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SÍNODO PARA O ORIENTE MÉDIO.

A FÉ É A FORÇA DA IGREJA QUE NÃO VACILA,
APESAR DAS AMEAÇAS DAS FALSAS DIVINDADES.

11.10.10 - Cidade do Vaticano, - A fé da Igreja é o fundamento que não vacila, apesar das ameaças de destruição: foi o que afirmou Bento XVI na manhã desta segunda-feira durante a primeira congregação geral do Sínodo para o Oriente Médio, aberto solenemente neste domingo, na Basílica de São Pedro. O Papa deteve-se sobre a maternidade divina de Maria e chamou a atenção para aquelas falsas divindades como terrorismo, capitalismo e droga, que escravizam o homem.

Queridos irmãos e irmãs,

 

Em 11 de outubro de 1962, trinta e oito anos atrás, Papa João XXIII inaugurava o Concílio Vaticano II. Celebrava-se ainda em 11 de outubro a festa da Maternidade divina de Maria, e, com esse gesto, com essa data, Papa João desejava confiar todo o Concílio às mãos maternas, ao coração materno de Nossa Senhora. Também nós começamos em 11 de outubro, também nós desejamos confiar este Sínodo, com todos os problemas, com todos os desafios, com todas as esperanças, ao coração materno de Nossa Senhora, da Mãe de Deus.

 

Pio XI, em 1930, havia introduzido essa festa, 1600 anos após o Concílio de Éfeso, o qual havia legitimado, para Maria, o título Theotókos, Dei Genitrix. Nesta grande palavra Theotókos, Dei Genitrix, Theotókos, o Concílio de Éfeso havia resumido toda a doutrina de Cristo, de Maria, toda a doutrina da redenção. E, portanto, vale a pena refletir um pouco, um momento, sobre isso de que fala o Concílio de Éfeso, isto de que fala este dia.

 

Na realidade, Theotókos é um título audaz. Uma mulher é Mãe de Deus. Poder-se-ia dizer: como é possível? Deus é eterno, é o Criador. Nós somos criaturas, estamos no tempo: como poderia uma pessoa humana ser Mãe de Deus, do Eterno, dado que nós estamos no tempo, somos todos criaturas?

 

Por isso compreende-se que era forte a oposição, em parte, contra essa palavra. Os nestorianos diziam: pode-se falar de Christotókos, sim, mas de Theotókos não: Theós, Deus, é outro, acima dos acontecimentos da história. Mas o Concílio decidiu isso, e exatamente assim lançou luzes sobre a aventura de Deus, a grandiosidade do quanto fez por nós. Deus não permaneceu em Si: saiu de Si, uniu-se de tal modo, tão radicalmente com este homem, Jesus, que este homem Jesus é Deus, e se falamos d'Ele, podemos sempre também falar de Deus. Não nasceu somente um homem que tinha a ver com Deus, mas n'Ele nasceu Deus sobre a terra. Deus saiu de Si. Mas podemos também dizer o contrário: Deus nos atraiu para si mesmo, de tal forma que não estivéssemos mais fora de Deus, mas no seu íntimo, na intimidade de Deus mesmo.

 

A filosofia aristotélica, bem o sabemos, diz-nos que entre Deus e o homem existe somente uma relação não recíproca. O homem refere-se a Deus, mas Deus, o Eterno, está em si, não muda: não pode ter hoje uma e amanhã outra relação. Está em si, não tem relação ad extra. É uma palavra muito lógica, mas é uma palavra que nos traz desespero: então Deus mesmo não tem relação comigo. Com a encarnação, com o surgimento da Theotókos, isso é mudado radicalmente, porque Deus nos atraiu para si mesmo e Deus em si mesmo é relação e nos faz participar na sua relação interior.

 

Assim estamos no seu ser Pai, Filho e Espírito Santo, estamos no interior do seu ser em relação, estamos em relação com Ele e Ele realmente criou relação conosco. Naquele momento, Deus desejou nascer de uma mulher e ser sempre ele próprio: esse é o grande evento. E assim podemos compreender a profundidade do ato do Papa João, que confiou a Assembleia conciliar, sinodal, ao mistério central, à Mãe de Deus que foi atraída pelo Senhor n'Ele mesmo, e assim nós todos com Ela.

 

O Concílio Vaticano II começou com o ícone da Theotókos. Ao final, Papa Paulo VI reconhece à mesma Nossa Senhora o título de Mater Ecclesiae. E esses dois ícones, que iniciam e concluem o Concílio, estão intrinsecamente vinculados, são, enfim, um só ícone. Porque Cristo não nasceu como um indivíduo entre os outros. Nasceu para criar um corpo: nasceu – como diz João no capítulo 12 de seu Evangelho – para atrair todos a si e em si.

 

Nasceu – como dizem as Cartas aos Colossenses e aos Efésios – para recapitular todo o mundo, nasceu como primogênito de muitos irmãos, nasceu para reunir o cosmo em si, de tal forma que Ele é a Cabeça de um grande Corpo. Onde nasce Cristo, inicia o movimento da recapitulação, inicia o movimento do chamado, da construção do seu corpo, da santa Igreja. A Mãe de Theós, a Mãe de Deus, é Mãe da Igreja, porque é Mãe d'Aquele que veio para reunir-nos todos no seu Corpo ressuscitado.

 

São Lucas faz-nos compreender esse paralelismo entre o primeiro capítulo do seu Evangelho e o primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, que repetem sobre dois níveis o mesmo mistério. No primeiro capítulo do Evangelho, o Espírito Santo vem sobre Maria e assim dá à luz e nos dá o Filho de Deus. No primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, Maria está ao centro dos discípulos de Jesus, que rezam todos juntos, implorando a efusão do Espírito Santo. E assim da Igreja fiel, com Maria no centro, nasce a Igreja, o Corpo de Cristo. Esse dúplice nascimento é o único nascimento do Christus totus, do Cristo que abraça o mundo e nós todos.

 

Nascimento em Belém, nascimento no Cenáculo. Nascimento de Jesus Menino, nascimento do Corpo de Cristo, da Igreja. São dois acontecimentos ou um único acontecimento. Mas entre os dois estão realmente a Cruz e a Ressurreição. E somente através da Cruz acontece o caminho rumo à totalidade do Cristo, rumo ao seu Corpo ressuscitado, na direção da universalização do seu ser na unidade da Igreja. E assim, tendo presente que somente do grão caído na terra surge, em seguida, a grande colheita, do Senhor perfurado sobre a Cruz surge a universalidade dos seus discípulos reunidos nesse seu Corpo, morto e ressuscitado.

Tendo em conta este nexo entre Theotókos e Mater Ecclesiae, o nosso olhar dirige-se ao último livro da Sagrada Escritura, o Apocalipse, onde, no capítulo 12, aparece exatamente essa síntese. A mulher vestida de sol, com doze estrelas sobre a cabeça e lua sob os pés, dá à luz. E dá à luz com um grito de dor, dá à luz com grande dor. Aqui o mistério mariano é o mistério de Belém alargado ao mistério cósmico. Cristo nasce sempre de novo em todas as gerações e, assim, assume, recolhe a humanidade em si mesmo. E esse nascimento cósmico realiza-se no grito da Cruz, na dor da Paixão. E a esse grito da Cruz pertence o sangue dos mártires.

 

Assim, neste momento, podemos lançar o olhar no segundo Salmo desta Hora Média, o Salmo 81, onde se vê uma parte desse processo. Deus está entre os deuses – ainda então considerados em Israel como deuses. Nesse Salmo, em uma grande concentração, em uma visão profética, vê-se o enfraquecimento dos deuses. Aqueles que pareciam deuses não são deuses e perdem o caráter divino, caem por terra. Dii estis et moriemini sicut nomine (cf. Sal 81, 6-7): o enfraquecimento, a queda da divindade.

 

Esse processo que se realiza no longo caminho da fé de Israel, e que é sintetizado em uma única visão, é um processo verdadeiro da história da religião: a queda dos deuses. E assim a transformação do mundo, o conhecimento do verdadeiro Deus, o enfraquecimento das forças que dominam a terra, é um processo de dor. Na história de Israel vemos como esse libertar-se do politeísmo, esse reconhecimento – "somente Ele é Deus" – realiza-se em meio a tantas dores, começando pelo caminho de Abraão, o exílio, os Macabeus, até Cristo, E na história continua esse processo de enfraquecimento, do qual fala o Apocalipse no capítulo 12; fala da queda dos anjos, que não são anjos, não são divindades sobre a terra. E realiza-se realmente, exatamente no tempo da Igreja nascente, onde vemos como, com o sangue dos mártires, são enfraquecidas as divindades, começando pelo imperador divino, todas estas divindades. É o sangue dos mártires, a dor, o grito da Mãe Igreja que lhes faz cair e transforma assim o mundo.

 

Essa queda não é somente o conhecimento de que esses não são Deus; é o processo de transformação do mundo, que custa o sangue, custa o sofrimento das testemunhas de Cristo. E, se vemos vem, percebemos que esse processo não acabou. Realiza-se nos diversos períodos da história de formas sempre novas; também hoje, neste momento, com a dor, o martírio das testemunhas.

 

Pensamos nos grandes poderes da história de hoje, pensamos nos capitais anônimos que escravizam o homem, que não são mais algo do homem, mas são um poder anônimo ao qual os homens servem, pelos quais os homens são atormentados e até mesmo massacrados. São um poder destrutivo, que ameaçam o mundo. E, em seguida, o poder das ideologias terroristas. Aparentemente em nome de Deus é feita violência, mas não é Deus: são falsas divindades, que devem ser desmascaradas, que não são Deus. E, em seguida, a droga, esse poder que, como uma besta voraz, estende as suas mãos sobre todas as partes da terra e destrói: é uma divindade, mas uma divindade falsa, que deve cair. Ou também o modo de viver propagado pela opinião pública: hoje se faz assim, o matrimônio não conta mais, a castidade não é mais uma virtude, e assim por diante.

 

Essas ideologias que dominam, que se impõem com força, são divindade. E na dor dos santos, na dor dos fiéis, da Mãe Igreja, da qual nós somos parte, devem cair essas divindades, deve realizar-se o que diz a Carta aos Colossenses e aos Efésios: as dominações, os poderes caem e tornam-se súditos do único Senhor Jesus Cristo.

 

Desta luta na qual nós estamos, deste enfraquecimento de deus, dessa queda dos falsos deuses, que caem porque não são divindade, mas poderes que destroem o mundo, fala o Apocalipse no capítulo 12, também com uma imagem misteriosa, da qual, parece-me, podem ser feitas diversas belas interpretações. É dito que o dragão coloca um grande rio de água contra a mulher em fuga para oprimi-la. E parece inevitável que a mulher seja afogada neste rio. Mas a boa terra absorve esse rio e ele não pode produzir danos.

 

Eu penso que o rio seja facilmente interpretável: são essas correntes que dominam a todos e que desejam fazer desaparecer a fé da Igreja, a qual não parece mais ter lugar diante da força dessas correntes que se impõem como a única racionalidade, como único modo de viver. E a terra que absorve essas correntes é a fé dos simples, que não se deixa abater por esses rios e salva a Mãe e salva o Filho. Por isso o Salmo diz – o primeiro salmo da Hora Média – a fé dos simples é a verdadeira salvação (cf. Sal 118,130). Essa salvação verdadeira da fé simples, que não se deixa devorar pelas águas, é a força da Igreja. E então retornamos ao mistério mariano.

 

E há também uma última palavra no Salmo 81, "movebuntur omnia fundamenta terrae" (Sal 81,5), vacilam os fundamentos da terra. Percebemos isso hoje, com os problemas climáticos, como são ameaçados os fundamentos da terra, mas são ameaçados pelo nosso comportamento. Vacilam os fundamentos exteriores porque vacilam os fundamentos interiores, os fundamentos morais e religiosos, a fé da qual vem o reto modo de viver. E sabemos que a fé é o fundamento, e, definitivamente, os fundamentos da terra não podem vacilar se permanecem firmes a fé, a verdadeira salvação.

 

E, em seguida, o Salmo diz: "Levantai-vos, Senhor, e julgai a terra" (Sal 81,8). Assim dizemos também nós ao Senhor: "Levantai-vos neste momento, tomai a terra entre as vossas mãos, protegei a vossa Igreja, protegei a humanidade, protegei a terra". E confiamo-nos de novo à Mãe de Deus, a Maria, e rezamos: "Vós, a grande fiel, vós que abristes a terra ao céu, ajudai-nos, abri também hoje as portas, para que seja vencedora a verdade, a vontade de Deus, que é o verdadeiro bem, a verdadeira salvação do mundo". Amém!

 

Fonte: Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé

 

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