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A Visão do Papa Bento XVI
para o Futuro da Igreja

Uma visão para o futuro da Igreja estabelecida em 1969, há 44 anos, pelo relativamente jovem teólogo Joseph Ratzinger, então com 42 anos - quase que exatamente no ponto central de sua vida desde o seu nascimento em 1927 até agora - foi lembrado hoje pelo escritor italiano Marco Bardazzi no site Vatican Insider.

Era uma visão de uma Igreja com "muito menos membros" e com "pouca influência sobre as decisões políticas", ao ponto de ser quase "socialmente irrelevante" e forçada a "começar de novo".

Porém também era uma visão de uma Igreja que iria se encontrar de novo e renascer como uma entidade "mais simples e mais espiritual" na sequência de uma "enorme confusão".

A visão foi estabelecido em uma série de cinco homilias radiofônicas por Ratzinger em 1969, e foi publicada em forma de livro há apenas dois anos pela Ignatius Press como Fé e Futuro*.

Ratzinger disse que estava convencido de que a Igreja moderna estava passando por uma época dramática semelhante à do Iluminismo e da Revolução Francesa.

"Estamos em um ponto de viragem enorme na evolução da humanidade", disse ele. "Esse momento torna o movimento de passagem da era medieval para os tempos modernos parecer insignificante."

Da crise "emergirá uma Igreja que terá perdido muito", alertou. "Terá se tornado pequena e terá que começar praticamente tudo de novo. Ela não será mais capaz de ocupar muitos dos edifícios construídos em sua prosperidade. ... Vai ser uma Igreja mais espiritual, e não vai reivindicar um mandato político flertando ora com a Direita e, em seguida, com a Esquerda. Ela se tornará pobre e a tornará a Igreja dos mansos.“

O processo descrito por Ratzinger era "longo", “Mas quando o processo desta provação tiver passado, um grande poder irá fluir de uma Igreja mais espiritual e simples."

Então, e somente então, Ratzinger concluiu, os católicos começariam a descobrir  "aquele pequeno rebanho de crentes como algo totalmente novo, como uma esperança para eles, uma resposta que sempre estiveram em segredo procurando."

A destruição da missão da Igreja pelo Mundanismo

A visão de Bento XVI acerca do futuro da Igreja ao longo dos últimos 44 anos. 

Uma palestra excepcional que ele deu sobre o assunto há um ano e meio atrás, oferece uma visão do entendimento do Papa sobre esta questão. Sua palestra, vale a pena recordar agora, agora, à luz do anúncio de sua renúncia em 11 de fevereiro, e que aconteceu em 28 de fevereiro.

Em sua viagem apostólica de 22 a 25 de setembro de 2011 à Alemanha, Bento XVI apresentou alguns detalhes de sua visão para o futuro da Igreja em um discurso para os trabalhadores católicos em Freiburg im Breisgau, no último dia da viagem, no domingo, dia 25 de setembro.

"há decênios, a uma diminuição da prática religiosa, constatamos o crescente afastamento duma parte notável de baptizados da vida da Igreja”, Bento começou.

Assim, em certo sentido, ele estava dizendo que a visão que ele tinha estabelecido em 1969 tinha, em 2011, se verificado.

Ele, então, colocou a questão que  esta situação inevitavelmente evoca: não deveria a Igreja mudar?

"Surge a pergunta: Porventura não deverá a Igreja mudar? Não deverá ela, nos seus serviços e nas suas estruturas, adaptar-se ao tempo presente, para chegar às pessoas de hoje que vivem em estado de busca e na dúvida?"


Sua resposta!

"Há uma necessidade de mudança.", disse ele. "Cada cristão e a comunidade dos crentes no seu todo são chamados a uma contínua conversão."

Mas, que tipo de mudança?

Sua resposta: que a Igreja "deverá continuamente também definir-se para além de seu entorno, deverá por assim dizer ‘desmundanizar-se’.”

Este é um árduo caminho de mudança, uma forma contra-cultural.

E é por isso que a relação da Igreja com o mundo sempre deve ser matizada.

Sim, a Igreja deve mudar, e fazer-se "atual".

Mas ela não deve se conformar ao mundo moderno ou progressista, mas antes, ela deve "definir-se para além de seu entorno" e "deverá por assim dizer ‘desmundanizar-se’".

E a razão para isso é que a missão da Igreja é chamar a atenção dos homens e mulheres para além de si mesmas, além de qualquer "presente" no qual habitem, para além de qualquer "mundo moderno" em que vivam, para o que é eterno, ou seja, para Deus.

Bento XVI disse que:

"A missão da Igreja deriva do mistério de Deus uno e trino, do mistério do seu amor criador. E em Deus não está apenas mais ou menos presente o amor; mas Ele mesmo, por sua natureza, é amor.”

"E o amor de Deus não quer ficar isolado em si mesmo, mas quer, como é próprio da sua natureza, difundir-se. Na encarnação e no sacrifício do Filho de Deus, o amor divino alcançou de um modo particular a humanidade – isto é, a nós –, e isto pelo facto de que Cristo, o Filho de Deus, saiu por assim dizer da sua esfera que é ser Deus, encarnou e fez-Se homem; não apenas para confirmar o mundo no seu ser terreno, tornando-se seu companheiro e deixando-o assim como é, mas para o transformar."

Bento então estabeleceu uma visão de uma "economia" que não é uma troca de bens e serviços entre os homens, mas uma troca entre os homens e Deus.

"Do evento cristológico faz parte o dado incompreensível de que há – como dizem os Padres da Igreja – um sacrum commercium, uma permuta entre Deus e os homens", disse Bento.

"Os Padres explicavam-na assim: nós não temos nada que possamos dar para Deus, podemos apenas apresentar-Lhe o nosso pecado. E Ele acolhe-o, assume-o como próprio e, em troca, dá-Se a Si mesmo e a sua glória a nós. Trata-se de uma permuta deveras desigual, que se realiza na vida e na paixão de Cristo.”

"Ele faz-Se pecador, toma o pecado sobre Si, assume aquilo que é nosso e dá-nos aquilo que é Seu...”

"A Igreja fica-se a dever totalmente a esta permuta desigual. Por si mesma nada possui diante d’Aquele que a fundou, de modo que possa dizer: fizemo-lo muito bem! O sentido dela é ser instrumento da redenção, deixar-se permear pela palavra de Deus e introduzir o mundo na união de amor com Deus.”

"A Igreja insere-se na atenção condescendente do Redentor pelos homens. Quando é verdadeiramente ela mesma, a Igreja sempre se sente em movimento, deve colocar-se continuamente ao serviço da missão que recebeu do Senhor. E por isso deve abrir-se incessantemente às inquietações do mundo, do qual ela mesma faz parte, e dedicar-se a elas sem reservas, para continuar a fazer presente a permuta sagrada que teve início com a Encarnação."

Mas esta missão, para ser um "instrumento de redenção", para levar o mundo para esta unidade amorosa com Deus, pode ser frustrada.

"No desenvolvimento histórico da Igreja manifesta-se também uma tendência contrária, ou seja, a de uma Igreja satisfeita consigo mesma, que se acomoda neste mundo, que é auto-suficiente e se adapta aos critérios do mundo.", disse Bento.

"Não é raro dar à organização e à institucionalização uma importância maior do que dá ao seu chamamento a permanecer aberta a Deus e a abrir o mundo ao próximo."

E aqui Bento XVI falou sobre a missão da Igreja e de cada membro da Igreja, usando palavras que podem lançar luz sobre sua decisão de renunciar ao papado.

"Para corresponder à sua verdadeira tarefa", disse Bento um ano e meio atrás, "a Igreja deve esforçar-se sem cessar por distanciar-se desta sua secularização e tornar-se novamente aberta para Deus. Assim fazendo, segue as palavras de Jesus: «Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo» (Jo 17, 16), e é precisamente assim que Ele Se entrega pelo mundo".

Decisão de Bento XVI de "deixar o mundo" e, por assim dizer, "esconder-se" em um pequeno convento no interior das muralhas do Vaticano, pode ser visto como a sua tentativa de tentar realizar a sua verdadeira tarefa, que é "abrir o mundo ao próximo".

Ele acrescentou, provocativamente:

"Em certo sentido, a história vem em ajuda da Igreja com as diversas épocas de secularização, que contribuíram de modo essencial para a sua purificação e reforma interior.".

Ele está dizendo que aqueles períodos nos quais a Igreja, parece ter sido diminuída por forças seculares, pelos poderes deste mundo, são na verdade períodos que são necessários para provocar a "purificação e reforma interior" da Igreja.

E esta é a visão que Bento tem para o nosso futuro.

Que, numa perspectiva humana, perderemos muitos privilégios e muitas glórias. Catedrais podem fechar. Escolas e universidades podem ser abandonadas ou perdidas. Ordens religiosas podem desaparecer. Leis seculares podem colocar uma grande pressão sobre a Igreja.

Mas tudo isso pode ser libertador.

E isso pode ser uma forma de livrar a Igreja de uma fachada de santidade e proporcionar a verdadeira santidade.

"De facto, as secularizações – sejam elas a expropriação de bens da Igreja, o cancelamento de privilégios, ou coisas semelhantes – sempre significaram uma profunda libertação da Igreja de formas de mundanidade: despoja-se, por assim dizer, da sua riqueza terrena e volta a abraçar plenamente a sua pobreza terrena", disse Bento.

O destino da tribo de Levi ...

"Deste modo, partilha o destino da tribo de Levi, que, segundo afirma o Antigo Testamento, era a única tribo em Israel que não possuía uma patrimônio terreno, mas, como porção de herança, tinha tido em sorte exclusivamente o próprio Deus, a sua palavra e os seus sinais", disse ele.

"Com esta tribo, a Igreja partilhava naqueles momentos da história a exigência duma pobreza que se abria para o mundo, para se destacar dos seus laços materiais e assim também a sua ação missionária voltava a ser credível."

E esta é a frase-chave: "assim também a sua ação missionária voltava a ser credível."

Por que é isto que Bento busca, no final.

Como teólogo, como bispo, como um Papa, ele quer que a mensagem de Cristo seja vista pelo que ela é, algo que dá vida, algo libertador.

E se essa mensagem está perdendo credibilidade, toda a missão da Igreja está em perigo.

Se escândalos, se a corrupção, se a hipocrisia, se os encobrimentos, fizeram a mensagem da Igreja uma mensagem de que ninguém consegue ouvir sem desdenhar internamente, então alguma coisa deve ser feita para libertá-la  mais uma vez.

Algo dramático.

Para o bem da mensagem.

Algo como tomar uma ação não tomada, em séculos.

Algo como renunciar ao papado e dedicar-se à vida de oração.

"Os exemplos históricos mostram que o testemunho missionário de uma Igreja ‘desmundanizada’ refulge de modo mais claro", disse Bento.

"Liberta dos fardos e dos privilégios materiais e políticos, a Igreja pode dedicar-se melhor e de modo verdadeiramente cristão ao mundo inteiro, pode estar verdadeiramente aberta ao mundo...”

"A Igreja abre-se ao mundo, não para obter a adesão dos homens a uma instituição com as suas próprias pretensões de poder, mas sim para os fazer reentrar em si mesmos e, deste modo, conduzi-los a Deus – Àquele de Quem cada pessoa pode afirmar com Agostinho: Ele é mais interior do que aquilo que eu tenho de mais íntimo (cf. Conf. III, 6, 11). Ele que está infinitamente acima de mim, todavia está de tal maneira em mim que constitui a minha verdadeira interioridade.

"Através deste estilo de abertura da Igreja ao mundo, é conjuntamente delineada também a forma em que se pode realizar, eficaz e adequadamente, a abertura ao mundo por parte do indivíduo cristão.”

É nestas linhas que se pode encontrar a verdadeira interpretação de Bento do Concílio Vaticano II, e a busca do Concílio para "abrir" a Igreja, de modo que a sua mensagem pudesse ser melhor ouvida pelo mundo. O ponto principal do "abrir-se" não era para tornar-se mundano, mas para ser capaz de pregar para o mundo.

"Não se trata aqui de encontrar uma nova táctica para relançar a Igreja. Trata-se, antes, de depor tudo aquilo que seja apenas táctica e procurar a plena sinceridade, que não descura nem reprime nada da verdade do nosso hoje, mas realiza a fé plenamente no hoje vivendo-a precisa e totalmente na sobriedade do hoje, levando-a à sua plena identidade, tirando dela aquilo que só na aparência é fé, pois na verdade não passa de convenção e hábito.

"Por outras palavras, podemos dizer: a fé cristã constitui sempre, e não apenas no nosso tempo, um escândalo para o homem. Que o Deus eterno se preocupe connosco, seres humanos, e nos conheça; que o Inatingível, num determinado momento e num determinado lugar, se tenha colocado ao nosso alcance; que o Imortal tenha sofrido e morrido na cruz; que nos sejam prometidas a nós, seres mortais, a ressurreição e a vida eterna – crer em tudo isto não passa, aos olhos dos homens, de uma real presunção.”

"Este escândalo, que não pode ser abolido se não se quer abolir o cristianismo, foi infelizmente encoberto, mesmo recentemente, por outros tristes escândalos dos anunciadores da fé", continuou ele.

"Cria-se uma situação perigosa, quando estes escândalos ocupam o lugar do skandalon primordial da Cruz tornando-o assim inacessível, isto é, quando escondem a verdadeira exigência cristã por trás da incongruência dos seus mensageiros."

Percebe-se com estas palavras as terríveis consequências do abuso sacerdotal de crianças para a Igreja, mas não tanto para a Igreja como instituição como para a Igreja como a fonte de uma mensagem de cura e de santidade.

Os escândalos tornaram a Igreja quase incapaz de pregar a sua mensagem essencial.

Isto, também, ajuda a explicar por que Bento decidiu renunciar.

"Esta é mais uma razão para pensar que seja hora novamente de encontrar a verdadeira separação do mundo, de tirar corajosamente o que há de mundano na Igreja", disse Bento.

O Papa resumiu seu argumento para os católicos alemães para os quais estava falando:

"Ser aberta às vicissitudes do mundo significa, para a Igreja ‘desmundanizada’, testemunhar segundo o Evangelho, com palavras e obras, aqui e agora a soberania do amor de Deus. E esta tarefa remete ainda para além do mundo presente: de facto, a vida presente inclui a ligação com a vida eterna...”

"Como indivíduos e como comunidade da Igreja, vivemos a simplicidade dum grande amor que, no mundo, é simultaneamente a coisa mais fácil e a mais difícil, porque requer nada mais nada menos que o doar-se a si mesmo."

Essas linhas merecem ser repetidas. Eles parecem descrever a escolha que Bento XVI fez:

"Como indivíduos e como comunidade da Igreja, vivemos a simplicidade dum grande amor que, no mundo, é simultaneamente a coisa mais fácil e a mais difícil, porque requer nada mais nada menos que o doar-se a si mesmo."

 

Um Texto Apocalíptico do Papa Bento XVI

sobre a Igreja

 

“Ela não será mais capaz de ocupar muitos dos edifícios construídos em sua prosperidade. A medida que o número de seus adeptos diminui... Ela irá perder muitos dos seus privilégios sociais... Como uma pequena sociedade, [a Igreja] irá exigir muito mais da iniciativa individual de seus membros...”

 

“Vai ser difícil para Igreja, pois o processo de cristalização e clarificação* vai lhe custar muito de sua valiosa energia. Isso a deixará pobre e a tornará a Igreja dos mansos...”

 

“O processo será longo e desgastante, como foi o caminho do falso progressismo na véspera da Revolução Francesa, quando um bispo podia ser considerado inteligente se fizesse piada dos dogmas e até insinuasse que a existência de Deus era incerta... Mas quando o processo desta provação tiver passado, um grande poder irá fluir de uma Igreja mais espiritual e simples. Os homens, em um mundo totalmente planejado, se verão indescritivelmente solitários. Terão perdido completamente a visão de Deus, sentirão o horror de toda a sua pobreza. Depois, irão descobrir aquele pequeno rebanho de crentes como algo totalmente novo, como uma esperança para eles, uma resposta que sempre estiveram em segredo procurando.”

 

“E assim parece certo para mim que a Igreja está passando por momentos muito difíceis. A verdadeira crise mal começou. Teremos que contar com convulsões terríveis. Mas estou igualmente certo sobre o que vai permanecer no final: não a Igreja do culto político, que já está morto... mas a Igreja da Fé. Ela pode muito bem não ser o poder social dominante na medida em que ela era até recentemente, mas ela vai desfrutar de um florescimento fresco e ser vista como a casa do homem, onde ele encontrará vida e esperança para além da morte.”

 

Autor: Joseph Ratzinger (Pope Benedict XVI), "The Church Will Become Small", em Faith and the Future (San Francisco: Ignatius Press, 2009)

 

Em: A Casa de Sarto|Tradução: Missa Gregoriana

 

* N.T.: Ao se cristalizar uma solução química para se obter um grande cristal, ao invés de pequenos e muitos, deve-se alternar o ciclo de temperatura, ora alta e ora baixa. Em temperaturas elevadas, os pequenos cristais dissolvem mais rápido do que os grandes e desaparecem. Quando se esfria novamente a solução, as moléculas são re-cristalizadas em um cristal maior. Depois de muitos ciclos consegue-se um único e grande cristal.

Fonte: site Missa Gregoriana e mariamaedaigreja.net

 

 

 

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