
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Do suor de sangue e
agonia de Jesus no horto
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Contemplai como o nosso amorosíssimo Salvador,
chegando ao jardim de Getsêmani, quis dar começo à sua
dolorosa paixão, permitindo que os sentimentos de temor, de
tédio e de tristeza viessem afligi-lo com todas as suas
conseqüência. Começou a ter pavor e angustiar-se e
entristecer-se (Mt 26,37; Mc 14,33).
Começou primeiramente a sentir um grande temor da morte e
das penas que teria em breve de sofrer: Começou a
atemorizar-se.
Mas como é isso possível? Não foi então ele que se ofereceu
espontaneamente a sofrer tais tormentos? Foi sacrificado
porque ele mesmo o quis. Não foi ele que tanto desejara o
momento de sua paixão, tendo dito pouco antes: Desejei
ardentemente comer esta páscoa convosco? E agora como é que
está tão cheio de temor de sua morte, que chega a rogar a
seu Pai que dela o livre: Meu Pai, se for possível,
afastai de mim este cálice? (Mt 26,39).
S.
Beda, o Venerável, responde: Pede se afaste o cálice
para mostrar que é verdadeiramente homem (In Mc 14).
Nosso amantíssimo Senhor muito desejava morrer por nós, para
com sua morte patentear-nos o amor que nos tinha; mas,
para que os homens não pensassem que ele tinha tomado um
corpo fantástico (como o afirmaram alguns hereges)
ou então por virtude de sua divindade ele tivesse morrido
sem experimentar nenhuma dor, fez essa súplica a seu Pai,
não para ser atendido, mas para nos dar a entender que
morria como homem e morria atormentado com um grande temor
da morte e das dores que a deviam acompanhar.
Ó
Jesus amabilíssimo, quisestes tomar sobre vós a nossa
timidez para nos conceder a vossa coragem no sofrer os
trabalhos desta vida. Sede bendito para sempre por
tanta piedade e amor. Que todos os corações vos amem quanto
vós o desejais e mereceis.
2.
Começou a angustiar-se. Começou também a sentir um
grande tédio das penas que lhe estavam aparelhadas.
Quando se está desgostoso, até as delícias enfastiam.
Oh! quantas angústias inseparáveis de tal tédio não deveria
causar a Jesus o horrendo aparato que então lhe passou pela
mente, de todos os tormentos exteriores, que deveria
martirizar horrendamente seu corpo e sua alma bendita!
Apresentaram-se distintamente diante de seus olhos todas as
dores que deveria sofrer, todos os escárnios que deveria
receber dos judeus e dos romanos, todas as injustiças que
lhe fariam os juízes de sua causa, e de modo particular se
lhe apresentou à mente a morte dolorosíssima que teria de
suportar, abandonado de todos, dos homens e de Deus,
num mar de dores e de desprezos. E foi justamente
isso que lhe ocasionou um desgosto tão amargo que o obrigou
a pedir conforto a seu Pai eterno. Ah! meu Jesus, eu
me compadeço de vós, vos agradeço e vos amo.
3.
Apareceu-lhe então um anjo do céu que o confortou
(Lc 22,43). Veio o conforto, mas este mais aumenta do que
lhe alivia a dor, diz S. Beda. Sim, porque o anjo o
confortou para padecer mais por amor dos homens e para
glória de seu Pai. Oh! quantas angústias vos causou este
vosso primeiro combate, ó meu amado Senhor! No
decorrer de vossa paixão, os flagelos, os espinhos, os
cravos vieram uns após outros atormentar-vos; no horto,
porém, os sofrimentos de toda a vossa paixão vos assaltam
todos juntos e vos afligem ao mesmo tempo. E vós
aceitastes tudo por meu amor e por meu bem. Ah! meu Deus,
quanto me penaliza não vos haver amado pelo passado e ter
anteposto os meus gostos criminosos à vossa santa vontade.
Detesto-os agora mais que todos os males e me arrependo de
todo o coração. Jesus, perdoai-me!
4.
Começou a entristecer-se e a magoar-se. Com o temor e
com o tédio, começou Jesus a sentir ao mesmo tempo uma
grande melancolia e aflição de espírito. Mas,
Senhor, não fostes vós que infundistes tão grande alegria
aos vossos mártires no meio dos tormentos, que chegavam até
a desprezar os sofrimentos e a morte? De S. Vicente diz S.
Agostinho que falava com tanta alegria ao ser martirizado,
que parecia ser um o que padecia e outro o que falava.
Narra-se de S. Lourenço que, ardendo nas grelhas, era tão
grande a consolação que sentia em sua alma, que insultava o
tirano, dizendo: “Vira-me e come”. Como é que vós, ó meu
Jesus, que destes tanta alegria aos vossos servos na morte,
escolhestes para vós uma tristeza tão grande ao morrer?
5.
Ó alegria do paraíso, que alegrais o céu e a terra com o
vosso júbilo, por que vos vejo agora tão aflito e tão
triste, e vos ouço dizer que a tristeza que vos aflige é
suficiente para dar-vos a morte? “Minha alma está
triste até à morte” (Mc 14,34). Por que, meu
Redentor? Ah! já vos compreendo: não foram tanto os
sofrimentos de vossa paixão, quanto os pecados dos homens,
entre estes os meus, que vos causaram então aquele grande
temor da morte.
6.
Tanto o Verbo eterno amava seu Pai quanto odiava o pecado,
do qual bem conhecia a malícia. Por isso, para tirar o
pecado do mundo e para não ver mais seu amado Pai ofendido,
ele veio à terra e fez-se homem e resolveu sofrer uma paixão
e uma morte tão dolorosa. Vendo, porém, que, apesar de
todas as suas penas, ainda se cometeriam tantos pecados no
mundo, esta dor, diz S. Tomás , superou toda a dor que
qualquer penitente jamais sentiu por suas próprias culpas e
excedeu igualmente qualquer pena que possa afligir um
coração humano.
E a
razão é que todos os sofrimentos dos homens são sempre
misturados de alguma consolação; mas a dor de Jesus foi
pura, sem lenitivo. Suportou a dor pura sem mistura de
nenhuma consolação (Contens. 1.10, d. 4,c. 1). Ah, se eu vos
amasse, se eu vos amasse, ó meu Jesus, vendo o quanto
padecestes por mim, doces se me tornariam todas as dores,
todos os opróbrios e os maus tratos deste mundo.
Concedei-me, peço-vos, o vosso amor, para que sofra com
gosto ou ao menos com paciência o pouco que me é dado
sofrer. Não permitais que eu morra tão ingrato a tantas
finezas de vosso amor. Nas tribulações que me sobrevierem,
proponho dizer sempre: Meu Jesus, abraço estes sofrimentos
por vosso amor e os quero suportar para vos comprazer.
7.
Na história lê-se que muitos penitentes, iluminados pela luz
divina sobre a malícia de seus pecados, chegaram a morrer de
pura dor. Que tormento, portanto, deveria suportar o
coração de Jesus à vista de todos os pecados do mundo, todas
as blasfêmias, sacrilégios, desonestidades e de todos os
outros crimes cometidos pelos homens depois de sua morte,
dos quais cada um vinha com sua própria malícia, à
semelhança de uma fera cruel, lacerar-lhe o coração.
Vendo
isto, dizia então nosso aflito Senhor, agonizando no horto:
É esta, então, ó homens, a recompensa que vós me dais
pelo intenso amor meu? Oh! se eu visse que vós, gratos ao
meu afeto, deixaríeis de pecar e começaríeis a amar-me, com
que alegria iria agora morrer por vós. Mas ver,
depois de tantos sofrimentos meus, ainda tantos pecados;
depois de tão grande amor meu, ainda tantas ingratidões, é
isto justamente o que mais me aflige, me entristece até à
morte e me faz suar sangue vivo: “E seu suor tornou-se
em gotas de sangue que corria até a terra” (Lc
22,44). No dizer do Evangelista, este suor sangüíneo foi tão
copioso que primeiro molhou todas as vestes do Redentor e
depois correu em abundância sobre a terra.
8.
Ah! meu terno Jesus, eu não vejo neste horto nem flagelos
nem espinhos, nem cravos que vos firam, e como é que vos
vejo todo banhado em suor de sangue da cabeça aos pés?
Foram os meus pecados a prensa cruel que, à força de
aflições e tristeza, fez jorrar tanto sangue de vosso
coração. Também eu fui então um dos vossos mais
cruéis carnífices, ajudando com os meus pecados a
atormentar-vos mais cruelmente. Certo é que se eu houvesse
pecado menos, menos teríeis padecido, ó meu Jesus.
Quanto
maior foi o meu prazer em ofender-vos, tanto maior foi a
aflição que vos causei ao vosso coração magoado. E como este
pensamento não me faz agora morrer de dor, ao compreender
que paguei o amor, que testemunhastes na vossa paixão,
aumentando vossa tristeza e vossas penas? Fui eu quem
atormentou esse tão amável e amoroso coração que tanto me
amou! Senhor, como agora não possuo outro meio para vos
consolar que arrependendo-me de vos haver ofendido,
aflijo-me e arrependo-me de todo o meu coração, ó meu Jesus.
Dai-me uma dor tão grande que me faça chorar continuamente
até último suspiro de minha vida os desgostos que vos dei,
meu Deus, meu amor, meu tudo.
9.
Prostrou-se com o rosto por terra (Mt 26,39).
Vendo-se Jesus sobrecarregado com a incumbência de
satisfazer pelos pecados do mundo inteiro, prostrou-se com a
face em terra para suplicar pelo homem, como se se
envergonhasse de levantar os olhos para o céu ao ver-se sob
o peso de tantas iniqüidades. Ah! meu Redentor, eu vos vejo
todo aflito e pálido por vossos sofrimentos e, numa agonia
mortal, rezais: Posto em agonia rezava com mais
instância (Lc 22,43). Dizei-me por quem orais? Não
foi tanto por vós que então suplicastes, mas sim por mim,
oferecendo ao Eterno Pai vossas poderosas súplicas unidas às
vossas penas, para obter-me o perdão de minhas culpas.
“O qual, nos dias de sua mortalidade, oferecendo com
grande clamor e com lágrimas e súplicas àquele que o podia
salvar da morte, foi atendido pelo seu submisso respeito”
(Hb 5,7). Ah! meu Redentor, como pudestes amar tanto
a quem tanto vos ofendeu? Como pudestes aceitar tantos
sofrimentos por mim, conhecendo já então a ingratidão com
que vos haveria de tratar?
10.
Ó meu Senhor afligido, fazei que eu participe da dor que
então sentistes pelos meus pecados. Eu os detesto no
presente e uno este meu arrependimento ao pesar que
sentistes no horto. Ah! meu Salvador, não olheis para
meus pecados, pois não me bastaria o inferno; olhai para os
sofrimentos que suportastes por mim. Ó amor de meu Jesus,
sois o meu amor e minha esperança. Senhor, eu vos amo com
toda a minha alma e quero amar-vos sempre.
Pelos
merecimentos daquela angústia e tristeza que sofrestes no
horto, dai-me fervor e coragem nas empresas para vossa
glória. Pelos merecimentos de vossa agonia, dai-me força
para resistir a todas as tentações da carne e do inferno.
Dai-me a graça de me recomendar sempre a vós e de repetir
sempre com Jesus Cristo: Não o que eu quero, mas sim o que
vós quereis. Não se faça a minha, mas sempre a vossa divina
vontade. Amém.
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