
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Do Ecce Homo:
"Eis aqui o homem".
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Pilatos, vendo o Redentor reduzido a um estado tão digno de
toda a compaixão, pensou que a sua só vista comoveria os
judeus e por isso, conduziu-o a uma varanda, levantou o
farrapo de púrpura e, mostrando ao povo o corpo de Jesus
coberto de chagas e dilacerado, disse-lhe: “Eis aqui o
homem” (Jo 19,4).
Ecce
homo, como se quisesse dizer: Eis o homem que acusastes
perante mim como se pretendesse fazer-se rei; eu, para vos
agradar, condenei-o aos flagelos, ainda que inocente.
“Eis o homem, não ilustre pelo império, mas repleto de
opróbrio” (St. Ag. Trac. 11 in Jo 6). Ei-lo
reduzido a tal estado que parece um homem esfolado ao qual
restam poucos instantes de vida. Se, apesar de tudo,
pretendeis que eu o condene à morte, afirmo-vos que não
posso fazê-lo, porque não encontro motivo para o condenar.
Mas os judeus, à vista de Jesus assim maltratado, mais se
enfurecem: “Ao verem-no, os pontífices e ministros
clamavam, dizendo: ‘Crucifica-o, crucifica-o’. Vendo Pilatos
que não se acalmavam, lavou as mãos à vista do povo,
dizendo: ‘Sou inocente do sangue deste justo: vós lá vos
avinde’. E eles responderam: ‘Seu sangue caia sobre nós e
sobre nossos filhos” (Mt 27,23-26).
Ó meu
amado Salvador, vós sois o maior de todos os reis, mas agora
eu vos vejo como o homem mais desprezado, dentre todos: se
esse povo ingrato não vos conhece, eu vos conheço e vos
adoro por meu verdadeiro rei e Senhor. Agradeço-vos, ó
meu Redentor, por tantos ultrajes por mim recebidos e
suplico-vos me deis amor aos desprezos e aos sofrimentos, já
que vós os abraçastes com tanto afeto.
Envergonho-me de haver no passado amado tanto as honras e os
prazeres, chegando por sua causa a renunciar tantas vezes à
vossa graça e ao vosso amor; arrependo-me disso mais que de
todas as coisas. Abraço, Senhor, todas as dores e ignomínias
que vossas mãos me enviarem; dai-me aquela resignação de que
necessito. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, meu tudo.
2.
Assim como Pilatos daquela varanda mostrou Jesus ao povo, do
mesmo modo e ao mesmo tempo o Eterno Pai nos apresentava do
alto do céu o seu Filho dileto, dizendo-nos igualmente:
Ecce homo. Eis aqui esse homem que é meu Filho muito
amado, em quem me comprazi (Mt 3,17).
Eis
aqui o homem, vosso Salvador, por mim prometido e por vós há
tanto desejado. Eis aqui o homem, o mais nobre dentre todos
os homens, tornado o homem das dores. Ei-lo, vede a que
estado de compaixão o reduziu o amor que vos consagra, e
amai-o ao menos por compaixão. Contemplai-o e amai-o,
ao menos vos movam essas dores e ignomínias que sofre por
vós.
Ah,
meu Deus e Pai de meu Redentor, eu amo vosso Filho, que
padece por meu amor, e eu vos amo a vós que com tão grande
amor o entregastes a tantos tormentos por mim. Não vos
recordeis de meus pecados com os quais tantas vezes vos
ofendi e a vosso Filho: “Olhai para a face de vosso Cristo”,
contemplai o vosso Unigênito coberto de chagas e de
opróbrios para pagar os meus delitos e por seus merecimentos
perdoai-me e não permitais que vos ofenda jamais. “Seu
sangue caia sobre nós”.
O
sangue desse homem, que vos é tão caro, que por nós vos roga
e suplica compaixão, que desça sobre as nossas almas e lhes
obtenha a vossa graça. Odeio e amaldiçôo, ó Senhor, todos os
desgostos que vos dei e amo-vos, bondade infinita, mais do
que a mim mesmo. Por amor desse Filho, dai-me o vosso amor,
que me faça vencer todas as paixões e sofrer todas as penas
que vos agradar.
3.
“Saí e vede, filhas de Sião, o rei Salomão com o
diadema com que o coroou sua mãe no dia de suas bodas e no
dia da alegria de seu coração” (Ct 3,11). Saí
e vede o vosso rei com a coroa da pobreza, com a coroa da
miséria”, diz S. Bernardo (Serm. 2 de Epip.).
Oh, o
mais belo de todos os homens, o maior de todos os monarcas,
o mais amável de todos os esposos, a que estado está
reduzido, todo coberto de chagas e de desprezos! Vós
sois esposo, mas esposo de sangue (Êx 4,25), pois,
por meio de vosso sangue e de vossa morte, quisestes esposar
as nossas almas. Vós sois rei, mas rei de dores e rei de
amor, pois a força de tormentos quisestes atrair os nossos
afetos.
Ó
amantíssimo esposo de minha alma, oh! se eu me recordasse
sempre do quanto padecestes por mim, não cessaria mais de
vos amar e agradar. Tende piedade de mim que tanto vos
custei! Em paga de tantas penas sofridas por mim, vos
contentais com meu amor; por isso eu vos amo, ó Senhor
infinitamente amável, eu vos amo sobre todas as coisas, mas
eu vos amo pouco. Meu amado Jesus, dai-me mais amor, se
quereis ser mais amado de mim.
Desejo
amar-vos muito; eu, mísero pecador, deveria arder no inferno
desde o primeiro instante em que vos ofendi gravemente; vós,
porém, me aturastes desde então, porque não quereis que eu
arda nesse fogo desgraçado, mas no fogo bem-aventurado do
vosso amor. Este pensamento, ó Deus de minha alma, me abrasa
todo no desejo de fazer quanto em mim estiver para vos
agradar. Ajudai-me, ó meu Jesus, e já que fizestes tanto,
completai a vossa obra, fazei-me todo vosso.
4.
Continuando os judeus a insultar o governador, gritando:
“Tirai-o, tirai-o, crucificai-o”, disse-lhes Pilatos:
“Então hei de crucificar o vosso rei?” E eles responderam:
“Nos não temos outro rei senão César” (Jo 19,15). Os
mundanos, que amam as riquezas, as honras e os prazeres da
terra, renegam a Jesus Cristo por seu rei porque Jesus neste
terra não foi rei senão de pobreza, de ignomínia e de
dores.
Se
eles vos rejeitam, ó meu Jesus, nós vos elegemos por nosso
único rei e vos protestamos: Não temos outro rei senão
Jesus. Sim, amável Salvador, “vós sois meu
rei”, sois e sereis sempre o meu único Senhor. De
fato sois vós o verdadeiro rei de nossas almas, pois as
criastes e as remistes da escravidão de Lúcifer.
“Venha a nós o vosso reino”. Dominai, reinai, pois,
sempre nos nossos pobres corações; que eles vos sirvam
sempre e vos obedeçam.
Que
outros sirvam aos monarcas deste mundo com a esperança dos
bens desta terra; nós queremos servir somente a vós, nosso
rei aflito e desprezado, com a única esperança de vos
agradar sem consolações terrenas. De hoje em diante nos
serão caras as dores e as injúrias, que quisestes sofrer
tantas por nosso amor. Dai-nos a graça de vos permanecer
fiéis e para isso dai-nos o grande dom de vosso amor. Se vos
amarmos, amaremos também os desprezos e as penas que tanto
amastes e nada mais vos pediremos além do que vos suplica
vosso fiel e devoto servo S. João da Cruz: “Senhor,
sofrer e ser desprezado por vós. Senhor, padecer e ser
desprezado por vós”.
Minha
mãe Maria, intercedei por nós. Amém.
> A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo IX.
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