
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Da crucifixão de Jesus
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Eis-nos chegados à crucificação, ao último tormento
que deu a morte a Jesus Cristo, eis-nos no Calvário,
feito teatro do amor divino, onde um Deus deixa a vida num
mar de dores. “E depois de chegados ao lugar chamado
Calvário, aí o crucificaram” (Lc 23,33).
Tendo o Senhor chegado com grande dificuldade, mas ainda
vivo ao monte, arrancaram-lhe pela terceira vez com
violência suas vestes pegadas às chagas de sua carne
dilacerada e o estenderam sobre a cruz.
O cordeiro divino deita-se sobre esse leito de tormentos,
apresenta aos carnífices suas mãos e seus pés para serem
pregados e, levantando os olhos ao céu, oferece ao seu
eterno Pai o grande sacrifício de sua vida pela salvação dos
homens.
Cravada uma mão, contraem-se os nervos, sendo por isso
necessário que à força e com cordas se puxassem a outra mão
e os pés ao lugar dos cravos, como foi revelado a S.
Brígida, o que ocasionou a contorção e rompimento com
dores horríveis dos nervos e das veias (Liv. 1, c.
10), de tal maneira que se podiam contar todos os ossos,
como já predissera Davi: Atravessaram minhas mãos e
meus pés e contaram todos os meus ossos (Sl 21,17).
Ah,
meu Jesus, por quem foram cravados vossas mãos e vossos pés
sobre esse madeiro senão pelo amor que tínheis aos homens?
Vós quisestes com a dor de vossas mãos traspassadas
pagar todos os pecados que os homens cometeram pelo tato e
com a dor dos pés quisestes pagar todos os passos que demos
para vos ofender. Ó meu amor crucificado,
abençoai-me com essas mãos traspassadas.
Cravai
aos vossos pés este meu coração ingrato, para que eu não me
separe mais de vós e fique sempre minha vontade obrigada a
amar-vos, já que tantas vezes se revelou contra vós. Fazei
que nada me mova além de vosso amor e do desejo de dar-vos
gosto. Ainda que vos veja suspenso nesse patíbulo, eu vos
reconheço por senhor do mundo, pelo Filho verdadeiro de Deus
e Salvador dos homens. Por piedade, ó meu Jesus, não me
abandoneis mais no resto de minha vida e especialmente na
hora de minha morte: nessa última agonia e combate com o
inferno assisti-me e confortai-me para morrer no vosso amor.
Eu vos amo, amor crucificado, eu vos amo de todo o meu
coração.
2.
Diz S. Agostinho não haver morte mais acerba que a
morte da cruz (Tract. 36 in Jo), pois, como nota S.
Tomás (P. III q. 46, a. 6), os crucificados têm os pés
e as mãos transpassados, partes essas que sendo compostas de
nervos, músculos e veias, são extremamente sensíveis à dor:
e o só peso do corpo pendido faz que a dor seja contínua e
se aumente sempre mais até à morte. Mas as dores de
Jesus ultrapassavam todas as outras dores, pois, como diz o
Angélico, o corpo de Jesus Cristo, sendo de delicadíssima
compleição, era mais sensível e sujeito às dores: corpo que
foi expressamente preparado pelo Espírito Santo para sofrer
como ele predissera e conforme o atesta o Apóstolo:
“Vós me preparastes um corpo” (Hb 10,5).
Além
disso, S.Tomás diz que Jesus Cristo suportou uma dor
tamanha que só ela seria suficiente para satisfazer a pena
que mereciam temporalmente os pecados de todos os homens.
Afirma Tiepoli que na crucifixão deram vinte e oito
marteladas sobre suas mãos e trinta e seis sobre seus pés.
Minha alma, contempla o teu Senhor, contempla tua vida que
pende desse madeiro: “E será tua vida quase pendente
diante de ti” (Dt 28,66).
Vê como naquele patíbulo doloroso, suspenso desses cravos
cruéis, não encontra posição nem repouso. Ora se apóia sobre
as mãos, ora sobre os pés, mas onde se firma aumenta a dor.
Ora volve a dolorosa cabeça para uma parte, ora para outra,
se a deixa cair sobre o peito, as mãos e os pés rasgam-se
mais com o peso, se a deita sobre os ombros, estes ficam
feridos pelos espinhos; se a apóia sobre a cruz, enterram-se
os espinhos ainda mais na sua cabeça.
Ah,
meu Jesus, que morte horrível é a que sofreis. Meu Redentor
crucificado, eu vos adoro nesse trono de ignomínia e de
dores. Leio que está escrito nessa cruz que sois rei:
“Jesus Nazareno, Rei dos judeus”. Mas afora este
título de escárnio, qual outro sinal de vossa realeza? Ah,
essas mãos cravadas, essa cabeça coroada de espinhos, esse
trono de dores, essas carnes dilaceradas vos fazem conhecer
por rei, mas rei de amor. Aproximo-me, pois, humilhado e
contrito, para beijar vossos pés sagrados trespassados por
meu amor; abraço essa cruz, na qual, vítima de amor,
quisestes sacrificar-vos à justiça divina por mim,
“feito obediente até à morte de cruz”.
Ó
feliz obediência, que nos obtém o perdão dos pecados. E que
seria de mim, ó meu Salvador, se vós não tivésseis pago por
mim? Agradeço-vos, meu amor, e pelos merecimentos dessa
sublime obediência vos peço que me concedais a graça de
obedecer em tudo à vossa divina vontade. Desejo o paraíso
unicamente para sempre vos amar e com todas as minhas
forças.
3.
Eis que o rei do céu, suspenso naquele patíbulo, começa a
expirar. Perguntemos-lhe com o profeta: “Que são essas
chagas no meio de tuas mãos?” (Zc 13,6). Responde
por Jesus o Abade Roberto: São sinais do grande amor
que vos tenho, são o preço pelo qual eu vos livro das mãos
dois inimigos e da morte. Ama, pois, ó alma fiel,
ama a teu Deus que tanto te amou, e, se ainda duvidas de seu
amor, olha, diz S. Tomás de Vilanova, olha para aquela cruz,
para aquelas dores e aquela morte acerba que ele sofreu por
ti e essas provas te farão conhecer claramente quanto te ama
o teu Redentor (Conc. 3 dom. 17 p. Pent.).
S.
Bernardo ajunta que a cruz clama, clama cada chaga de Jesus
que ele vos ama com verdadeiro amor. Ó meu Jesus, como vos
vejo cheio de dores e triste! Tendes muita razão em pensar
que vós tanto sofrestes, chegando até a morrer de dores
nessa madeiro e que afinal tão poucas alas vos amarão.
Ó Deus, ainda agora, quantos corações, apesar de a vós
consagrados, não vos amam ou vos amam muito pouco.
Ah, belas chamas de amor, vós que consumistes a vida de um
Deus sobre a cruz, consumi-me também, consumi todos os
afetos desordenados que vivem no seu coração e fazei que eu
viva ardendo e suspirando exclusivamente por esse meu amado
Senhor, que quer acabar a vida consumido pelos tormentos,
por meu amor, num patíbulo infame. Meu amado Jesus, quero
amar-vos sempre, e quero amar unicamente a vós, meu amor,
meu Deus, meu tudo. tudo.
4.
“Teus
olhos verão o teu preceptor”
(Is 30,20). Foi prometido aos homens poderem ver com os
próprios olhos seu divino Mestre. A vida inteira de Jesus
foi contínuo exemplo e escola de perfeição, mas sem nenhuma
parte nos ensinou melhor suas mais belas virtudes do que
sobre a cátedra da cruz. Como daí nos ensinou bem a
paciência, especialmente no tempo das doenças, já que na
cruz Jesus sofreu corajosamente com suma paciência as dores
de sua atrocíssima morte. Aí, com seu exemplo nos ensinou
uma estrita obediência aos divinos preceitos, uma perfeita
resignação com a vontade de Deus e sobretudo ensinou-nos
como se deve amar. O P. Paulo Segneri, o moço, escreve a uma
penitente sua que escrevesse aos pés do Crucifixo:
“Eis aqui como se ama”.
Eis
aqui como se ama, é o que parece dizer a todos o próprio
Redentor do alto da cruz, quando nós, para não sofrer
qualquer desgosto, abandonamos as obras de seu agrado e por
vezes chegamos a renunciar até à sua graça e ao amor.
Ele nos amou até à morte e não desce da cruz senão depois de
ter deixado de viver. Ah, meu Jesus, vós me amastes até à
morte: até à morte vos quero amar. No passado eu vos
ofendi e traí muitas vezes. Senhor, vingai-vos de mim, mas
com vingança de compaixão e amor: dai-me uma tal dor de meus
pecados, que me faça viver sempre contrito e aflito por vos
haver ofendido. Eu protesto preferir sofrer todos os males
no futuro e vos desgostar. E que maior desgraça poderia
suceder-me que vos desgostar a vós, meu Deus, meu Redentor,
minha esperança, meu tesouro, meu tudo.
5.
“E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo a
mim. Ora, isso ele dizia para indicar de que morte havia de
morrer” (Jo 12,32). Jesus Cristo afirmou que, quando
fosse levantado na cruz, ele com seus merecimentos, com seu
exemplo e com a força de seu amor, haveria de atrair para si
os afetos de todas as almas, segundo o comentário de
Cornélio a Lápide. O mesmo escreve S. Pedro Damião: “O
Senhor apenas foi suspenso na cruz e já atraiu todos a si
pelo desejo de seu amor” (De inv. cruc.). E quem
deixará de amar a Jesus que morre por nós na cruz, pergunta
o mesmo Cornélio. Vede, ó almas remidas, assim nos exorta a
S. Igreja, vede o vosso Redentor pregado naquela cruz, onde
toda a sua figura respira amor e convida a amá-lo: a cabeça
inclinada, para nos dar o ósculo de paz, os braços
estendidos para abraçar-nos, o coração aberto para nos amar.
Ah,
meu amado Jesus, como minha alma podia ser tão cara aos
vossos olhos, conhecendo vós as injúrias que de mim haveis
de receber? Vós, para cativar o meu afeto, quisestes dar-me
as provas extremas de amor. Vinde, ó flagelos, espinhos,
cravos e cruz, que atormentastes as sagradas carnes de meu
Senhor, vinde e feri meu coração. Recordai-me sempre
que todo o bem que eu recebi e que eu espero, tudo me vem
dos merecimentos de sua paixão. Ó mestre de amor, os
outros ensinam com a voz, ao passo que vós, nesse leito de
morte, ensinais com o sofrimento; os outros ensinam por
interesse, vós por afeto, não buscando outra recompensa que
a minha salvação. Salvai-me, amor meu, e que minha salvação
seja a graça de sempre vos amar e agradar. Amar-vos é a
minha salvação.
6.
Enquanto Jesus agonizava sobre a cruz, os homens não
cessavam de atormentá-lo com impropérios e zombarias. Uns
lhe diziam: “Salvou os outros e não pode se salvar a
si mesmo”. Outros: “Se é o rei de Israel,
desça da cruz”. E que faz Jesus na cruz, enquanto o
injuriam? Talvez pede a seu Pai que os castigue? Não, ele
pede que lhes dê o perdão: “Pai, perdoai-lhes; não
sabem o que fazem” (Lc 23,32). Para demonstrar seu
imenso amor pelos homens, diz S. Tomás (p. III q. 47, a. 4),
o Redentor pediu a Deus perdão para seus perseguidores.
Pediu-o, pois eles depois de o verem morto se arrependeram
de seus pecados: “Voltavam batendo no peito”.
Ah!
meu caro Salvador, eis-me aos vossos pés: eu fui um dos
vossos mais ingratos perseguidores: pedi a vosso Pai para
que ele me perdoe também a mim. É verdade que os judeus e os
algozes não sabiam, ao crucificar-vos, o que faziam; eu,
porém, muito bem sabia que, pecando, ofendia a um Deus
crucificado e morto por mim. Mas o vosso sangue e a vossa
morte me mereceram também a mim a divina misericórdia.
Eu não posso duvidar de ser perdoado vendo-vos morrer
para me obter o perdão. Ah, meu doce Redentor, lançai sobre
mim um daqueles olhares amorosos que me dirigistes ao morrer
por mim na cruz: olhai-me e perdoai-me todas as ingratidões
com que tratei o vosso amor. Arrependo-me, ó meu Jesus, de
vos ter desprezado. Amo-vos de todo o meu coração e,
à vista de vosso exemplo, porque vos amo, amo também todos
aqueles que me ofenderam. Desejo-lhes todo o bem e proponho
servi-los e socorrê-los quanto me for possível por amor de
vós, meu Senhor, que quisestes morrer por mim que tanto vos
ofendi.
7.
“Lembrai-vos de mim”,
vos disse, ó meu Jesus, o bom ladrão, e foi consolado com
vossa resposta: “Hoje estarás comigo no paraíso”
(Lc 23,43). Lembrai-vos de mim, digo-vos também eu;
recordai-vos, Senhor, que eu sou uma daquelas ovelhas pelas
quais vós destes a vida. Consolai-me, fazendo-me sentir que
me perdoastes, dando-me uma grande dor de meus pecados.
Ó grande sacerdote, que vos sacrificastes a vós mesmo por
amor das vossas criaturas, tende compaixão de mim.
Sacrifico-vos de agora em diante a minha vontade, os meus
sentidos, as minhas satisfações e todos os meus desejos. Eu
creio que vós, meu Deus, morrestes pregado na cruz por mim.
Caia sobre mim, vos suplico, o vosso sangue divino: ele me
lave de todos os meus pecados; ele me abrase em vosso santo
amor e me faça todo vosso. Eu vos amo, ó meu Jesus, e desejo
morrer crucificado por vós que morrestes crucificado por
mim.
Eterno
Pai, eu vos ofendi, mas eis vosso Filho que, preso a esse
madeiro, vos satisfaz por mim oferecendo-vos o sacrifício de
sua vida divina. Eu vos ofereço seus merecimentos que são
todos meus, visto que ele mos deu; por amor deste Filho vos
peço tenhais piedade de mim. A maior compaixão que vos
suplico é que me concedais a vossa graça, que eu
infelizmente tantas vezes desprezei de livre vontade.
Arrependo-me de vos haver ultrajado e vos amo, meu Deus, meu
tudo, e para vos satisfazer estou pronto a suportar toda
espécie de opróbrios, de dores, de miséria e de morte.
|