
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Do amor de Jesus em sofrer
tantos desprezos em sua paixão
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Diz Belarmino que os espíritos nobres sentem mais com
os desprezos que com as dores do corpo, pois se estas
afligem a carne, aqueles atormentam a alma, a qual, sendo
mais nobre que o corpo, tanto mais sente as ofensas que lhe
são feitas.
Mas
quem poderia imaginar que a personagem mais nobre do
céu e da terra, o Filho de Deus, vindo a este mundo
por amor dos homens, tivesse de suportar deles tantos
vitupérios e injúrias, como se fosse o último e o mais vil
dos homens. “Nós o vimos desprezado e como o último
dos homens” (Is 53,2).
Assevera S. Anselmo que Jesus Cristo quis sofrer
tantos e tão grandes desprezos que não podia ser mais
humilhado do que o foi na sua paixão (In Fl 2). Ó
Senhor do mundo, sois o maior de todos os reis e quisestes
ser desprezado mais que todos os homens para ensinar-me a
amar os desprezos. Já, pois, que sacrificastes a vossa honra
por meu amor, quero sofrer por vosso amor todas as afrontas
que me forem feitas.
2.
E houve também uma espécie de afrontas que não sofresse na
sua paixão o Redentor? Foi afligido por seus próprios
discípulos. Um deles o atraiçoa e o vende por trinta
dinheiros; um outro o renega mais vezes, protestando
publicamente não o conhecer, atestando com isso
envergonhar-se de o haver anteriormente conhecido. Os
outros discípulos, vendo-o preso e ligado, fogem e o
abandonam (Mc 14,50).
Ó meu
Jesus abandonado, quem tomará a vossa defesa se, no começo
de vossa prisão, que vos são mais caros vos abandonam e
fogem? E afinal, ó meu Deus, essa afronta não terminou com a
vossa Paixão. Quantas almas, depois de se haverem dedicado
ao vosso seguimento e serem favorecidas por vós com muitas
graças e sinais especiais de amor, arrastadas por alguma
paixão de vil interesse ou de loucos prazeres, vos
abandonaram com ingratidão?
Quem
se encontrar ao número desses ingratos, diga gemendo:
Ah! meu caro Jesus, perdoai-me que não quero mais
abandonar-vos; prefiro perder mil vezes a vida a perder a
vossa graça, ó meu Deus, meu amor, meu tudo.
3.
Chegando Judas ao horto juntamente com os soldados,
dirige-se para o mestre, abraça-o, beija-o. Jesus deixa-se
beijar, mas, conhecendo seu pérfido desígnio, não pode
deixar de se lhe queixar de sua pérfida traição,
dizendo-lhe: Judas, é com um ósculo que entregas o
Filho do homem? (Lc 22,48).
E logo
os insolentes ministros, seus comparsas, atropelam Jesus,
põem-lhe a mão e o prende como a um malfeitor: Os
ministros dos judeus prenderam a Jesus e o ligaram (Jo
18,12). Céus, que vejo? Um Deus preso: por quem? Pelos
homens, por vermes criados por ele mesmo. Que dizeis
isso, ó anjos do paraíso? Que têm convosco, pergunta S.
Bernardo, as cadeias dos escravos e dos réus, convosco, que
sois o Santo dos santos, o Rei dos reis e o Senhor dos
senhores? (De Pass. c. 4).
Mas se
os homens vos prendem, por que vos não desligais e vos
livrais dos tormentos e da morte que estes vos preparam? Eu
o compreendo, não são tanto essas cordas que vos ligam, é o
amor que vos prende e vos obriga a padecer e morrer por nós.
“Ó caridade, quão fortes são os teus vínculos que
prendem o próprio Deus, diz S. Lourenço Justiniano (Lg.
vit. c. 6). Ó amor divino, só vós pudestes prender um Deus e
conduzi-lo à morte por amor dos homens.
4.
Contempla, ó homem, como esses cães arrastam sua vítima, diz
S. Boaventura, e como ele os segue sem resistência como um
mansíssimo cordeiro. Um o agarra, outro o liga; um o empurra
e o outro o fere (Med. vit. Chr. c. 75). Preso, é
nosso doce Salvador conduzido primeiramente à casa de Anás,
depois à de Caifás, onde Jesus, sendo interrogado por esse
malvado a respeito de seus discípulos e de sua doutrina,
responde que não havia falado em segredo mas publicamente e
que os mesmos que ali estavam presentes sabiam perfeitamente
o que havia ensinado (Jo 18,20).
A tal
resposta um daqueles ministros, tratando-o de temerário,
deu-lhe uma forte bofetada. Aqui exclama S. Jerônimo: Ó
anjos do céu, como podeis guardar silêncio? será que tão
grande paciência vos tornou mudos? Ah, meu Jesus, como é que
uma resposta tão justa e tão modesta podia merecer uma
afronta tão grande na presença de tanta gente? O indigno
pontífice, em vez de repreender a insolência daquele
atrevido, o louva ou ao menos dá-lhe sinais de aprovação. E
vós, meu Senhor, sofreis tudo para pagar as afrontas que eu,
miserável, tenho feito à divina Majestade com os meus
pecados. Eu vos agradeço, ó meu Jesus! Eterno Padre,
perdoai-me pelos merecimentos de Jesus.
5.
Em seguida, o iníquo pontífice perguntou-lhe se ele era
realmente o Filho de Deus: “Conjuro-vos pelo Deus vivo
para que vos digais se sois vós o Cristo, Filho de Deus”
(Mt 26,63). Jesus, por respeito ao nome de Deus, afirmou ser
isso a verdade e então Caifás rasgou as vestes, dizendo que
ele havia blasfemado. Todos gritaram então que ele merecia a
morte. Sim, com razão, ó meu Jesus, eles vos declararam réu
de morte, pois quisestes vos encarregar de satisfazer por
mim, que merecia a morte eterna. Mas se com vossa morte me
adquiristes a vida, é justo que eu empregue minha vida
inteira e se necessário for a sacrifique por vós e vosso
amor: socorrei-me coma vossa graça.
6.
“Cuspiram-lhe então no rosto e deram-lhe bofetadas”
(Mt 26,67). Depois de o julgarem digno de morte, como um
homem já condenado ao suplício e declarado infame, aquela
canalha pôs-se a maltratá-lo durante toda a noite com
bofetadas, com golpes, com pontapés, arrancando-lhe a barba,
cuspindo-lhe no rosto, motejando dele como dum falso
profeta, dizendo-lhe: “Adivinha, ó Cristo, quem te
bateu?” Tudo já predissera nosso Redentor por
Isaías: “Entreguei meu corpo aos que me feriam e minha
face aos que a laceravam; não desviei o rosto dos que me
injuriavam e me cobriam de escarros” (Is 50,6).
Diz o
devoto Tauler ser opinião de S. Jerônimo que só no dia do
juízo final serão conhecidas todas as penas e injúrias que
Jesus sofreu naquela noite. S. Agostinho, falando das
ignomínias sofridas por Jesus Cristo, diz: Se este remédio
não curar a nossa soberba, não sei o que há de curá-la (Serm.
1 in dom. 2 quadr.)
Ah,
meu Jesus, vós tão humilde e eu tão soberbo! Senhor, dai-me
luz, fazei-me conhecer quem sois vós e quem sou eu. Então
suspiram-lhe no rosto! Ó Deus, que maior afronta, que ser
injuriado com escarros! O último dos ultrajes é receber
escarros, diz Orígenes. Onde se costuma escarrar, senão em
lugares sórdidos? E vós, meu Jesus, sofreis escarros no
rosto. Esses iníquos vos o maltratam com bofetadas e
pontapés, vos injuriam e cospem no vosso rosto, fazem
convosco o que querem e não os ameaçais, nem os reprovais:
“O qual, sendo amaldiçoado, não amaldiçoava, sendo
maltratado, não ameaçava, mas entregava-se àquele que o
julgava injustamente” (1Pd 2,23).
Como
um cordeiro inocente, humilde e manso, tudo suportastes sem
nenhum lamento, oferecendo tudo ao vosso Pai para nos obter
o perdão de nossos pecados: “Como um cordeiro diante
do que o tosquia, emudecerá e não abrirá sua boa”
(Is 53,7). S. Gertrudes, meditando uma vez sobre as injúrias
feitas a Jesus na sua paixão, pôs-se a louvá-lo e
abençoá-lo; o Senhor com isso ficou tão satisfeito, que lho
agradeceu amorosamente.
Ah,
meu Senhor ultrajado, sois o rei dos céus, o Filho do
Altíssimo, não deveríeis ser maltratado, mas adorado e amado
por todas as criaturas. Eu vos bendigo e dou-vos
graças, amo-vos de todo o meu coração, arrependo-me de vos
ter ofendido; ajudai-me e tende compaixão de mim.
7.
Tendo
amanhecido, os judeus conduziram Jesus a Pilatos, para que
fosse condenado à morte. Pilatos declara-o inocente:
“Não encontro nenhuma culpa neste homem” (Lc 23,4).
E para ver-se livro dos insultos dos judeus, que continuavam
a exigir a morte do Salvador, o envia a Herodes. Muito se
alegrou Herodes por ter Jesus em sua presença, esperando
que, para livrar-se da morte, haveria de fazer diante dele
algum dos muitos prodígios de que ouvira falar. Fez-lhe por
isso muitas perguntas.
Mas
Jesus, porque não queria livrar-se da morte, haveria de
fazer diante dele algum dos muitos prodígios de que ouvira
falar. Fez-lhe por isso muitas perguntas. Mas Jesus, porque
não queria livra-se porque aquele malvado não merecia
resposta, cala-se e não responde. Então esse rei
soberbo o desprezou com toda a sua corte e, cobrindo-o com
uma veste branca, para mostrar que o considerava um
ignorante e insensato, o reenviou a Pilatos (Lc
23,11). O cardeal Hugo diz: Zombando dele como de um louco,
vestiu-lhe uma túnica. E S. Boaventura: Desprezou-o como
inepto, porque não fez milagres; como ignorante, porque não
respondeu uma única palavra; como louco, porque se não
defendeu.
Ó
Sabedoria eterna, ó Verbo divino, só vos faltava essa
ignomínia de ser tratado de louco, privado de senso. Tanto
vos interessa a nossa salvação, que por nosso amor quereis
não só ser vituperado, mas saciado de vitupérios, como já
profetizara a vosso respeito Jeremias: “Apresentará a
face a quem o esbofetear e ficará saciado de opróbrios”
(Lm 3,30).
E como
podeis amar tanto os homens, dos quais só ingratidões e
desprezos recebeis? Ai de mim, que sou um desses que vos
ultrajou mais do que Herodes. Ah, meu Jesus, não me
castigueis como a Herodes, privando-me da vossa voz. Herodes
não vos reconhecia por quem sois, eu vos proclamo meu Deus;
Herodes não vos amava, eu vos amo mais do que a mim mesmo.
Por isso não me recuseis as vozes das inspirações como eu
merecia pelas ofensas que vos fiz. Dizei o que quereis de
mim, que eu, com a vossa graça, estou pronto a executá-lo.
8.
Reconduzido Jesus a Pilatos, o governador o apresentou
ao povo, para saber a quem queriam libertar nessa páscoa, se
a Jesus ou a Barrabás, o homicida. Mas o povo gritou: Não
este, mas Barrabás. Ao que perguntou Pilatos: Que farei
então de Jesus? Responderam: Crucifica-o. Que mal, porém,
praticou este inocente? interroga Pilatos. Ao que replicam:
Seja crucificado. Ó Deus! até agora a maior parte
dos homens continua a dizer: Não este, mas Barrabás,
preferindo a Jesus Cristo um prazer sensual, um ponto de
honra, um desabafo de cólera.
Ah,
meu Senhor, vós bem sabeis que houve um tempo em que vos fiz
as mesmas injúrias, quando vos pospus aos meus malditos
prazeres. Meu Jesus, perdoai-me, que eu me arrependo de meu
passado e de hoje em diante quero preferir-vos a todas as
coisas. Eu vos estimo e vos amo acima de todos os bens;
prefiro mil vezes morrer a abandonar-vos. Dai-me a santa
perseverança, dai-me o vosso amor.
9.
Falaremos depois dos outros opróbrios que Jesus Cristo teve
de sofrer até morrer numa cruz: suportou a cruz,
desprezando a ignomínia (Hb 12,2). Consideremos,
entretanto, como em nosso Redentor se realizou perfeitamente
o que dissera o Salmista, isto é, que ele se tornaria na sua
paixão o opróbrio dos homens e o ludíbrio da plebe:
“Eu sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a
abjeção da plebe” (Sl 21,7), chegando a morrer
coberto de vergonha, justiçado pela mão do carrasco num
patíbulo, como um malfeitor, no meio de dois celerados:
“E foi posto no número dos malfeitores” (Is
53,12). Ó Senhor altíssimo, tornado o mais baixo de todos os
homens, exclama S. Bernardo; ó excelso tornado vil, ó glória
dos anjos tornada o opróbrio dos homens!
10.
Ó graça, ó força do amor de um Deus, continua
S. Bernardo (Serm. de pass. Dm.). É assim que o senhor
supremo de todos se fez o ínfimo de todos! E quem fez isto?
O amor. Tudo fez o amor que Deus consagra aos homens, para
nos patentear quanto ele nos ama e ensinar-nos com seu
exemplo a sofrer pacientemente os desprezos e as injúrias.
“Cristo padeceu por nós, diz S. Pedro, deixando-vos o
exemplo para que sigais os meus vestígios” (1Pd
2,21).
Eleazar, perguntado por sua esposa como podia suportar com
tanta paciência as injúrias que lhe eram feitas, respondeu:
Eu me ponho a considerar Jesus desprezado e confesso que
minhas afrontas nada são em comparação com as que ele, sendo
meu Deus, quis suportar por amor de mim. Ah, meu Jesus, e
como é que eu, à vista de um Deus tão ultrajado por meu
amor, não sei suportar o mínimo desprezo por vosso amor?
Pecador e soberbo! Donde, Senhor, me pode vir este orgulho?
Ah!
pelos merecimentos dos desprezos que sofrestes, dai-me
a graça de suportar com paciência e alegria as afrontas e
injúrias. Proponho de agora em diante com o vosso
auxílio não mostrar mais ressentimento e receber com alegria
todas as injúrias que me forem feitas. Outros desprezos
mereci eu, que desprezei a vossa divina majestade e por isso
mereci os desprezos do inferno.
Vós,
meu amado Redentor, me fizestes mui doces e amáveis as
afrontas, abraçando tantos desprezos por meu amor. Proponho,
além disso, para vos comprazer, beneficiar quanto puder quem
me desprezar ou pelo menos dizer bem dele e rezar por ele. E
agora vos suplico encher de graças aqueles de quem recebi
alguma injúria. Eu vos amo, bondade infinita, e quero
amar-vos sempre quanto eu puder. Amém.
> A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo VI.
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