
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Da condenação de Jesus Cristo
e sua ida ao Calvário
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Continuava Pilatos a escusar-se perante os judeus que não
podia condenar à morte aquele inocente. Estes, porém, o
atemorizaram, dizendo: “Se soltares a este, não és
amigo de César” (Jo 19,12). Cego pelo temor de
perder as graças de César, esse juiz desgraçado, depois de
ter reconhecido e declarado Jesus Cristo tantas vezes
inocente, o condenou finalmente à morte da cruz:
“Então ele lhes entregou Jesus para que fosse crucificado”.
Ó meu amado Redentor,
suspira S. Bernardo, que delito cometestes para ser
condenado à morte e morte de cruz? Mas eu bem
compreendo, replica o santo, o motivo de vossa morte; sei
que pecado cometestes: “O vosso pecado é o vosso
amor”. O vosso delito é muito amor que consagrastes
aos homens; é ele e não Pilatos que vos condenou à morte.
Não, eu não vejo justo motivo de vossa morte, acrescenta S.
Boaventura, senão o afeto excessivo que nos tendes (Stim.
div. am. p. 1 c. 2).
Ah, um
tal excesso de amor muito nos constrange, ó Senhor
amabilíssimo, a consagrar-vos todos os afetos de nossos
corações, diz S. Bernardo (In CT serm. 20). Ó meu caro
Salvador, só o conhecimento de que vós me amais deveria
fazer-me esquecido de todas as coisas para procurar
exclusivamente amar-vos e contentar-vos em tudo.
“Forte como a morte é o amor”.
Se o
amor é forte como a morte, pelos vossos merecimentos, ó meu
Senhor, dai-me um tão grande amor para convosco que me faça
detestar todas as afeições terrenas. Fazei-me compreender
bem que toda a minha felicidade consiste em agradar a vós,
Deus todo bondade e todo amor. Maldigo aquele tempo em que
não vos amei; agradeço-vos porque me dais ainda tempo para
vos amar. Amo-vos, Jesus meu, infinitamente amável e
infinitamente amante; amo-vos com todo o meu ser e
prometo-vos querer antes mil vezes morrer, que deixar de vos
amar.
2.
Lê-se a iníqua sentença de morte ao condenado Jesus:
ele a ouve e humildemente a aceita. Não se queixa da
injustiça do juiz, não
apela para César, como fez S. Paulo; mas, inteiramente manso
e resignado, se submete ao decreto do Pai Eterno, que por
nossos pecados o condena à cruz.“Humilhou-se a si
mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz”
(Fl 2,8).
E pelo
amor que dedica aos homens contenta-se com morrer por nós.
“Amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós” (Ef
5,2). Ó meu compassivo Salvador, quanto vos agradeço! quanto
vos sou obrigado! Desejo, ó meu Jesus, morrer por vós, pois
que vós com tão grande amor aceitastes a morte por mim. Mas
se não me é dado derramar o meu sangue por vós e
sacrificar-vos a minha vida pelas mãos do carrasco, como o
fizeram os mártires, aceito ao menos com resignação a morte
que me está reservada, e aceito-a no modo e tempo que vos
aprouver. Desde já eu vo-la ofereço em honra de vossa
majestade e em desconto de meus pecados, e peço-vos pelos
merecimentos de vossa morte que me concedais a dita de
morrer amando-vos e na vossa graça.
3.
Pilatos entrega o inocente cordeiro às mãos daqueles lobos
para que com ele façam o que quiserem: “Entregou Jesus
à sua vontade” (Lc 23,25). Os algozes agarraram-no
com fúria, arrancam-lhe dos ombros o farrapo de púrpura,
como lhes insinuaram os judeus, e restituem-lhe suas vestes
(Mt 27,31). Isso fizeram, diz S. Ambrósio, para que
Jesus fosse reconhecido ao menos pelas vestes, visto estar
seu belo rosto tão deformado pelo sangue e pelas feridas,
que sem as suas vestes dificilmente poderia ser reconhecido.
Tomam,
entretanto, dois toscos pedaços de madeira, formam com eles
às pressas uma cruz de quinze pés (como afirmam S.
Boaventura e S. Anselmo) e colocam-na sobre os ombros do
Redentor. Mas, segundo S.Tomás de Vilanova, Jesus não
esperou que a cruz lhe fosse imposta pelos algozes:
ele mesmo a tomou avidamente com suas mãos e a pôs sobre os
ombros chagados (Conc. 3 de uno M.). Vem, disse
então, vem, cruz querida! Há trinta e três anos por ti
suspiro e te busco; eu te abraço, te aperto ao meu coração,
já que és o altar em que desejo sacrificar a minha vida por
amor de minhas ovelhas.
Ah! meu Senhor, como pudestes fazer tanto bem a quem vos fez
tantos males?
Ó Deus, quando eu penso que fostes obrigado a morrer pela
veemência dos tormentos para me obter a amizade divina e que
eu a perdi tantas vezes voluntariamente por minha culpa,
quereria morrer de dor. Quantas vezes me haveis
perdoado e eu tornei a vos ofender. Como poderei
esperar perdão se não soubesse que morrestes para
perdoar-me?
Por
essa vossa morte, pois, eu espero o perdão e a perseverança
no vosso amor. Arrependo-me, meu Redentor, de vos haver
ofendido; perdoai-me por vossos merecimentos, que eu vos
prometo não vos dar mais desgosto. Eu estimo e amo a vossa
amizade mais do que todos os bens do mundo. Por isso não
permitais que eu venha a perdê-la de novo; dai-me, Senhor,
qualquer castigo afora esse. Jesus meu, não quero mais
perder-vos, prefiro perder a vida, quero amar-vos sempre.
4.
A justiça sai com os condenados e entre eles caminha para a
morte o rei do céu, o Unigênito de Deus, carregado com a
cruz: “Levando sua cruz às costas, saiu para aquele
lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Saí também
do céu, ó bem-aventurados Serafins, e vinde acompanhar o
vosso Senhor que sobe ao Calvário, para aí ser justiçado em
um patíbulo infame juntamente com os malfeitores.
Ó
espetáculo horrendo! um Deus supliciado! Este é o Messias
que poucos dias antes foi aclamado Salvador do mundo e
recebido pelo povo com aplausos e bênçãos, exclamando todos:
“Hosana ao Filho de Davi, bendito o que vem em nome do
Senhor” (Mt 21,9). Ei-lo agora preso, escarnecido e
amaldiçoado por todos, com uma cruz às costas para morrer
como um malfeitor.
Ó
excesso de amor divino! Um Deus supliciado pelos homens.
Encontrar-se-á ainda um homem que não ame este Deus! Ó meu
amoroso Jesus, tarde comecei a amar-vos, fazei que no
restante de minha vida compense o tempo perdido. Já sei que
tudo o que eu fizer é pouco em comparação do amor que vós me
tendes tido, mas ao menos quero amar-vos com todo o meu
coração. Grande injúria eu vos faria se, depois de
tantas finezas, eu dividisse o meu coração e o repartisse
com qualquer objeto além de vós. Eu vos consagro de hoje em
diante toda a minha vida, a minha vontade, a minha
liberdade. Disponde de mim como vos agradar.
Peço-vos o paraíso, para lá amar-vos com todas as minhas
forças. Muito quero amar-vos nesta vida, para muito vos amar
na eternidade. Socorrei-me com a vossa graça; peço-vos e o
espero pelos vossos merecimentos.
5.
Imagina, minha alma, que vês passar Jesus nesse doloroso
caminho. Assim como um cordeiro é levado ao matadouro,
o amantíssimo Redentor é conduzido à morte (Is
53,7). Ele está tão esgotado e enfraquecido pelos
tormentos, que apenas pode ter-se em pé.
Ei-lo todo dilacerado pelas feridas, com a coroa de espinhos
sobre a cabeça, com o pesado madeiro sobre os ombros e com
um algoz que o puxa por uma corda. Caminha com o
corpo curvado, com os joelhos trêmulos, gotejando sangue;
anda com tanta dificuldade, que parece que a cada passo vai
exalar a vida. Pergunta-lhe: Ó cordeiro divino, não
estais ainda farto de dores? Se com isso pretendeis
conquistar o meu amor, deixai de sofrer que eu quero
amar-vos como desejais. Não, responde-te, ainda não estou
satisfeito: só então estarei contente quanto estiver morto
por teu amor. E agora aonde ides, meu Jesus? Vou morrer por
ti, não mo impeças; uma só coisa eu peço e recomendo: quando
me vires morto sobre a cruz por ti recorda-te do amor que te
dediquei; lembra-te disso e ama-me.
Ó meu
aflito Senhor, quanto vos custou o fazer-me compreender o
amor que me consagrastes. Que vantagem vos poderia trazer
meu amor, que para conquistá-lo quisestes sacrificar vosso
sangue e a vida? E como pude eu, objeto de tão grande amor,
viver tanto tempo sem vos amar, esquecido de vosso afeto?
Agradeço-vos a luz que me dais agora e que faz conhecer o
quanto me tendes amado.
Eu vos amo, bondade infinita sobre todas as coisas;
desejaria, se pudesse, sacrificar-vos mil vidas, que
quisestes sacrificar a vossa vida divina por mim.
Concedei-me aqueles auxílios que me haveis merecido com
tantas penas para vos amar de todo o coração. Dai-me aquele
santo fogo que viestes acender na terra, morrendo por nós.
Recordai-me sempre da vossa morte, para que nunca mais me
esqueça de vos amar.
6.
“Foi
posto o principado sobre o seu ombro”
(Is 9,6). Diz Tertuliano que a cruz foi o nobre instrumento
com que Jesus Cristo se adquiriu tantas almas, porque,
morrendo nela, pagou a pena de nossos pecados e assim as
resgatou ao inferno, fazendo-as suas. “O qual levou os
nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd
2,24). Portanto, ó meu Jesus, se Deus vos carregou com os
pecados de todos os homens: “Deus colocou nele a
iniqüidade de todos nós” (Is 53,6), eu com os meus
pecados vos tornei mais pesada a cruz que levastes ao
Calvário.
Ah,
meu dulcíssimo Salvador, já então vistes todas as injúrias
que eu vos faria e apesar disso não deixastes de me amar e
de preparar-me tantas misericórdias que usastes para comigo.
Se, pois, vos fui tão caro, apesar de vilíssimo e ingrato
pecador que tanto vos ofendi, é justíssimo que vós também me
sejais caro, vós, meu Deus, beleza e bondade infinitas, que
tanto me tendes amado.
Ah, se
nunca vos tivesse desgostado! Conheço agora, ó meu Jesus, o
mal que vos fiz. Malditos pecados, que fizestes? Fizeste-me
contristar o coração amoroso de meu Redentor, coração que
tanto me amou. Ó meu Jesus, perdoai-me que eu me arrependo
de vos haver desprezado. Para o futuro sereis o único objeto
de meu amor. Amo-vos, ó amabilidade infinita, como todo o
meu coração, e estou resolvido a não amar a ninguém mais
fora de vós. Senhor, perdoai-me e dai-me o vosso amor e nada
mais vos peço. Digo-vos com S. Inácio: “Dai-me
unicamente o vosso amor coma vossa graça e estou bastante
rico”.
7.
“Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si mesmo
e tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Visto que
vós, inocente, meu amado Redentor, me precedeis com a vossa
cruz e me convidais a seguir-vos com a minha, ide adiante
que eu não quero deixar-vos só. Se no passado vos abandonei,
confesso que procedi mal. Dai-me agora a cruz que vos
aprouver, que eu a abraço, seja qual for, e com ela quero
acompanhar-vos até à morte: “Saiamos fora dos
arraiais, levando o seu impropério” (Hb 13,13).
E
como é possível, Senhor, que não amemos por vosso amor as
dores e os opróbrios, se vós tanto os amastes por nossa
salvação? Já que nos convidais a seguir-vos, queremos, sim,
seguir-vos e morrer convosco, mas dai-nos, força para
executá-lo: essa força vos pedimos por vossos merecimentos e
a esperamos. Amo-vos, meu Jesus amabilíssimo, amo-vos com
toda a minha alma e não quero mais deixar-vos. Basta-me o
tempo em que andei longe de vós; ligai-me agora à vossa
cruz. Se eu desprezei o vosso amor, disso me arrependo de
todo o coração e agora vos estimo mais que todos os bens.
8.
Ah, meu Jesus, quem sou eu que me quereis para vosso
discípulo e me ordenais que vos ame e me ameaçais com o
inferno se não quiser vos amar? E de que serve,
dir-vos-eis com S. Agostinho, ameaçar-me com as penas
eternas? Pois que maior desgraça me poderá assaltar do que
não vos amar, Deus amabilíssimo, meu Criador, meu Redentor,
meu paraíso, meu tudo? Vejo que por um justo castigo
das ofensas que vos fiz mereceria estar condenado a não
poder mais vos amar; mas vós, porque ainda me amais,
continuai a mandar que eu vos ame, repetindo-me sempre ao
coração: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu
coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente”.
Agradeço-vos, ó meu amor, este doce preceito e para
obedecer-vos eu vos amo com todo o meu coração, com toda a
minha alma, com toda a minha mente. Arrependo-me de não vos
haver amado pelo passado e no presente prefiro toda pena à
de viver sem vos amar,
e proponho sempre procurar o vosso amor. Ajudai-me, ó meu
Jesus, a fazer sempre atos de amor e a sair desta vida com
um ato de amor, para que eu chegue a amar-vos face a face no
paraíso, onde vos amarei sem imperfeição e sem intervalo,
com todas as minhas forças por toda a eternidade. Ó Mãe de
Deus, rogai por mim. Amém.
> A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo X.
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