
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Jesus quis
padecer tanto por nós,
para nos
fazer compreender
o grande
amor que nos consagra.
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Duas coisas fazem conhecer um amigo, escreve Cícero:
fazer-lhe bem e padecer por ele, e esta é a maior prova de
um verdadeiro amor. Deus já tinha demonstrado seu
amor ao homem, dispensando-lhe inúmeros benefícios, mas,
segundo S. Pedro Crisólogo, beneficiar unicamente ao homem
parecer-lhe-ia muito pouco a seu amor, se não tivesse
encontrado o modo de demonstrar-lhe quanto o amava,
padecendo e morrendo por ele, como o fez de fato, tomando a
natureza humana (Serm. 69). E que maneira mais apta
poderia Deus encontrar para manifestar-nos o amor imenso que
nos consagra, do que fazer-se homem e padecer por nós?
Não poderia se manifestar de outra maneira o amor de Deus
para conosco, escreve a esse respeito S. Gregório Nazianzeno.
Meu amado Jesus, muito vos tendes esforçado por
demonstrar-me vosso afeto e patentear-me vossa bondade.
Grande, pois, seria a ofensa a vós feita, se vos amasse
pouco ou amasse outra coisa além de vós.
2.
Cornélio a Lápide diz que Deus nos deu o maior sinal de
amor, deixando-se ver coberto de chagas, pregado à cruz e
morto por nós. E antes dele, disse S. Bernardo que Jesus em
sua Paixão nos fez conhecer que seu amor para conosco não
podia ser maior do que foi (De pass. c. 14). Escreve o
Apóstolo que, quando Jesus Cristo quis morrer por nossa
salvação, demonstrou até onde chegava o amor de um Deus para
conosco, miseráveis pecadores (Tito 3,4). Ah! meu
amante Salvador, compreendo: todas as vossas chagas me falam
do amor que me tendes. E quem poderá deixar de vos
amar, depois de tantos sinais de vossa caridade? S.
Teresa tinha razão de dizer, ó amabilíssimo Jesus, que quem
não vos ama demonstra que vos desconhece.
3.
Jesus Cristo, mesmo sem padecer e levando na terra uma vida
agradável e deliciosa, poderia nos obter a salvação.
Mas, como diz S. Paulo, havendo-lhe sido proposto o gozo,
sofreu na cruz (Hb 12,2). Ele recusou as
riquezas, as delícias, as honras terrestres, e escolheu uma
vida pobre e uma morte cheia de dores e de opróbrios.
E por quê? Não seria suficiente se ele tivesse suplicado ao
Padre Eterno, com uma petição simples, que perdoasse ao
homem a qual, sendo de valor infinito, bastaria para salvar
o mundo e infinitos mundos? Por que foi que ele quis
suportar tantos tormentos e uma morte tão cruel, havendo se
separado a alma de Jesus de seu corpo exclusivamente por
pura dor, como nota um autor? (Contens. 1. 10, d. 4 c. 1).
Por que tanto esforço para remir o homem? “Se uma
prece de Jesus bastava para remir-nos, responde S.
João Crisóstomo (Serm. 128), contudo não bastou para nos
demonstrar o amor que este Deus nos tinha. O que
bastava à redenção não bastava ao amor”. E S.Tomás
confirma-o, dizendo: “Cristo, sofrendo por amor, pagou
a Deus mais do que exigia a reparação da ofensa do gênero
humano” (III q. 48, a. 2). Porque Jesus muito
nos amava, desejava também ser muito amado por nós e por
essa razão fez o quanto pôde, mesmo a preço de sofrimentos,
para conquistar o nosso amor e nos fazer compreender
que nada mais lhe restava fazer para ser amado por nós. Ele
quis padecer muito, para obrigar-nos a amá-lo muito, diz S.
Bernardo.
4.
E que maior prova de amor, diz o próprio Salvador, poderá
dar um amigo a seu amigo, do que dar a vida por seu amor? (Jo
15,13). Mas vós, ó amantíssimo Jesus, diz S. Bernardo,
fizestes mais do que isso, já que quisestes dar a vida por
nós, não vossos amigos, mas inimigos e rebeldes. É o que faz
notar o Apóstolo, quando escreve: “Deus faz brilhar a
sua caridade em nós, porque, quando ainda éramos pecadores,
em seu tempo Cristo morreu por nós” (Rm 5,8). Vós,
pois, ó meu Jesus, quisestes morrer por mim, vosso inimigo,
e eu poderei resistir a tão grande amor? Eia, pois, já que
com tanto ardor desejais que vos ame sobre todas as coisas,
repelirei todo outro amor e quero amar-vos a vós somente.
5.
São João Crisóstomo diz que o fim principal que teve Jesus
em sua paixão foi o de manifestar o seu amor e assim atrair
os nossos corações com a recordação dos sofrimentos por nós
suportados (De Pass. s. 6). E S. Tomás ajunta que, por
meio da Paixão de Jesus, chegamos ao conhecimento da
grandeza do amor que Deus dedica ao homem. E já
antes dele disse S. João: Nisto conhecemos a caridade
de Deus, que ele entregou sua alma por nós (1Jo
3,16). Ó meu Jesus, ó cordeiro imaculado, por mim
sacrificado na cruz, que não seja baldado o que padecestes
por mim, antes fazei que me aproveite de tantos sofrimentos
vossos. Prendei-me inteiramente com os doces laços de vosso
amor, para que não vos abandone nem me separe mais de vós.
6.
Refere S. Lucas que, conversando Moisés e Elias no monte
Tabor sobre a Paixão de Jesus Cristo, denominaram-se um
excesso: “E falaram de seu excesso, que realizaria em
Jerusalém” (Lc 9,31). Com razão, diz S. Boaventura,
a Paixão de Jesus foi chamada em excesso, visto ter
sido um excesso de dor e um excesso de amor. Um
autor piedoso acrescenta: Que mais podia padecer que não
sofresse? O sumo excesso de amor atingiu seu zênite (Constens.
1. 10, d. 4). E não é verdade? A lei divina não impõe
outra obrigação aos homens a não ser amar a seu próximo como
a si mesmo. Jesus, porém, amou os homens mais do que
a si mesmo, é expressão de S. Cirilo. Por isso, vos direi
com S. Agostinho: Vós, meu amado Redentor, chegastes a
amar-me mais do que a vós mesmo, já que para me salvar
quisestes sacrificar vossa vida divina, vida infinitamente
mais preciosa que as vidas de todos os homens e de todos os
anjos juntos.
7.
Ó Deus infinito exclama o Abade Guerrico, vós, por amor do
homem (se for lícito dizê-lo), vos tornastes pródigo de vós
mesmo. E como não? Pergunta se não só quisestes dar os
vossos bens, mas até vós mesmo para reaver o homem? Ó
prodígio, ó excesso de amor, digno só de um infinito amor!
Quem poderá, mesmo de longe, diz S. Tomás de Vilanova,
compreender a imensidade de vosso amor em vos amar tanto a
nós, míseros vermes, chegando a morrer e a morrer na cruz
por nós? Sim, semelhante amor excede toda medida,
toda inteligência (In Nat. Dom. c. 3).
8.
É coisa agradável ver-se alguém estimado por uma alta
personagem, tanto mais se esta estiver disposta a
felicitá-lo com uma grande fortuna. Oh! quanto mais
agradável e estimável nos deverá ser o ver-nos amados por
Deus, que nos pode transmitir uma fortuna eterna? Na
antiga lei o homem podia duvidar se Deus o amava com
ternura. Depois, porém, de vê-lo sobre um patíbulo derramar
seu sangue e morrer, como poderíamos ainda duvidar que ele
nos ama com toda a ternura possível? Minha alma,
contempla o teu Jesus, como ele está pendente na cruz, todo
chagado: eis como ele te demonstra bem claramente por suas
chagas o amor de que está repleto seu coração. “O
segredo do coração se revela pelas chagas do corpo”,
diz S. Bernardo. Meu caro Jesus, aflige-me ver-vos morrer
sob a pressão de tantas dores nesse madeiro de opróbrio, mas
tudo me consola e me inflama em amor por vós, conhecendo por
meio dessas chagas o amor que me tendes. Serafins do céu,
que pensais da caridade de meu Deus, que me amou e se
entregou a si mesmo por mim?
9.
Afirma S. Paulo que os pagãos, ouvindo pregar que Jesus foi
crucificado por amor dos homens, tinham isso em conta de uma
loucura inacreditável: Nós, porém, pregamos a Cristo
crucificado, que é para os judeus um escândalo e para os
pagãos uma loucura (1Cor 1,23). Como é possível,
diziam, crer que um Deus onipotente, que não precisa de
ninguém para ser sumamente feliz, tenha querido fazer-se
homem para salvar os homens e morrer numa cruz? Seria
o mesmo que crer que um Deus se tornou louco de amor pelos
homens. E, assim pensando, recusavam aceitar a fé!
Esta grande obra da redenção, que os pagãos julgavam e
chamavam uma loucura, sabemos nós que Jesus a empreendeu e
realizou. Vimos a sabedoria eterna, diz S. Lourenço
Justiniano, o Unigênito de Deus tornado como louco, por
assim dizer, pelo amor excessivo que tinha aos homens. Sim,
porque não deixa de ser uma loucura de amor, ajunta o
cardeal Hugo, querer um Deus morrer pelo homem (In 1Cor 1).
10.
O beato Jacopone, que no século fora um literato, feito
franciscano, parecia haver-se tornado louco de amor por
Jesus Cristo. Apareceu-lhe uma vez Jesus e disse-lhe:
“Jacopone, por que fazes essas loucuras?” “Por que as
faço? Porque vós mas haveis ensinado. Se eu sou louco, vós
ainda sois mais, havendo querido morrer por mim”.
Também S. Maria Madalena de Pazzi, arrebatada em êxtases,
exclamava: “Ó Deus de amor! Ó Deus de amor! É demais o
amor que tendes às criaturas, ó meu Jesus” (Vita c.
11). Uma vez, toda fora de si, em êxtases, tomou um
crucifixo e se pôs a correr pelo convento, gritando:
“ó amor, ó amor; não cessarei jamais de chamar-vos amor, ó
meu Deus”. E, voltando-se para as Religiosas, disse:
“Não sabeis, caras Irmãs, que o meu Jesus é só amor e
até ouso dizer e sempre o direito, louco de amor?”
Dizia que, quando chamava Jesus amor, desejaria ser ouvida
do mundo inteiro, a fim de que fosse conhecido e amado por
todos o amor de Jesus. De quanto em vez se punha a tocar o
sino para que todos os povos da terra, como desejava, se
possível fosse, viessem amar a seu Jesus.
11.
Permiti-me dizê-lo, ó meu doce Redentor, muita razão não
tinha em vossa esposa de chamar-vos louco de amor. E não
parece uma loucura o terdes querido morrer por mim, um verme
ingrato, como sou, de quem já prevíeis as ofensas e as
traições que vos deveria fazer? Mas se vós, ó meu
Deus, quase enlouquecestes por amor de mim, como é que eu
não chego a enlouquecer por amor de um Deus? Depois de vos
haver visto morto por mim, como poderei pensar em outro,
além de vós? Como poderei amar outra coisa além de vós?
Oh! sim, meu Senhor, meu sumo bem, mais amável que todos
os outros bens, eu vos amo mais do que a mim mesmo.
Prometo-vos não amar de hoje em diante outro bem fora de vós
e pensar sempre no amor que me haveis demonstrado, morrendo
no meio de tantos tormentos por mim.
12.
Ó flagelos, ó espinhos, ó cravos, ó cruz, ó chagas, ó
tormentos, ó morte de meu Jesus, vós muito me forçais e
obrigais a amar a quem tanto me amou. Ó Verbo
encarnado, ó Deus amoroso, minha alma se abrasa em amor por
vós. Desejaria amar-vos tanto que não tivesse outro prazer
que dar-vos prazer, ó dulcíssimo Senhor meu, e visto que
tanto desejais o meu amor, eu protesto que não quero mais
viver senão para vós, e fazer tudo o que quereis de mim. Ó
meu Jesus, ajudai-me, fazei que eu vos agrade inteiramente e
sempre, no tempo e na eternidade. Maria, minha Mãe,
rogai a Jesus por mim, para que me conceda o seu amor, já
que outra coisa não desejo nesta e na outra vida que amar a
Jesus. Amém.
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