspassava os pés sagrados, regando a árvore da cruz. o santo corpo estava todo coberto de chagas, pisaduras vermelhas, manchas amarelas, pardas e roxas, inchaços e lugares escoriados. As feridas reabriram-se, pela violenta distensão dos músculos e sangravam em vários lugares; o sangue que corria, era a princípio ainda vermelho, mas pouco a pouco se tornou pálido e aquoso e o santo corpo cada vez mais branco; por fim, tomou a cor da carne em sangue.

            Mas, apesar de toda essa cruel desfiguração, o corpo de Nosso Senhor na cruz tinha um aspecto extremamente nobre e comovedor; na verdade, o Filho de Deus, o Amor Eterno, que se sacrificou no tempo, permaneceu belo, puro e santo nesse corpo do Cordeiro pascal moribundo, esmagado pelo peso dos pecados de toda a humanidade.

 

          A pele da Santíssima Virgem, como a de N. Senhor, tinha por natureza, uma bela cor ligeiramente amarelada, mesclada de um vermelho transparente. As fadigas e as viagens do Mestre nos anos anteriores, lhe tinham tornado as faces, sob os olhos e a cana do nariz um pouco tostadas pelo sol. Jesus tinha um peito largo e forte, branco e sem pêlo, enquanto o de João Batista estava todo coberto de pelo ruivo. Tinha ombros largos e os músculos dos braços bem desenvolvidos; as coxas eram nervosas e musculosas, os joelhos fortes e robustos, como os de um homem que tem andado muito e rezado muito de joelhos.

        

         Tinha as pernas compridas e a barriga das pernas fortes, de muito viajar em terras montanhosas. Os pés eram belos e bem desenvolvidos, a planta dos pés tinha-se tornado calosa, porque geralmente andava descalço por caminhos rudes. As mãos eram de bela forma, com os dedos longos e delgados, não delicados demais, mas também não como as de um homem que as emprega em trabalhos pesados. Não tinha o pescoço curto, mas forte e musculoso. A cabeça tinha boas proporções, não grande demais; a testa era alta e larga e todo o rosto de um belo e puro oval. O cabelo, de um castanho avermelhado, não muito grosso, singelamente repartido no alto da cabeça, caia-Lhe sobre os ombros; a barba não era comprida, mas aparada em ponta e repartida sob o queixo.

 

         Agora, porém, o cabelo fora arrancado em grande parte, o resto colado com sangue; o corpo era uma só chaga, o peito estava como que despedaçado, o ventre escavado e encolhido; em vários lugares se viam as costelas, através da pele lacerada; todo o corpo estava de tal modo distendido e alongado, que não cobria mais inteiramente o tronco da cruz.

 

         O madeiro era um pouco arredondado do lado posterior, na frente liso, com várias escavações; a largura igualava-lhe mais ou menos a grossura. As diversas partes da cruz eram de madeira de diferentes cores, umas pardas, outras amarelas; o tronco era mais escuro, como madeira que tem estado muito tempo na água.

         As cruzes dos ladrões, trabalhadas mais grosseiramente, foram instaladas ao lado direito e esquerdo do cume, a tal distância da cruz de Jesus, que um homem podia passar a cavalo entre elas; estavam um pouco mais baixo e colocadas de modo que olhavam um para o outro. Um dos ladrões rezava, o outro insultava Jesus que, olhando para baixo, disse uma coisa a Dinas.

 

         O aspecto dos ladrões na cruz era horrendo, especialmente o do que ficava à esquerda, criminoso enraivecido, embriagado, de cuja boca só saiam insultos e maldições. Os corpos, pendentes da cruz, estavam horrivelmente deslocados, inchados e cruelmente amarrados. Os rostos tornaram-se-lhes roxos e pardos, os lábios escuros, tanto da bebida, como da pressão do sangue; os olhos inchados e vermelhos, quase a sair das órbitas. Soltavam gritos e uivos de dor, que lhes causavam as cordas; Gesmas praguejava e blasfemava.

         Os pregos com que os madeiros transversais foram ajustados ao tronco, forçavam-nos a curvar a cabeça, moviam-se e torciam-se convulsivamente na tortura e apesar das pernas estarem fortemente amarradas, um deles conseguiu puxar um pé para cima, de modo que o joelho dobrado se lhe ergueu um pouco.

        

 

            7. Primeira palavra de Jesus na cruz.

 

 

         Depois de crucificar os ladrões e de repartir as vestes do Senhor, juntaram os carrascos todos os instrumentos e ferramentas e, insultado e escarnecendo mais uma vez a Jesus, foram-se embora. Também os fariseus, que ainda estavam, montaram nos cavalos e passando diante de Jesus, dirigiram-lhe muitas palavras insultuosas e seguiram para a cidade. Os cem soldados romanos, com os respectivos comandantes, puseram-se também em mancha, pois veio outro destacamento de cinqüenta soldados romanos, ocupar-lhes o lugar.

 

         Esse destacamento era comandado por Abenadar, árabe de nascimento, que mais tarde, no batismo, recebeu o nome de Ctesifon. O oficial subalterno que estava com essa tropa, chamava-se Cassius; era também muitas vezes encarregado por Pilatos de levar mensagens; recebeu depois o nome de Longinus.

        

         Vieram também a cavalo doze escribas e alguns anciãos do povo, entre os quais os que foram pedir mais uma vez outra inscrição para o título da cruz; Pilatos nem os tinha deixado entrar. Cheios de raiva, andaram a cavalo em redor do lugar do suplício e expulsaram dali a Santíssima Virgem, chamando-a de mulher perdida. João levou-a para junto das outras mulheres, que estavam mais afastadas; Madalena e Marta ampararam-na nos braços.

 

         Quando, fazendo a volta da cruz, chegaram diante de Jesus, balançaram a cabeça, dizendo: “Arre! Impostor! Como é que destróis o Templo e o reedificas em três dias? Queria sempre socorrer os outros e agora não se pode salvar a si mesmo. – Se és o Filho de Deus, desce da cruz. Se é o rei de Israel, então desça da cruz e creremos nEle. Sempre confiava em Deus, que Ele venha salvá-Lo agora”. Os soldados também zombavam, dizendo: “Se és o rei dos judeus, salva-te agora”.

 

         Quando Jesus ainda pendia desmaiado, disse Gesmas, o ladrão à esquerda: “O demônio abandonou-O”. Um soldado fincou então uma esponja embebida em vinagre sobre a ponta de uma vara e chegou-a aos lábios de Jesus, que pareceu chupar um pouco. As zombarias continuavam. O soldado disse: “Se és o rei dos judeus, salva-te.” Tudo isso se deu enquanto o destacamento anterior era substituído pelo de Abenadar.

 

         Jesus levantou um pouco a cabeça e disse: “Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”; depois continuou a rezar em silêncio. Então gritou Gesmas: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós”. Escarneciam-nO sem cessar; mas Dimas, o ladrão da direita, ficou muito comovido, ouvindo Jesus rezar pelos inimigos. Quando Maria ouviu a voz de seu Filho, ninguém mais pôde retê-la: penetrou no círculo do suplício: João, Salomé e Maria, filha de Cléofas, seguiram-na. O centurião não as expulsou.

 

         Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação Interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado, quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: “O que? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus”. A essa inesperada repreensão da boca de um miserável assassino, suspenso na cruz, deu-se um tumulto entre os escarnecedores; apanhando pedras, quiseram apedrejá-lo ali mesmo. Mas o centurião Abenadar não o permitiu; mandou dispersa-los e restabeleceu a ordem.

 

         Durante esse tempo a Santíssima Virgem se sentia confortada pela oração de Jesus. Dimas, porém, disse a Gesmas, que gritara a Jesus: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós” – “Também tu não temes de Deus, apesar de sofreres o mesmo suplício que Ele? Quanto a nós, é muito justo, pois recebemos o castigo de nossos crimes; este, porém, não fez mal algum. Pensa nisto, nesta última hora e converte-te de coração”. Essas palavras e outras mais disse a Gesmas, pois estava todo comovido e iluminado pela graça; confessou suas faltas a Jesus e disse: “Senhor, se me condenardes, será muito justo; mas tende misericórdia de mim”. Respondeu Jesus: “Experimentáras a Minha misericórdia”. Dimas recebeu, por um quarto da hora, a graça de um profundo arrependimento.

 

         Tudo que acabo de contar agora, se deu pela maior parte ao mesmo tempo ou sucessivamente, entre as doze horas e doze e meia, pelo sol, alguns minutos depois da exaltação da cruz. Mas dai a pouco mudaram rapidamente os sentimentos nos corações da maior parte do assistentes; pois enquanto o bom ladrão ainda estava falando, eis que se deu na natureza um fenômeno extraordinário, que encheu de pavor todos os corações.

 

 

 

            8. Eclipse do sol. Segunda e terceira palavra de Jesus na cruz.

 

 

 

            Até pelas 10 horas, quando Pilatos pronunciou a sentença, caíra várias vezes chuva de pedra; depois, até às 12 horas, o céu estava claro e havia sol; mas depois do meio dia, apareceu uma neblina vermelha, sombria, diante do sol. Pela sexta hora, porém, ou como vi pelo sol, mais ou menos às doze e meia, (a maneira dos judeus de contar as horas é diferente da nossa) houve um eclipse milagroso do sol. Vi como isso se deu, mas infelizmente não pude guardá-lo na memória e não tenho palavras para o exprimir.

 

         A princípio fui transportada como para fora da terra; vi muitas divisões no firmamento e os caminhos dos astros, que se cruzavam de modo maravilhoso. Vi a lua do outro lado da terra; vi-a voar rapidamente ou dar um salto, como um globo de fogo; depois me achei novamente em Jerusalém e vi a lua aparecer sobre o monte das Oliveiras, cheia e pálida, - o sol estava velado pelo nevoeiro, - e ela se moveu rapidamente do oriente, para se colocar diante do sol.

 

         No começo, vi no lado oriental do sol, uma lista escura, que tomou em pouco tempo a forma de uma montanha, cobrindo-o depois inteiramente. O disco do sol parecia cinzento escuro, rodeado de um círculo vermelho, como uma argola de ferro em brasa. O céu tornou-se escuro; as estrelas tinham um brilho vermelho.

 

         Um pavor geral aponderou-se dos homens e dos animais, o gado fugiu mugindo, as aves procuravam um esconderijo e caiam em bandos sobre as colinas em redor do Calvário; podiam-se apanhá-las com as mãos. Os zombadores começaram a calar-se; os fariseus tentavam explicar tudo como fenômeno natural, mas não conseguiram acalmar o povo e eles mesmos ficaram interiormente apavorados. Todo o mundo olhava para o céu; muitos batiam no peito e, torcendo as mãos. Exclamavam: “Que o seu sangue caia sobre os seus assassinos”. Muitos, de perto e de longe, caíram de joelhos, pedindo perdão a Jesus, que no meio das dores volvia os olhos para eles.  

 

         A escuridão aumentava, todos olhavam para o céu e o Calvário estava deserto; ali permaneciam apenas a Mãe de Jesus e os mais íntimos amigos; Dimas, que estivera mergulhado em profundo arrependimento, levantou com humilde esperança o rosto para o Salvador e disse: “Senhor, fazei-me entrar num lugar onde me possais salvar; lembrai-vos de mim, quando estiverdes no vosso reino”. Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”.

 

          A Mãe de Jesus, Madalena, Maria de Cléofas, Maria Helí e João estavam entre as cruzes dos ladrões, em redor da cruz de Jesus, olhando para Nosso Senhor. A Santíssima Virgem, em seu amor de mãe, suplicava interiormente a Jesus que a deixasse morrer com Ele. Então olhou o Senhor com inefável ternura para a Mãe querida e, volvendo os olhos para João, disse a Maria: “Mulher, eis aí o teu filho; será mais teu filho do que se tivesse nascido de ti”. Elogiou ainda João, dizendo: “Ele teve sempre uma fé sincera e nunca se escandalizou, a não ser quando a mãe quis que fosse elevado acima dos outros”. A João, porém, disse: “Eis aí tua Mãe!”

 

         João abraçou com muito respeito, como um filho piedoso, a Mãe de Jesus, que tinha tornado também sua Mãe, sob a cruz do Redentor moribundo. A SS. Virgem ficou tão abalada de dor, após essas solenes disposições do Filho moribundo, que, caindo nos braços das santas mulheres, perdeu os sentidos exteriormente; levaram-na para o aterro em frente à cruz, onde a sentaram por algum tempo e depois a conduziram para fora do círculo, para junto das outras amigas.

 

         Não sei se Jesus pronunciou alto todas essas palavras; percebi-as interiormente, quando, antes de morrer, entregou Maria Santíssima, como Mãe, ao Apóstolo querido e este, como filho, a sua Mãe. Em tais contemplações se percebem muitas coisas, que não foram escritas; é pouco apenas o que pode exprimir a língua humana. O que lá é tão claro, que se julga compreender por si mesmo, não se sabe explicar com palavras.

 

         Assim não é de admirar que Jesus, dirigindo-se à Santíssima Virgem, não dissesse: “Mãe”, mas mulher”; pois que ela ali estava na sua dignidade de mulher que devia esmagar a cabeça da serpente, naquela hora em que aquela promessa se realizava, pelo sacrifício do Filho do Homem, seu próprio filho. Não era admirar lá que Jesus desse João por filho àquela a quem o Anjo saudava: “Ave Maria, cheia de graça”, porque o nome de João significa “graça”; pois todos são o que os respectivos nomes significam e João tornara-se filho de Deus e Jesus Cristo vivia nele.

 

          Percebia-se que Jesus, naquele momento, dava com aquelas palavras uma mãe, Maria, a todos que, como João, O recebem e, crendo nEle, se tornam filhos de Deus, que não foram nascidos do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas do próprio Deus. Sentia-se que a mais pura, a mais humilde, a mais obediente de todas as mulheres, que se tornara a Mãe do Verbo feito de carne, respondendo ao Anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra!”, agora, ouvindo do Filho moribundo que se devia tornar Mãe espiritual de outro filho, dizia, obediente e humilde, as mesmas palavras, no íntimo do coração, dilacerado das dores da separação: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra”, aceitando assim por filhos todos os filhos de Deus, todos os irmãos de Jesus, Tudo isso parece lá tão simples e necessário, mas aqui é tão diferente, que é mais fácil senti-lo, pela graça de Deus, do que o exprimir em palavras.

 

 

 

            9. Estado da cidade e do Templo durante o eclipse do sol.

 

 

 

            Eram mais ou menos duas horas e meia, quando fui condizuda à cidade, para ver o que lá se passava. Encontrei-a cheia de pavor e consternação; as ruas em trevas, cobertas de nevoeiro; os homens erram cá e lá, às apalpadelas; muitos estavam prostrados por terra, nos cantos, com a cabeça coberta, batendo no peito; outros olhavam para o céu ou estavam sobre os telhados, lamentando-se.

 

         Os animais mugiam e escondiam-se, os pássaros voavam baixo e caiam. Vi que Pilatos fizera uma visita a Herodes e que estavam consternados, no mesmo terraço do qual Herodes, de manhã, assistira ao escárnio de que Jesus fora alvo. “Isto não é natural”, disseram, “excederam-se nos maus tratos infligidos ao Nazareno”. Vi-os depois irem juntos ao palácio de Pilatos, atravessando o fórum; ambos estavam muito assustados, indo a passos apressados e cercados de soldados. Pilatos não ousou olhar para o lado do Gálbata, o tribunal donde tinha pronunciado a sentença contra Jesus. O fórum estava deserto; aqui e acolá alguns homens voltavam apressadamente para casa, outros passavam chorando.

 

         Juntavam-se também alguns grupos de povo nas praças públicas. Pilatos mandou chamar os anciãos do povo ao palácio e perguntou-lhes o que significavam aquelas trevas; disse-lhes que as tomava por um sinal de desgraça iminente; o Deus dos judeus parecia estar irado porque haviam exigido à força a morte do galileu, que certamente era profeta e rei dos judeus; enquanto ele, Pilatos, não tinha culpa, lavara, as mãos, etc.

 

         Os judeus, porém, ficaram endurecidos, queriam explicar tudo como fenômeno comum e não se converteram. Converteu-se, contudo, muita gente, entre outros também todos os soldados que, na véspera, tinham caído por terra e se levantando, quando prenderam Jesus no monte das Oliveiras.

 

         No entanto juntou-se uma multidão de povo diante do palácio de Pilatos e onde de manhã tinham gritado: “Crucifica-o! crucifica-o!”, gritavam agora: “Fora o juiz injusto! Que o sangue do Crucificado caia sobre os seus assassinos!” Pilatos viu-se obrigado a rodear-se de guardas. Zodóc, que, de manhã, quando Jesus fora conduzido ao pretório, lhe proclamava alto a inocência, agitou-se e falou com tal energia diante do palácio, que Pilatos esteve a ponto de mandá-lo prender.

 

         Pilatos, o miserável desalmado, atribuiu toda a culpa aos judeus: disse que não tinha nada com isso, que Jesus era o rei, o profeta, o Santo dos judeus, a quem estes tinham levado à morte e nada tinha com Ele, nem lhe cabia culpa; os próprios judeus é que lhe tinham exigido a morte, etc.

 

         No Templo reinava extremo susto e terror. Estavam ocupados na imolação do cordeiro pascal, quando veio de repente a escuridão. Tudo estava em confusão e aqui e acolá se ouviam gritos angustiantes. Os príncipes dos sacerdotes fizeram tudo para conservar a calma e a ordem: fizeram acender todas as lâmpadas, apesar de ser meio dia, mas a confusão crescia cada vez mais. Vi Anás preso de susto e terror; corria de um canto a outro, para se esconder. Quando tornei a sair da cidade, ouvi as grades das janelas das casas tremerem, sem haver tempestade. A escuridão crescia cada vez mais. Na parte exterior da cidade, ao noroeste, perto do muro, onde havia muitos jardins e sepulturas, desabaram algumas entradas de sepulcros, como se houvesse um tremor de terra.

        

 

            10. Abandono de Jesus. A quarta palavra de Jesus na cruz.

 

 

            Sobre o Gólgota fizeram as trevas uma impressão terrível. A horrorosa fúria dos carrascos, os gritos e maldições na elevação da cruz, os uivos dos ladrões ao serem amarrados ao madeiro, os insultos dos fariseus a cavalo, a revezar dos soldados, a barulhenta partida dos carrascos embriagados, tudo isso diminuíra a princípio um pouco o efeito das trevas.

 

         Seguiram-se depois as repreensões do ladrão penitente, Dimas e a raiva dos fariseus contra ele. Mas à medida que crescia a escuridão, tornavam-se mais pensativos os espectadores, afastando-se da cruz. Foi então que Jesus recomendou sua Mãe a João e que Maria foi conduzida a alguma distância do lugar do suplício. Houve um momento se solene silêncio; o povo estava assustado com as trevas; a maior parte olhava para o céu; em muitos corações se levantou a voz da consciência; muitos se arrependeram e, olhando para a cruz, bateram no peito; pouco a pouco se formaram grupos de pessoas que sentiam essas mesmas impressões.

 

         Os fariseus, ocultando o terror, ainda procuravam explicar tudo pelas leis naturais, mas baixavam cada vez mais a voz e afinal quase não ousavam mais falar; de vez em quando ainda proferiam uma palavra insolente, mas soava um tanto forçada. O disco do sol estava meio escuro, como uma montanha ao luar; estava rodeado de um anel vermelho. As estrelas tinham um brilho rubro; os pássaros caiam sobre o Calvário e nas vinhas vizinhas entre os homens e deixavam-se pegar com a mão; os animais dos arredores mugiam e tremiam; os cavalos e jumentos dos fariseus apertavam-se uns de encontro aos outros, baixando as cabeças. O nevoeiro úmido envolvia tudo.

 

         Em redor da cruz reinava silêncio; todos se tinham afastado, muitos fugiram para a cidade. O Salvador, naquele infinito martírio, mergulhado no mais profundo abandono, dirigindo-se ao Pai celestial, rezava pelos inimigos, impelido pelo amor. Rezava, como durante toda a Paixão, recitando versos de salmos que nEle se cumpriam. Vi figuras de Anjos em redor dEle. quando, porém, a escuridão cresceu e o terror pesava sobre todas as consciências e todo o povo estava em sombrio silêncio, ficou Jesus abandonado de todos e privado de toda a consolação.

 

         Sofria tudo quanto sofre um pobre homem, aflito e esmagado pelo absoluto abandono, sem consolação divina ou humana, quando a fé, a esperança e a caridade, privadas de iluminação e consolo, de visível assistência, ficam sozinhas no deserto da provação, vivendo de si mesmas, num infinito martírio. Tal sofrimento não se pode exprimir. Nessa tortura moral, Jesus nos alcançou a força de resistirmos na extrema miséria do abandono, quando se rompem todos os laços e relações com a existência e a vida terrena com o mundo e a natureza em que vivemos, quando se desfazem também as perspectivas que esta vida em si nos abre, para outra existência; nessa provação venceremos, se unirmos nosso abandono com os merecimentos do abandono de Jesus na cruz.

 

         O Salvador conquistou-nos os méritos da perseverança, na extrema luta do absoluto abandono e ofereceu por nós, pecadores, a miséria, a pobreza, o martírio, o abandono, que sofreu na cruz, de modo que o homem, unido a Jesus no seio da Igreja, não deve mais desesperar na hora extrema, quando tudo se escurece e toda a luz e consolação acaba. Não temos mais de descer nesse deserto da noite interior, sozinhos e sem proteção. Jesus lançou no abismo desse mar de amargura, o abandono exterior e interior que padeceu na cruz e assim não mais deixou os cristãos desamparados no abandono da morte, quando desaparece toda a consolação. Não há mais para o cristão nem deserto, nem solidão, nem abandono, nem desespero, na hora da morte, no último combate; pois o Salvador, a luz, o caminho e a verdade, também andou por esse caminho tenebroso, derramando bênçãos e vencendo todos os terrores e erigiu sua cruz também nesse deserto.

 

         Jesus, inteiramente desamparado e abandonado, ofereceu-se, como faz o amor, a si mesmo por nós, fez até do abandono um riquíssimo tesouro; pois se ofereceu, como toda sua vida, seus trabalhos, amor e sofrimento e a dolorosa experiência de nossa ingratidão, ao Pai Celestial, por nossa fraqueza e pobreza. Fez testamento diante de Deus e ofereceu todos os seus merecimentos à Igreja e aos pecadores. Pensou em todos; naquele abandono estava com todos, até o fim dos séculos; e assim rezou também por aqueles hereges que afirmam que sendo Deus, não sentiu as dores da Paixão e não sofreu ou sofreu menos do que um homem comum em igual martírio.

 

         – Participando dessa oração e sentindo com Ele as angústias, parecia-me ouvi-Lo dizer, que: “se devia ensinar o contrário, isto é, que Ele sentiu esse sofrimento do abandono com mais amargura do que um homem comum, porque estava intimamente unido à Divindade, porque era verdadeiro Deus e verdadeiro homem e no sentimento da humanidade abandonado por Deus, bebeu, como Deus-Homem, até o fundo o cálice do abandono completo”.

 

         E testemunhou por um grito a dor do abandono, dando assim a todos os aflitos, que reconhecem a Deus por Pai, a liberdade de uma queixa cheia de confiança filial. Pelas três horas, Jesus exclamou em alta voz: “Eli, Eli, lama Sabachtani!”, o que quer dizer: ”Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”

 

         Quando esse grito de Nosso Senhor interrompeu o angustiante silêncio que reinava em redor da cruz, os escarnecedores se voltaram novamente para Ele e um deles disse: “Ele chama Elias”, e outro: “Vamos ver, se Elias vem ajudá-Lo a descer da cruz”. Quando, porém, Maria ouviu a voz do Filho, nada mais pôde retê-la; voltou para junto da cruz, seguida por João, Maria, filha de Cleofas, Madalena e Salomé.

 

         Enquanto o povo tremia e gemia, vinha passando perto um grupo de cerca de trinta homens a cavalo, notáveis da Judéia e da região de Jope, que tinham vindo para a festa; e quando viram Jesus tão horrivelmente tratado e os sinais ameaçadores que se mostravam na natureza, exprimiram em alta voz o horror que sentiam, exclamando: “Ai! desta cidade abominável! Se nela não estivesse o Templo, devia-se destruí-la a fogo, por se ter tomado culpada de tanta iniqüidade”.

 

         As palavras desses distintos estrangeiros foram como um ponto de apoio para o povo, que rompeu em murmuração e altos lamentos; os que tinham os mesmos sentimentos, juntaram-se em grupos. Todos os presentes formaram dois partidos: uns murmuravam e lamentavam-se, os outros proferiam insultos e maldições.

 

         Os fariseus, porém, ficavam cada vez menos arrogantes; temendo um levantamento do povo, porque também o povo de Jerusalém estava sobressaltado, aconselharam-se com o centurião de Abenadar; deram-se ordens para fechar a porta da cidade que dava para o Calvário, cortando assim toda a comunicação; mandaram também um mensageiro a Pilatos, para pedir 500 soldados e de Herodes a guarda real, para impedir uma insurreição. No entanto conseguiu o centurião Abenadar, pela energia, restabelecer a ordem e calma, proibindo qualquer insulto a Jesus, para não irritar o povo.

 

         Logo depois das três horas, o céu começou a clarear-se; a lua afastou-se gradualmente do sol, para o lado oposto àquele de que viera. O sol reapareceu, sem brilho, ainda vedado pelo nevoeiro vermelho e a lua ia descendo rapidamente para o outro lado, como se caísse. Pouco a pouco o sol readquiriu mais claridade e as estrelas desapareceram; contudo o dia ainda permanecia sombrio. A medida que reaparecia a luz, tornavam-se os inimigos escarnecedores mais arrogantes; foi nessa ocasião que disseram: “Ele chama Elias”. Abenadar, porém, impôs-lhes silêncio e manteve a ordem.

 

        

            11. Quinta, Sexta e Sétima palavras de Jesus na cruz. Morte de Jesus.

 

 

            Quando a luz voltou, surgiu o corpo de Nosso Senhor, pálido, extenuado, como que inteiramente desfalecido, mais branco do que antes, por causa da grande perda de sangue. Jesus disse ainda, não sei se o percebi só interiormente ou se Ele o disse a meia voz: “Sou espremido como as uvas, que foram pisadas aqui pela primeira vez; devo dar todo o meu sangue, até sair água e o bagaço ficar branco; mas não se fará mais vinho neste lugar”.

 

         Mais tarde vi, numa visão a respeito dessas palavras, que foi nesse lugar que Jafé pela primeira vez pisou as uvas, para fazer vinho, como hei de contar mais tarde.

         Jesus consumia-se de sede e disse com a língua seca: “Tenho sede”. E como os amigos o olhassem com tristeza, disse-lhes: “Não me podíeis dar um gole de água?” Queria dizer que durante a escuridão ninguém os teria impedido. João, muito incomodado, respondeu: “Senhor, esquecemo-lo mesmo”. Jesus disse ainda algumas palavras, cujo sentido era: “Também os amigos mais íntimos deviam esquecer-se e não me dar a beber, para que se cumprisse a Escritura”. Mas esse esquecimento Lhe doeu amargamente.

 

         Ofereceram então dinheiro aos soldados, para Lhe dar um pouco de água; eles recusaram, mas um deles tomou uma esponja em forma de pera, embebedou-a em vinagre, que havia lá num pequeno barril de casca de árvore e ainda lhe misturou fel. Mas o centurião Abenadar, compadecido de Jesus, tomou a esponja do soldado, espremeu-a e embebeu-a de vinagre puro. Ajustou depois um lado da esponja num pedaço curto de uma haste de hissope, que servia de boquilha para chupar, fincou-o na ponta da lança e levantou-a à altura do rosto de Jesus, aproximando-Lhe dos lábios a esponja.

 

         Nosso Senhor ainda disse: “Quando minha voz não se fizer mais ouvir, falará a boca dos mortos”; ao que alguns gritaram: “Ainda continua blasfemando”. Abenadar, porém, os mandou calar.

 

         Tendo chegado a hora da agonia, Nosso Senhor lutou com a morte e um suor frio cobriu-lhe os membros. João estava sob a cruz e enxugou-Lhe os pés com o sudário. Madalena, esmagada pela dor, encostava-se à cruz no lado de trás. A Santíssima Virgem estava entre a cruz do bom ladrão e a de Jesus, amparada pelos braços de Maria de Cléofas e Salomé, olhando para o Filho, que lutava com a morte. Então disse Jesus: “Tudo está consumado!” e, levantado a cabeça, exclamou em alta voz: “Meu Pai, Em vossas mãos entrego o meu espírito”. Foi um grito doce e forte, que penetrou o Céu e a terra; depois inclinou a cabeça e expirou. Vi a alma de Jesus, em forma luminosa, entrar na terra, ao pé da cruz e descer ao Limbo. João e as santas mulheres prostraram-se com a face na terra.     

 

         O centurião Abenadar, árabe de nascimento, depois, como discípulo, batizado com o nome de Ctesifon, desde que oferecera o vinagre a Jesus, ficara a cavalo junto à elevação onde estavam erigidas as cruzes, de modo que o cavalo tinha as patas dianteiras mais no alto. Profundamente abalado, entregue a séries reflexões, contemplava incessantemente o semblante de Nosso Senhor, coroado de espinhos.

 

         O cavalo baixara assustado a cabeça e Abenadar, cujo orgulho estava domado, não puxava mais as rédeas. Nesse momento pronunciou o Senhor as últimas palavras, em voz alta e forte e morreu dando um grito, que penetrou o Céu, a terra e o inferno. A terra tremeu e o rochedo fendeu-se, deixando uma larga abertura entre a cruz do Senhor e a do ladrão à esquerda. O testemunho que Deus deu de seu Filho, abalou com susto e terror a natureza enlutada. Estava consumado!

 

         A alma de Nosso Senhor separou-se do corpo e ao grito de morte do Redentor moribundo estremeceram todos que O ouviram, junto com a terra que, tremendo, reconheceu o Salvador; os corações amigos, porém, foram transpassados pela espada da dor. Foi então que a graça desceu à alma de Abenadar; estremeceu emocionado, cederam-lhe as paixões e o coração orgulhoso e duro, fendeu-se-lhe como o rochedo do Calvário. Lançou longe de si a lança, bateu no peito com força e exclamou alto, com a voz de um homem novo: “Louvado seja Deus, Todo-poderoso, o Deus de Abraão e Jacó! Este era um homem justo; em verdade, Ele é o Filho de Deus!” E muitos dos soldados, tocados pela palavra do centurião, fizeram o mesmo.

 

         Abenadar, tornado novo homem, salvo pela graça e tendo rendido publicamente homenagem ao Filho de Deus, não quis ficar mais tempo a serviço dos inimigos de Cristo, Dirigiu-se a cavalo ao oficial subalterno, Cássio, também chamado Longinus, apeou-se, apanhou a lança e entregou-lha; disse algumas palavras aos soldados e a Cássio, que então montou a cavalo e tomou o comando. Abendar desceu do Calvário e, atravessando a vele de Gihon, dirigiu-se às cavernas do vale de Hinom, onde estavam escondidos os discípulos; anunciou-lhes a morte do Senhor e voltou de lá à cidade, ao palácio de Pilatos.

 

         Grande espanto apoderou-se dos assistentes, ante o grito de morte de Jesus, quando a terra tremeu e o rochedo do Calvário se fendeu. – Esse terror fez-se sentir em toda a natureza; pois rasgou-se o véu do Templo, muitos mortos saíram das sepulturas, desabaram algumas paredes do Templo, ruíram muitos edifícios e desmoronaram montes em muitas regiões da terra.

 

         Abenadar deu testemunho em alta voz, muitos soldados testemunharam com ele, grande parte do povo presente e também alguns dos fariseus, chegados no fim, se converteram. Muitos bateram no peito e, descendo do monte, voltaram chorando pelo vale para casa; outros rasgaram as vestes e lançaram pó sobre a cabeça. Todo o mundo estava cheio de medo e terror.

 

         João levantou-se e algumas das santas mulheres, que até então tinham ficado afastadas, aproximaram-se da cruz; levantaram a Mãe de Jesus e as amigas, conduziram-nas a alguma distância da cruz, para as confortar.

 

         Quando Jesus, cheio de amor, Senhor de toda vida, pagou pelos pecadores a dolorosa dívida da morte; quando entregou, como homem, a alma a Deus seu Pai e abandonou o corpo, tomou esse santo vaso esmagado a fria e pálida cor da morte; o corpo tremeu-Lhe convulsivamente nas últimas dores e tornou-se lívido e os vestígios do sangue derramado das chagas ficaram mais escuros e distintos. O rosto alongou-se, as faces encolheram-se, o nariz ficou mais delgado e pontiagudo, o queixo caiu, os olhos, cheios de sangue e fechados, abriram-se, meio envidraçados.

 

         O Senhor levantou pela última vez e por poucos momentos a cabeça, coroada de espinhos e deixou-a depois cair sobre o peito, sob o peso dos sofrimentos. Os lábios lívidos e contraídos entreabriram-se, deixando ver a língua ensangüentada. As mãos, antes fechadas sobre a cabeça dos cravos, abriram-se; estenderam-se os braços, as costas entesaram-se ao longo da cruz e todo o peso do santo corpo desceu sobre os pés. Os joelhos curvaram-se, tornando para um lado e os pés viraram-se um pouco em redor do prego que os trespassara.

 

         Então se entesaram as mãos da Mãe Dolorosa, a vista escureceu-se-lhe, palidez de morte cobriu-lhe o rosto, os ouvidos deixaram de escutar, os pés vacilaram e ela caiu por terra; também Madalena, João e os outros se prostraram, com a cabeça velada, entregues à dor.

 

         Quando ergueram a mais amorosa, a mais desolada das mães, dirigindo os olhos à cruz, ela viu o corpo do Filho adorado, concebido na virgindade, por obra e graça do Espírito Santo, carne de sua carne, osso de seus ossos, coração de seu coração, vaso sagrado formado no seu seio pela virtude divina, agora privado de toda a beleza e formosura, separado da alma Santíssima, entregue às leis da natureza que Ele próprio criara e de que os homens tinham abusado pelo pecado, desfigurado-a; viu o corpo do Filho Unigênito esmagado, maltratado, desfigurado, morto pelas mãos daqueles que viera salvar e vivificar.

 

         Ai! O vaso de toda beleza e verdade, de todo amor, pendia da cruz, entre dois assassinos, vazio, rejeitado, desprezado, insultado, semelhante a um leproso. Quem pode compreender toda a dor da Mãe de Jesus, rainha de todos os mártires?

 

         A luz do sol ainda era sombria e nebulosa. O tremor de terra foi acompanhado de calor sufocante; mas seguiu-se-lhe depois um frio sensível. O corpo de Nosso Senhor morto, na cruz, causava um sentimento de respeito e estranha comoção. Os ladrões pendiam em horríveis contorções, como embriagados, ambos estavam no fim calados; Dimas rezava.

 

         Era pouco depois de três horas, quando Jesus expirou. Passando o primeiro terror causado pelo tremor de terra, alguns dos fariseus recobraram a anterior arrogância. Aproximando-se da fenda no rochedo do Calvário, jogaram-lhe pedras e atando várias cordas, amarraram uma pedra fizeram-na entrar na fenda, para medir-lhe a profundidade; quando, porém, não tocaram no fundo, tornaram-se mais pensativos. Também se sentiam inquietos com os lamentos do povo, que batia no peito; e por isso, montando a cavalo, retiraram-se; alguns se sentiam mudados interiormente.

 

         O povo também se retirou em pouco tempo, indo pelo vale para a cidade, cheio de medo e terror. Muitos se tinham convertido. Uma parte dos 50 soldados romanos foi reforçar a guarda da porta, até a chegada dos 500, requeridos por Pilatos. A porta tinha sido fechada; alguns soldados ocuparam outros pontos da vizinhança, para impedir ajuntamento e tumulto. Cássio (Longino) e cerca de cinco soldados ficaram no lugar do suplício. Os parentes de Jesus estavam em redor da cruz ou sentados em frente, chorando. Algumas santas mulheres tinham voltado à cidade. Silêncio e tristeza reinavam em volta do lenho sagrado. De longe, no vale e nas alturas afastadas, se via de vez em quando um ou outro dos discípulos, olhando com curiosidade e receio para a cruz, mas retirando-se timidamente, ao aproximar-se alguém.

 

 

            12. O tremor de terra, aparição de mortos em Jerusalém.

 

 

            Quando Jesus, com um grito forte, entregou o espírito nas mãos do Pai celestial, a alma do Salvador, qual forma luminosa, acompanhada de brilhante cortejo de Anjos, entrou na terra, ao pé da cruz; entre os Anjos estava também S. Gabriel. Vi esses Anjos expulsarem grande número de espíritos maus da terra para o abismo. Jesus, porém, mandou muitas almas do limbo para que, retomando os corpos, assustassem os impenitentes, os exortassem a converter-se e dessem testemunho dEle.

 

         O tremor de terra, na hora da morte do Redentor, quando o rochedo do Calvário se fendeu, causou muitos desmoronamentos e desabamentos em todo o mundo, especialmente na Palestina e em Jerusalém. Mal o povo na cidade e no Templo sossegara um pouco, ao desaparecer a escuridão, eis que os abalos do solo e o estrondo do desabamento dos edifícios, em muitos lugares, espalharam um terror geral e ainda maior do que dantes. O pavor chegou ao extremo, quando apareceram os mortos ressuscitados, andando pelas ruas e admoestando com voz rouca o povo, que fugia, chorando, em todas as direções.

 

         No Templo, os príncipes dos sacerdotes acabavam justamente de restabelecer a ordem e recomeçar os sacrifícios, suspensos pelo terror das trevas e triunfavam com a volta da luz, quando de repente tremeu o solo, ouvindo-se um estrondo de muros a desabar, acompanhado de ruído sibilante do véu do Templo, que se rasgou de alto a baixo, causando um momento de mudo terror na imensa multidão, interrompido em diversos lugares por gritos e lamentos.

 

         Mas a multidão estava tão habituada à ordem do Templo, o imenso edifício tão repleto de gente, a ida e vinda dos que ofereciam sacrifícios estava tão bem regulada, as cerimônias da imolação dos cordeiros e da aspersão do altar como sangue se desenrolavam tão regularmente, através das longas fileiras dos sacerdotes, acompanhadas de canto e do alto som das trombetas, que o susto não produziu logo no principio uma confusão e desordem geral.

 

         Assim, pois, continuavam os sacrifícios em algumas partes do imenso edifício do Templo, com as inúmeras passagens e salas, quando em outra parte já reinava o espanto e terror e em outros lugares os sacerdotes já conseguiam acalmar o povo; mas ao aparecimento dos mortos, em várias partes do Templo, todo o povo se dispersou e o sacrifício foi interrompido, como se o Templo fosse profanado. Contudo nem isso se deu repentinamente, de modo que a multidão se tivesse precipitado pelos degraus abaixo, empurrando e esmagando-se uns aos outros; mas dissolveu-se gradualmente, saindo em grupos, enquanto outros eram ainda contidos pelos sacerdotes ou estavam em partes separadas do Templo. Todavia, manifestava-se o medo e o terror em toda parte, em diversos graus, de um modo incrível.

 

         Pode-se fazer uma idéia da desordem e confusão que reinava, imaginando um grande formigueiro, de tranqüilo movimento, em que se jogam pedras ou se remexe com um pau; enquanto reina confusão num ponto, em outro ainda continua o movimento e a atividade toda regular e mesmo no lugar onde houve desarranjo, logo começa a restabelecer-se a ordem.

 

         O sumo sacerdote Caifás e seu partido, com audácia desesperada, não perderam a cabeça. Como um hábil governador de uma cidade revoltada, afastou a confusão, ameaçando aqui, exortando ali, desunindo os partidos, atraindo outros com muitas promessas. Devido ao seu endurecimento diabólico e aparente calma, conseguiu impedir uma perigosa perturbação geral, fazendo com que a massa do povo não visse nesses acontecimentos assustadores um testemunho da morte inocente de Jesus. A guarnição do forte Antônia também fez tudo para conservar a ordem; deste modo era o terror e a confusão grande, é verdade, mas cessou a celebração da festa, sem que houvesse tumulto. O povo dispersou-se, ficando ainda com um oculto pavor, que também foi pouco a pouco abafado pela ação dos fariseus.

 

         Essa era a situação geral da cidade; seguem-se agora alguns incidentes particulares, de que ainda me lembro: As duas grandes colunas situadas à entrada do Santuário do Templo e entre as quais estava suspensa a magnífica cortina, afastaram-se no alto, a da esquerda para o sul, a da direita para o norte; a verga que suportavam, abaixou-se e a grande cortina partiu-se em duas, de alto e baixo, com um som sibilante e, caindo as duas partes para os lados, abriu-se o santuário. Essa cortina era vermelha, azul, branca e amarela; trazia o desenho de muitas constelações dos astros e também figuras, como, por exemplo, a da serpente de bronze.

         O santuário estava aberto a todos os olhares. Perto da cela onde Simeão costumava rezar, no muro ao norte, ao lado do santuário, tombou uma pedra grande e a abóbada da cela desabou; em várias salas se afundou o solo, umbrais deslocaram-se a colunas cederam para os lados.

 

         No santuário apareceu, proferindo palavras de ameaça, o Sumo Sacerdote Zacarias, que fora assassinado entre o Templo e o altar; falou também da morte do outro Zacarias e de João Batista, como em geral da morte dos profetas.

         Ele saiu pela abertura que ficara, onde caiu a pedra na cela de Simeão e falou aos sacerdotes que estavam no Santo. Dois filhos do piedoso Sumo Sacerdote Simão o Justo, bisavô do velho sacerdote Simeão que profetizara na apresentação de Jesus no Templo, apareceram como espíritos grandes, perto da grande cátedra (cadeira dos doutores), proferindo palavras severas sobre a morte dos profetas e sobre o sacrifício que ia cessar; exortaram a todos a que seguissem a doutrina de Jesus crucificado.

 

         Perto do altar apareceu o profeta Jeremias, proclamando em voz ameaçadora o fim do sacrifício antigo e o começo do novo. Essas aparições e palavras, em lugares onde só Caifás e os sacerdotes as ouviram, foram negadas ou ocultadas e foi proibido falar nisso, sob pena de grande excomunhão. Mas ouvi-se ainda um grande ruído; abriram-se as portas do santo e uma voz gritou: “Saiamos daqui!” Vi então Anjos, que se retiraram do Templo. O altar do incenso tremeu e caiu um dos vasos de incenso; o armário que continha os rolos da Escritura, tombou e os rolos caíram fora, em desordem; a confusão aumentou, não sabiam mais que hora do dia era.

 

         Nicodemos, José de Arimatéia e muitos outros abandonaram o Templo e foram-se embora. Jaziam corpos de mortos, em vários lugares; outros mortos ressuscitados andavam no meio do povo, exortando-o com palavras severas; à voz dos Anjos que se afastaram do Templo, também eles voltaram às sepulturas. A grande cátedra, no átrio do Templo, caiu. Vários dos 32 fariseus que tinham ido ao Calvário, mais tarde voltaram, durante essa confusão e, como se tinham convertido ao pé da cruz, ficaram ainda mais comovidos com esses sinais, de modo que censuraram com grande energia a Anás e Caifás, retirando-se depois do Templo.

 

         Anás, o verdadeiro chefe dos inimigos de Jesus, que desde muito tempo dirigira todas as intrigas secretas contra o Salvador e os discípulos e que também instruíra os acusadores, estava quase doido de terror; fugia de um canto para outro das salas secretas do Templo; vi-o gritando e torcendo-se em convulsões; levaram-no a um quarto secreto, rodeado de alguns dos partidários. Caifás deu-lhe uma vez um forte abraço, para a reanimar; mas em vão; a aparição dos mortos tinha-o levado ao desespero.

 

         Caifás, apesar de estar também cheio de pavor, estava de tal modo possesso do demônio do orgulho e da obstinação, que não deixava perceber nada do susto que sentia. Cheio de raiva e orgulho, ocultava o medo e mostrava uma testa de bronze aos sinais ameaçadores da cólera divina. Quando, porém, apesar de todos os esforços, não pôde mais fazer as cerimônias da festa, deu ordem de guardar silêncio sobre os prodígios e aparições de que o povo não tinha conhecimento. Disse e mandou outros sacerdotes também dizerem que esses sinais de cólera divina eram provocados pelos partidários do galileu crucificado, que entraram no Templo sem se terem purificado; que somente os inimigos da santa lei, a qual Jesus também quisera derrubar, tinham causado esse terror. Muito se devia também à feitiçaria do galileu que, como em vida, assim também na morte, perturbava a paz do Templo”. Desse modo conseguiu acalmar muitos e intimidar outros com ameaças; muitos, porém, estavam profundamente abalados e ocultavam os sentimentos. A festa foi adiada, até a purificação do Templo. Muitos cordeiros foram imolados; o povo dispersou-se pouco a pouco.

 

         O túmulo de Zacarias, sob o muro do Templo, desabara, arrastando consigo as pedras do muro; Zacarias saiu do túmulo, mas não voltou mais para lá, não sei onde depositou de novo os restos mortais. Os filhos ressuscitados de Simeão o Justo, depositaram os corpos novamente, no túmulo, ao pé do monte do Templo, na hora em que o corpo de Jesus foi preparado para a sepultura.

 

         Enquanto tudo isso se passava no Templo, reinava o mesmo espanto em muitas partes de Jerusalém. Logo depois das três horas, ruíram muitos túmulos, particularmente na região dos jardins, ao noroeste, dentro da cidade. Vi lá, nos túmulos, mortos ainda envoltos em panos; em outros jaziam esqueletos, com farrapos apodrecidos, de muitos saia um mau cheiro insuportável.

 

         No tribunal de Caifás desabaram as escadas em que Jesus fora escarnecido, também parte do fogão do átrio, onde Pedro começara a negar Jesus. A destruição era tal, que era preciso procurar outra entrada. Ali apareceu o corpo do Sumo Sacerdote Simão o Justo, a cuja descendência pertencia Simeão, que proferiu a profecia, na apresentação do Menino Jesus no Templo. Esse falou algumas palavras ameaçadoras, a respeito do julgamento injusto que se fizera ali.

 

         Estavam reunidos alguns membros do Sinédrio. Os criados que no dia anterior deixaram entrar Pedro e João, converteram-se e fugiram para as cavernas onde estavam escondidos os discípulos. No palácio de Pilatos se fendeu a pedra e afundou-se o solo onde Jesus fora apresentado ao povo por Pilatos. Todo o edifício tremeu e vacilou; no pátio do tribunal vizinho se afundou todo o lugar onde estavam sepultados os corpos das inocentes crianças que Herodes mandara assassinar. Em vários outros lugares da cidade se fenderam muros, caíram paredes; mas nenhum edifício foi totalmente destruído.

 

         Pilatos, supersticioso e confuso, estava preso de terror e incapaz de desempenhar o cargo; o terremoto abalou-lhe o palácio, o solo tremia-lhe debaixo dos pés, fugia de uma sala para outra. Os mortos mostravam-se-lhe no átrio do palácio, lançando-lhe em rosto o julgamento iníquo e a sentença contraditória. Julgando que fossem os deuses do profeta Jesus, encerrou-se num quarto secreto do palácio, onde ofereceu incenso e sacrifícios aos deus pagãos, fazendo promessas, para que os ídolos impedissem os deuses do Galileu de fazer-lhe mal. Herodes estava no palácio, desvairado de pavor e mandara fechar todas as portas.

 

         Foram cerca de cem os mortos, de todas as épocas, que em Jerusalém e arredores se levantaram dos sepulcros destruídos e na maior parte se dirigiram, dois a dois, a diversos pontos da cidade, apresentando-se ao povo, que fugia em todas as direções e dando, em algumas palavras, severo testemunho de Jesus. A maior parte dos túmulos estavam situados na solidão do vales, fora da cidade; mas havia-os também nos novos bairros da cidade, especialmente na região dos jardins, ao noroeste, entre a porta angular e a do Calvário; também em redor e debaixo do Templo havia muitos túmulos ocultos ou esquecidos.

 

         Nem todos os mortos que pela destruição dos túmulos ficaram à vista, ressuscitaram; havia muitos que se tornavam vivíveis só porque estavam numa sepultura comum com os outros. Muitos, porém, cujas almas Jesus mandara do Limbo à terra, se levantaram, descobriram o rosto e andavam, como pairando, pelas ruas, iam às casas dos parentes, entravam nas casas dos descendentes, censurando-os com palavras ameaçadoras, por terem tomado parte na morte de Jesus.

 

         Vi as aparições procurarem juntar-se, conforme as antigas amizades e andar duas a duas pelas ruas da cidade. Não vi o movimento dos pés sob as longas túnicas mortuárias, pareciam pairar sobre o solo, sem o tocar; as mãos ou estavam envoltas em largas faixas de linho, ou escondidas nas largas mangas pendentes e ligadas em redor dos braços; os véus do rosto estavam levantados e postos sobre a cabeça; as faces pálidas, amareladas e secas, destacavam-se das longas barbas; as vozes tinham um som estranho e incomum. Essas vozes eram a única manifestação dos corpos, que passavam de lugar em lugar, sem parar e sem se importar com o que encontravam no caminho; parecia que eram só vozes.

 

         Estavam diversamente vestidos, conforme a época da morte e segundo a classe e a idade. Nas encruzilhadas, onde fora promulgada a sentença de morte contra Jesus, paravam, proclamando a glória de Jesus e a maldição dos assassinos. Os homens ficavam longe, escutando-os a tremer e fugiam quando eles continuavam o caminho. No fórum, diante do palácio de Pilatos, ouvi-os proferir palavras ameaçadoras; lembro-me da palavra: “Juiz sanguinário!”

 

         – Todo o povo se ocultou nos cantos mais escondidos das casas; havia grande medo e susto na cidade. Pelas quatro horas da tarde voltaram os mortos para os túmulos. Mas depois da ressurreição de Jesus Cristo ainda apareceram muitos espíritos, em vários lugares. O sacrifício foi interrompido; era uma confusão geral; só uma pequena parte do povo comeu o cordeiro pascal à noite.

        

 

            13. Outras aparições depois da morte de Jesus.

 

 

            Entre os muitos mortos ressuscitados, que dentro e em redor de Jerusalém se contavam cerca de cem, não havia nenhum parente de Jesus. Os túmulos ao noroeste estavam antigamente fora da cidade, mas pelo alargamento da mesma, ficaram depois dentro dos muros. Tive também visões de diversos mortos, que em vários lugares da Terra Santa ressuscitaram, aparecendo aos parentes e dando testemunho de Jesus e da missão que viera cumprir na terra.

 

         Assim vi Zaboc, homem muito piedoso, que tinha dado todos os bens aos pobres e ao Templo e fundado a comunidade dos Essenos, perto de Hebron; foi um dos últimos profetas antes de Cristo e esperava e anelava pela vinda do Messias, de quem tinha muitas revelações; tinha também relações com os antepassados da Sagrada Família. Vi esse Zadoc, que viveu uns cem anos antes de Jesus, ressuscitar a aparecer a diversas pessoas, na região de Hebron. Numa visão anterior vi que foi dos que primeiro depositaram novamente o respectivo corpo e depois acompanharam a alma de Jesus. Vi também vários mortos aparecerem aos discípulos do Senhor, escondidos nas cavernas, exortando-os à fé.

 

         Vi que as trevas e o terremoto espalharam terror e destruição, não só em Jerusalém e arredores, mas também em outras partes do país, mesmo em lugares longínquos. Ainda me lembro dos seguintes casos: Em Tirza desabaram as torres da cadeia, da qual Jesus resgatara alguns presos e vários outros edifícios. Na terra do Cabul houve desabamentos em muitos lugares. Em toda a Galiléia, onde Jesus tinha vivido e pregado mais tempo, vi desabar, em muitos lugares, edifícios, sobretudo muitas casas de fariseus que tinham perseguido Jesus com mais ódio e que então estavam todos na festa em Jerusalém e cujas mulheres e filhos morreram soterrados sob os destroços das casas.

 

         As devastações em redor do lago de Genezaré (mar de Galiléia) eram consideráveis. Em Cafarnaum caíram muitíssimos edifícios; a povoação dos escravos, situada entre Tiberias e os jardins de Zorobabel, Centurião de Cafarnaum, foi quase completamente destruída.

 

         O rochedo que formava uma pequena península no lago e fazia parte de belos jardins do Centurião, perto de Cafarnaum, desmoronou-se todo; o lago entrou pelo vale a dentro e chegou até perto de Cafarnaum, que dantes estava distante quase meia hora. A casa de Pedro e a morda da Santíssima Virgem, entre Cafarnaum e o lago, ficaram intactas. As águas do mar da Galiléia estavam muito agitadas; as margens ruíram em algumas partes e em outras se levantaram. O lago mudou consideravelmente de forma, ficando mais ou menos como está hoje e a configuração das respectivas margens quase não se conhece mais. De maior importância foram as mudanças na extremidade sudoeste do lago, logo abaixo do Tariquéia, onde havia um dique comprido e escuro, que separava o lago de um pântano e dava firme direção às águas do Jordã, ao saírem do lago; todo esse dique foi levado pelas águas, causando vastas destruições.

 

         No lado oriental do lago, onde os porcos dos Gerazenos se tinham lançado no pântano, afundaram-se muitas terras, como também em Gergesa, Gerasa e em todo o distrito de Corazim. Também o monte da segunda multiplicação dos pães sofreu forte abalo e a pedra sobre a qual fora colocado o pão, partiu-se ao meio. Dentro e em redor de Panéas desabaram também muitas casas.

 

         Na Decápolis desapareceram partes inteiras de cidades; muitos lugares na Ásia sofreram grandes prejuízos, como, por exemplo, Nicéa e principalmente muitos lugares a leste e nordeste de Panéas. Também na Galiléia superior vi grande destruição e os fariseus encontraram, ao voltar da festa, muita desgraça em casa. Alguns receberam a notícia já em Jerusalém; foi por isso que os inimigos de Jesus ficaram tão abatidos, até depois de Pentecostes e não ousaram tomar medida alguma importante contra a comunidade do Senhor.

 

         No monte Garizim vi ruir grande parte do Templo. Havia lá um ídolo em cima de um poço, num pequeno Templo, cujo telhado, junto com o ídolo, caiu na água do poço. Em Nazaré desabou metade da sinagoga, da qual os judeus expulsaram Jesus; também a parte do rochedo da qual quiseram lançá-lo no abismo, desmoronou-se.

 

         Muitas montanhas, vales e cidades sofreram forte destruição. O leito do Jordão mudou-se em várias partes; Pois pelos abalos do litoral do mar da Galiléia e pelas mudanças das correntes dos riachos, formaram-se obstáculos e mudou-se a corrente das águas, de modo que o leito do Jordão é hoje muito diferente do que era antes. Em Machérus e em outras cidades de Herodes, ficou tudo calmo e inalterado; essa região estava fora do círculo da penitência e da ameaça, como aqueles homens no horto das Oliveiras, que não caíram e por isso também não se levantaram.

 

         Em algumas regiões, aonde havia muitos espíritos maus, vi-os em grande número afundar-se na terra, juntamente com os edifícios e montes destruídos; os tremores de terra recordaram-me então as convulsões dos possessos, quando o demônio sente que é obrigado a sair. No momento em que, perto de Gergesa, se afundou no pântano parte do monte, de onde outrora os demônios se lançaram no pântano, com a manada de porcos, vi imensa multidão de maus espíritos cair, como uma nuvem sinistra e afundar-se com o monte no abismo.

 

         Creio que foi em Nicéia que vi um acontecimento, de cujos pormenores me lembro só imperfeitamente. Vi um porto, com muitos navios e numa casa, com uma torre alta, perto do porto, vi um homem; era pagão, o capitão do porto. Tinha por obrigação subir muitas vezes à torre e observar o mar, a ver se chegavam navios ou velar por qualquer acontecimento. Vi que, ouvindo forte estrondo sobre os navios do porto e temendo a aproximação de um inimigo, subiu apressadamente à torre; olhando para os navios, viu-lhes pairar acima grande número de figuras escuras, que, com vozes lamentosas, lhe gritaram: “Se queres conservar os navios, leva-os para fora do porto; pois devemos voltar ao abismo; morreu o grande Pan”.

         É o que me lembro ainda distintamente dessa visão; disseram-lhe outras coisas ainda e deram-lhe muitas ordens, onde e como devia revelar, numa viagem marítima iminente, o que lhes tinham dito; exportaram-no também a receber bem os mensageiros que viriam, anunciando a doutrina e a morte daquele que nesse momento tinha falecido.

 

         Os maus espíritos foram desse modo obrigados pelo poder de Deus a avisar esse homem bom, tornando-se assim núncios de sua própria ignomínia. O capitão do porto mandou, pois, pôr a seguro os navios, quando estava iminente uma violenta tempestade; vi então os demônios se lançarem rugindo no mar e a metade da cidade ficou destruída pelo terremoto. A casa com a torre ficou intacta. O homem fez depois longas viagens em navio, cumprindo todas as ordens que recebera e anunciando a morte do grande Pan, como os demônios tinham chamado ao Senhor; mais tarde chegou também a Roma, onde se admiram muito daquela narração. Vi ainda muitas outras coisas desse homem, mas esqueci-as; entre outras, vi que uma das suas narrativas de viagens, misturada com os acontecimentos que contei, se propagou muito entre os povos, mas não me lembro mais da conexão. Creio que tinha um nome semelhante a Tamus ou Tramus.

 

 

           

            14. José de Arimatéia pede a Pilatos o corpo de Jesus.

 

 

 

            Mal se tinha restabelecido um pouco a calma em Jerusalém, depois de tantos acontecimentos assustadores, quando Pilatos, tão consternado, foi importunado de todos os lados com narrativas do que sucedera. Também o Supremo Conselho lhe mandou, como já resolvera de manhã, um requerimento, pedindo que mandasse esmagar as pernas dos sacrificados, para que morressem mais depressa e tirá-los depois da cruz, para que não ficassem pendurados durante o Sábado. Pilatos enviou, pois, os carrascos para esse fim ao Calvário.

 

         Pouco depois vi José de Arimatéia entrar no palácio de Pilatos. Já recebera a notícia da morte de Jesus e resolvera, com Nicodemos, sepultar o corpo do Senhor no sepulcro novo que escavara na rocha do seu jardim, não longe do monte Calvário. Creio tê-lo visto já fora da porta da cidade, onde observou tudo que se passou e deliberou o que se devia fazer; pelo menos vi lá homens que, por ordem dele limpavam o jardim do sepulcro e ainda terminavam algumas obras no interior mesmo. Nicodemos também foi a diversos lugares, para comprar panos e especiarias para o embalsamamento do corpo; depois esperou a volta de José.

 

         Esse encontrou Pilatos muito assustado e incomodado; pediu-lhe francamente e sem hesitação licença para tirar da cruz o corpo de Jesus, rei dos judeus, porque queria sepultá-Lo no seu próprio sepulcro. O fato de um homem tão distinto pedir, com tal insistência, licença para prestar a última homenagem ao corpo de Jesus, a quem o juiz iníquo tão ignominiosamente mandara crucificar, abalou-lhe ainda mais a consciência; aumentou-se-lhe ainda mais a convicção da inocência de Jesus e com ela, o remorso; mas, fingindo calma, perguntou: “Então já está morto?”, pois havia poucos minutos apenas que mandara os carrascos matar os crucificados, quebrando-lhe as pernas.

 

         Mandou por isso chamar o centurião Abenadar, que voltara das cavernas, onde falara com alguns dos discípulos; perguntou-lhe se o rei dos judeus já tinha morrido. Então relatou Abenadar a morte do Senhor, às três horas, as últimas palavras e o grito forte de Jesus, o tremor de terra e o abalo que fendeu o rochedo. Exteriormente parecia Pilatos admirar-se apenas que tivesse morrido tão cedo, porque os crucificados em geral viviam mais tempo; mas interiormente estava assustado e amedrontado, pela coincidência desses sinais com a morte de Jesus.

 

         Queria talvez disfarçar um pouco a crueldade com que procedera; pois despachou imediatamente uma ordem escrita, entregando a José de Arimatéia o corpo do rei dos judeus, com a licença de tirá-Lo da cruz e sepultá-Lo. Estava satisfeito de poder assim pregar uma peça aos príncipes dos sacerdotes, que teriam visto com prazer Jesus ser enterrado ignominiosamente com os dois ladrões. Mandou também alguém ao Calvário, para fazer executar essa ordem. Creio que foi o mesmo Abenadar; pois que o vi tomar parte no descendimento de Jesus da cruz.

        

         Saindo do palácio de Pilatos, foi José de Arimatéia encontrar-se com Nicodemos, que o estava esperando na casa de uma boa mulher, situada numa rua larga, próximo do beco em que Jesus, logo no começo do doloroso caminho da cruz, fora tão vilmente ultrajado. Nicodemos tinha comprado muitas ervas e especiarias para o embalsamamento, em parte da mesma mulher, que vendia ervas aromáticas, em parte em outros negócios, onde a própria mulher fora comprar as especiarias que não tinha, como também vários panos e faixas, necessárias para o embalsamamento.

 

         De todos esses objetos fez-lhe um pacote que pudesse como comodamente transportar. José de Arimatéia também foi ainda a outro lugar, para comprar um pano grande de algodão, muito bonito e fino, com seis côvados de comprimentos e vários côvados de largura. Os criados foram buscar no armazém, ao lado da casa de Nicodemos, escadas, martelos, ponteiros, odres, vasilhas, esponjas e outros objetos necessários para aquele fim. Colocaram os objetos menores numa padiola, semelhante àquela em que os discípulos levaram o corpo de João Batista, que tinham raptado do castelo forte de Herodes.

 

 

            15. O coração de Jesus trespassado por uma lança. Esmagamento das pernas e morte dos ladrões.

 

 

            Durante todo esse tempo reinava silêncio e tristeza sobre o Gólgota. O povo assustado dispersara-se, indo esconder-se em casa. A Mãe de Jesus e João, Madalena, Maria, filha de Cléofas e Salomé estavam, em pé ou sentados, em frente à cruz, com as cabeças veladas, chorando. Alguns soldados estavam sentados no barranco, com as lanças fincadas no chão. Cássio, a cavalo, ia de um lado para outro. Os soldados conversavam do alto do Calvário com outros que estavam mais em baixo. O céu estava nublado e toda a natureza parecia abatida e de luto. Vieram então seis carrascos, subindo o monte Calvário; trouxeram escadas, pás e cordas, como também pesadas maças de ferro de três gumes, para esmagar as pernas dos executados.

 

         Quando os carrascos entraram no círculo do suplício, os parentes de Jesus retiraram-se um pouco. A Santíssima Virgem foi novamente presa de angústia e receio de que os verdugos ainda maltratassem o Corpo de Jesus; pois encostaram as escadas à cruz e subindo, sacudiram o santo Corpo conferindo se apenas se fingia morto. Como, porém, notassem que o corpo já estava inteiramente frio e rígido e João, a pedido das mulheres piedosas, a eles se dirigisse para impedir a crueldade, deixaram provisoriamente o corpo do Senhor, mas não pareciam convencidos de que estivesse morto.

 

         Subiram então pelas escadas nas cruzes dos ladrões; dois esmagaram, com as maças cortantes, os ossos dos braços acima e abaixo do cotovelo, um terceiro fez o mesmo acima e nas canelas, abaixo dos joelhos. Gesmas soltou gritos horríveis. Esmagaram-lhe em três golpes o peito, para acabar de matá-lo. Dimas gemeu com a tortura e morreu; foi o primeiro mortal que tornou a ver o Redentor. Os carrascos desataram então as cordas, deixando cair os corpos no chão e arrastando-os depois com cordas, para o vale entre o Calvário e o muro da cidade, onde os enterraram.

 

         Os carrascos ainda pareciam duvidar da morte do Senhor e os parentes de Jesus estavam ainda mais assustados, pela brutalidade com que haviam procedido e com medo de que pudessem voltar. Mas Cássio, oficial subalterno, homem de 25 anos, ativo e um pouco precipitado, cuja vista curta e cujos olhos tortos, juntamente com os ares de importância que se dava, provocavam freqüentemente a troça dos subordinados, recebeu de repente uma inspiração sobrenatural. A crueldade e vil brutalidade dos carrascos, o medo das santas mulheres e um impulso repentino, causando por uma graça divina, fizeram-no cumprir uma profecia.

 

         Ajustando a lança, que trazia em geral dobrada e encurtada, firmou-lhe a ponta e virando o cavalo, esporeou-o para subir o cume, onde estava a cruz e onde o cavalo quase não podia virar; vi como o afastou da fenda do rochedo. Parando assim entre a cruz do bom ladrão e a de Jesus, ao lado direito do corpo de Nosso Salvador, tomou a lança com ambas as mãos e introduziu-a com tal força no lado direito do Santo Corpo, através das entranhas e do coração, que a ponta da lança saiu um pouco do lado esquerdo, abrindo uma pequena ferida. Quando tirou depois com força a santa lança, brotou da larga chaga do lado direito do Redentor um rio de sangue e água que, caindo, banhou o rosto de Cássio, como uma onda de salvação e graça. Ele saltou do cavalo e, prostrando-se de joelhos, bateu no peito e confessou a fé em Jesus em alta voz, diante de todos os presentes.

 

         A Santíssima Virgem e os outros, cujos olhos estavam sempre fixos no Salvador, viram a súbita ação do oficial com grande angústia e acompanharam o golpe da lança com um grito de dor, precipitando-se para a cruz. Maria caiu nos braços das amigas, como se a lança lhe tivesse transpassado o próprio coração e sentisse o ferro cortante atravessá-lo de lado a lado. Cássio, caindo de joelhos, louvava a Deus, pois, iluminado pela graça, ficou crendo e também os olhos do corpo se lhe curaram e desde então via tudo claro e distinto. Mas ao mesmo tempo ficaram todos profundamente comovidos à vista do sangue que, misturando com água, se juntara, espumante, numa cavidade da rocha, ao pé da cruz; Cássio, Maria Santíssima, as santas mulheres e João apanharam o sangue e a água em tigelas, guardando-o depois em frascos e enxugando-o da rocha com panos.

 

         Cássio estava como que transformado; tinha recobrado a vista perfeita e profundamente comovido, curvava-se diante de Deus, com coração humilde. Os soldados presentes, tocados pelo milagre que se operara nele, prostaram-se de joelhos, batiam no peito e louvavam a Jesus. O sangue e a água corriam abundantemente da larga chaga do lado direito do Salvador, sobre a rocha limpa, onde se juntaram; apanharam-no, com indizível comoção e as lágrimas de Maria e Madalena misturavam-se-lhe. Os carrascos, que nesse ínterim tinham recebido a ordem de Pilatos de não tocar no corpo de Jesus, que doara a José de Arimatéia, para o sepultar, não voltaram mais.

 

         A lança de Cássio, constava de várias peças, que eram ajustadas uma sobre a outra; quando dobrada, parecia apenas um bastão, de pouco comprimento. A parte de ferro que feria, tinha a forma de pêra achatada; quando se queria servir da lança, enfiava-se-lhe a ponta e abriam se em baixo duas lâminas de ferro, curvas e movediças.

 

         Tudo isso se passou em redor da cruz de Jesus, logo depois das quatro horas, quando José de Arimatéia e Nicodemos estavam ocupados em juntar as coisas necessárias para o enterro. Os criados de José de Arimatéia foram, enviados para limpar o sepulcro e anunciaram aos amigos de Jesus no Gólgota que José recebera de Pilatos licença para tirar da cruz o corpo do Mestre e sepultá-lo no seu sepulcro; então voltou João, com as santas mulheres, à cidade, dirigindo-se ao monte Sião, para que a Santíssima Virgem pudesse tomar algum alimento e também para buscar alguns objetos para o enterro. Maria tinha uma pequena habitação nos edifícios laterais do Cenáculo. Não entraram pela porta mais próxima, mas, mais ao sul, pela porta que conduz a Belém; pois a porta para o Calvário estava fechada e ocupada por dentro pelos soldados que os fariseus tinham requisitado, com medo de um levante do povo.

 

 

            16. A descida de Jesus aos infernos.

 

 

         Quando Jesus, com um grito forte, rendeu a santíssima alma, vi-a, qual figura luminosa, acompanhada de muitos Anjos, entre os quais também Gabriel, descer pela terra a dentro, ao pé da cruz. Vi, porém, que a divindade lhe ficou unida tanto à alma, como também ao corpo, pregado à cruz. Não sei explicar o modo porque se passou. Vi o lugar aonde se dirigiu a alma de Jesus; era dividido em três partes, parecendo três mundos e eu tinha a sensação de que tinha a forma redonda e que cada um estava separado do outro por uma esfera.

 

         Antes de chegar ao limbo, havia um lugar claro, e por assim dizer, mais verdejante e alegre. Era o lugar em que vejo sempre entrarem as almas remidas do purgatório, antes de serem levadas ao céu. O limbo, onde se achavam os que esperavam a redenção, estava cercado de uma esfera cinzenta, nebulosa e dividido em vários círculos. Nosso Salvador, conduzido pelos Anjos como em triunfo, entrou por entre dois desses círculos, dos quais o esquerdo encerrava os Patriarcas até Abraão e o direito as almas de Abraão até João Batista.Jesus penetrou por entre os dois; eles, porém, ainda não o conheciam, mas estavam todos cheios de alegria e desejo; foi como se dilatassem esses páramos da saudade angustiosa, como se ali entrassem o ar, a luz e o orvalho da Redenção.

 

         Tudo se deu rapidamente, como o sopro do vento. Jesus penetrou através dos dois círculos, até um lugar cercado de neblina, onde se achavam Adão e Eva, nossos primeiros pais. Falou-lhes e adoraram-no com indizível felicidade. O cortejo do senhor, ao qual se juntou o primeiro casal humano, dirigiu-se então à esquerda, ao limbo dos Patriarcas que tinham vivido antes de Abraão. Era uma espécie de purgatório; pois entre eles se moviam, cá e lá, maus espíritos, que atormentavam e inquietavam algumas dessas almas de muitas maneiras.

 

         Os anjos bateram e mandaram que abrissem; pois havia lá uma entrada, uma espécie de porta, que estava fechada; os anjos anunciaram a vinda do Senhor, parecia-me ouvi-los exclamar: “Abri as portas!” Jesus entrou triunfantemente; os espíritos maus, retirando-se, gritaram: “Que tens conosco? Que queres fazer de nós? Queres crucificar-nos também?, etc”. 

 

         – Os anjos, porém, amarraram-nos e empurraram-nos para diante. Essas almas sabiam pouco de Jesus, tinham só uma idéia obscura do Salvador; Jesus anunciou-lhes a Redenção e eles lhe cantaram louvores. Dirigiu-se então a alma do Senhor ao espaço a direita, ao verdadeiro limbo, em frente ao qual se encontrou com a alma do bom ladrão que, cercado de espíritos maus, foi precipitada no inferno. A alma de Jesus dirigiu-lhes algumas palavras e entrou então no seio de Abraão, acompanhada dos Anjos, das almas remidas e dos demônios expulsos.

 

         Esse lugar parecia-me situado um pouco mais alto; era como se subisse do subterrâneo de uma igreja à igreja superior. Os demônios amarrados quiseram resistir, não queriam passar; mas foram levados a força pelos Anjos. Neste lugar estavam todos os santos Israelitas, a esquerda dos Patriarcas, Moisés, os Juizes, os Reis; a direita os profetas e todos os antepassados e parentes de Jesus, até Joaquim, Ana, José, Zacarias, Isabel e João.

 

         Nesse lugar não havia nenhum mau espírito, nem tormento algum, a não ser o desejo ansioso da Redenção, que se realizaria enfim. Indizível delicia e felicidade enchia as almas todas, que saudavam e adoravam o Salvador; os demônios amarrados foram obrigados a confessar sua ignomínia diante delas. Muitas dessas almas foram enviadas à terra, para entrar nos respectivos corpos e dar testemunho do Senhor. Foi nesse momento que tantos mortos saíram dos sepulcros em Jerusalém; apareciam como cadáveres ambulantes, depositando depois novamente os corpos, como um mensageiro da justiça deposita o manto oficial, depois de ter cumprido as ordens do superior.

 

         Vi depois o cortejo triunfal do Salvador entrar numa esfera mais baixa, uma espécie de lugar de purificação, onde se achavam piedosos pagãos e tinham tido um pressentimento da verdade  e o desejo de conhecê-la. Havia entre eles espíritos maus, porque tinham ídolos; vi os espíritos malignos forçados a confessar o embuste e as almas adorarem o Senhor com alegria tocante. Os demônios desse lugar foram também amarrados e levados no cortejo. Assim vi o Salvador passar triunfalmente com grande velocidade, por vários lugares onde estavam almas encerradas, libertando-as e fazendo ainda muitas outras coisas, mas no meu estado de miséria não posso contar tudo.

 

         Por fim o vi aproximar-se, com ar severo, do centro do abismo, do inferno, que me apareceu sob a forma de um imenso edifício horrível, formado de negros rochedos, de brilho metálico, cuja entrada tinha enormes portas, terríveis, pretas, fechadas com fechaduras e ferrolhos que causavam medo. Ouviam-se uivos de desespero e gritos de tormento, abriram-se as portas e apareceu um mundo hediondo e tenebroso.

 

         Assim como vi as moradas dos bem-aventurados sob a forma de uma cidade, a Jerusalém celeste, com muitos palácios e jardins, cheios de frutas e flores maravilhosas, de várias espécies, conforme as inúmeras condições e graus de santidade, assim vi também o inferno como um mundo separado, com muitos edifícios, moradas e campos. Mas tudo destinado, ao contrário, a tortura e as penas dos condenados. Como na morada dos bem aventurados tudo é disposto segundo as causas e condições da eterna paz, harmonia e alegria, assim no inferno se manifesta em tudo a eterna ira, a discórdia e desespero.

 

         Como no céu há muitíssimos edifícios, indizivelmente belos, transparentes, destinados a alegria e adoração, assim há no inferno inúmeros e variados cárceres e cavernas, cheios de tortura, maldição e desespero. No céu há maravilhosos jardins, cheios de frutos de gozo divino; no inferno horrendos desertos e pântanos, cheios de tormentos e angustias e de tudo que pode causar horror, medo e nojo.

 

         Vi tempos, altares, castelos, tronos, jardins, lagos, rios de maldição, de ódio, de horror, de desespero, de confusão, de pena e tortura; com há no céu rios de benção, de amor de concórdia, de alegria e felicidade; aqui a eterna, terrível discórdia dos condenados; lá a união bem-aventurada dos santos.

 

         Todas as raízes da corrupção e do erro produzem aqui tortura e suplicio, em inumeráveis manifestações e operações; há só um pensamento reto: a idéia austera da justiça divina, segundo a qual cada condenado sofre a pena, o suplicio, que é o fruto necessário de seu crime; pois tudo que se passa e se vê de horrível nesse lugar, é a essência, a forma e a perversidade do pecado desmascarado, da serpente que atormenta com o veneno maldoso os que o alimentaram no seio. Vi lá uma colunata horrorosa, em que tudo se referia ao horror e a angústia, como no reino de Deus a paz e ao repouso. Tudo se compreende facilmente, ao vê-lo, mas é quase impossível exprimir tudo em palavras.

 

         Quando os anjos abriram as portas, viu-se um caos de contradição, de maldições, de injurias, de uivos e gritos de dor. Vi Jesus falar a alma de Judas. Alguns dos anjos prostraram exércitos inteiros de demônios. Todos foram obrigados a reconhecer e adorara Jesus, o que foi para eles o maior suplício. Grande número deles foram amarrados a um círculo, que cercava muitos outros, que deste modo também ficaram presos.

 

         No centro havia um abismo de trevas, Lúcifer foi amarrado e lançado nesse abismo, onde vapores negros lhe ferviam em redor. Tudo se fez segundo os decretos divinos. Ouvi dizer que Lúcifer, se não me engano, 50 ou 60 anos antes do ano 2.000 de Cristo, seria novamente solto por certo tempo. Muitas outras datas e números foram indicados, dos quais não me lembro mais. Deviam ser soltos ainda outros demônios antes desse tempo, para provação e castigo dos homens. Creio que também em nosso tempo era a vez de alguns deles e de outros pouco depois do nosso tempo.

 

         É-me impossível contar tudo quanto me foi mostrado; são muitas coisas e não as posso relatar em boa ordem; também me sinto tão doente e quando falo dessas coisas, elas se me representam novamente diante dos olhos e só o aspecto já é suficiente para nos fazer morrer.

 

         Ainda vi exércitos imensos de almas remidas saírem do purgatório e do limbo, acompanhando o Senhor, para um lugar de delicias abaixo da Jerusalém celeste. Foi lá que vi também, há algum tempo, um amigo falecido. A alma do bom ladrão foi também conduzida para lá e viu assim o Senhor no Paraíso, conforme a promessa. Vi que nesse lugar foram preparados banquetes de alegria e conforto, como os tenho visto já muitas vezes, em visões consoladoras.

 

         Não posso indicar com exatidão o tempo de tudo que se passou, como também não posso contar tudo quanto vi e ouvi lá porque eu mesma não compreendo mais tudo, já porque podia ser mal compreendida pelos ouvintes. Vi, porém, o Senhor em lugares muito diferentes, até no mar, parecia santificar e libertar todas as criaturas; em toda parte fugiam os maus espíritos diante dele e lançaram-se no abismo. Vi também a alma do Senhor em muitos lugares da terra.

 

         Vi-O aparecer no sepulcro de Adão e Eva, sob o Gólgota. As almas de Adão e Eva juntaram-se-lhe novamente; falou-lhes e com elas O vi passar, como sob a terra, em muitas direções e visitar os túmulos de muitos profetas, cujas lamas se lhe juntaram, próximo das respectivas ossadas e explicou-lhes o Senhor muitas coisas. Vi-O depois, com esse séqüito escolhido, em que seguia também Davi, passar em muitos lugares de sua vida e paixão, explicando-lhes com indizível amor todos os fatos simbólicos que se tinham dado ali e o cumprimento dessas figuras em sua pessoa.

 

         vi-O especialmente explicar as almas tudo quanto se dera de fatos figurativos no lugar me que foi batizado e contemplei muito comovido a infinita misericórdia de Jesus, que as fez participar da graça de seu santo Batismo.

 

         Causou-me inexprimível comoção ver a alma do Senhor, acompanhada por esses espíritos bem aventurados e consolados, passar, como um raio de luz, através da terra escura e dos rochedos, pelas águas e pelo ar e pairar tão sereno sobre a terra.

 

         É o pouco de que me lembro ainda, de minha contemplação da descida do Senhor aos infernos e da redenção das almas dos Patriarcas, depois de sua morte; mas além dessa visão dos tempos passados, vi nesse dia uma imagem eterna de sua misericórdia para com as pobres almas do purgatório. Vi que, a em cada aniversário desse dia, lança por meio da Igreja, um olhar de salvação ao purgatório; vi que já no Sábado Santo remiu algumas almas do purgatório, que tinham pecado contra ele na hora da crucificação.

 

         A primeira descida de Jesus ao limbo é o cumprimento de figuras anteriores e, por sua vez, é a figura da redenção atual. A descida aos infernos que vi, referia-se ao tempo passado, mas a salvação de hoje é uma verdade permanente; pois a descida de Jesus aos infernos é o plantio de uma árvore de graça, destinada a administrar os seus méritos divinos as almas do purgatório e a redenção contínua e atual dessas almas é o fruto dessa árvore da graça no jardim espiritual do ano eclesiástico.

 

         A Igreja militante deve cuidar dessa árvore, colher-lhe frutos, para os outorgar a Igreja padecente, porque essa nada pode fazer em seu próprio proveito. Eis o que se dá em todos os merecimentos de Nosso Senhor; é preciso cooperar, para ter neles. Devemos comer o pão ganho com os suor do nosso rosto. Tudo quanto Jesus fez por nós no tempo, dá frutos eternos; mas devemos cultivá-los e colhê-los no tempo, para poder gozá-los na eternidade.

 

         A Igreja é como um bom pai de família; o ano eclesiástico é o jardim mais perfeito, com todos os frutos eternos no tempo; em um ano tem bastante de tudo para todos. Ai! Dos jardineiros preguiçosos e infiéis, que deixam perder uma graça, que poderia curar um enfermo, fortalecer um fraco, saciar um faminto: no dia de juízo terão de dar conta até do menor pezinho de erva.

 

Fonte: Extraído do Livro "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - Anna Catharina Emmerich - Ed. MIR.

 

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