
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Da esperança que devemos
ter na morte de Jesus.
Por Sto. Afonso Maria de Ligório.
1.
Jesus é a única esperança de nossa salvação; fora dele
não há salvação, em nenhum outro (At 4,12). Eu
sou a única porta, disse ele, e quem entrar por mim
encontrará certamente a vida eterna (Jo 10,9). Que
pecador poderia esperar perdão se Jesus não tivesse
satisfeito por nós a justiça divina com seu sangue e com sua
morte? “Ele carregou com suas iniqüidades” (Is
53,11). Por isso, o Apóstolo nos anima, dizendo: “Se o
sangue dos bodes e dos touros santifica os imundos para a
purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que
pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo a Deus como
vítima imaculada, purificará a nossa consciência das obras
mortas para servir o Deus vivo?” (Hb 9,13-14).
Se o
sangue dos bodes e dos touros sacrificados tirava nos
hebreus as manchas exteriores do corpo, para que pudessem
ser admitidos aos sacros misteres, quando mais o
sangue de Jesus Cristo, o qual por amor se ofereceu a pagar
por nós, tirará os pecados de nossas almas para podermos
servir o nosso sumo Deus. Nosso amoroso Redentor,
tendo vindo a este mundo somente para salvar os pecadores e
vendo já escrita contra nós a sentença de condenação por
causa de nossas culpas, que faz? Ele com sua morte
pagou o castigo que nos era devido e, cancelando com seu
sangue a escritura da condenação, afixou-a na própria cruz
em que morre, para que a justiça divina não exigisse de nós
a satisfação devida (Cl 2,14).
“Cristo entrou uma só vez no santuário, havendo-nos
adquirido uma redenção eterna”
(Hb 9,12). Ah, meu Jesus, se não tivésseis encontrado esse
modo de obter-me perdão, quem o poderia alcançar? Tinha
razão Davi para exclamar: “Publicarei as suas
maravilhas” (Sl 9,12). Publicai, ó bem-aventurados,
os esforços amorosos que fez nosso Deus para salvar-nos.
Visto, pois, ó meu doce Salvador, que me dedicaste tão
grande amor, não deixeis de usar de piedade para comigo. Vós
me resgatastes das garras de Lúcifer por meio de vossa
morte: eu entrego minha alma nas vossas mãos, tendes de
salvá-la. “Nas vossas mãos encomendo o meu espírito:
vós me remistes, Senhor Deus de verdade” (Sl 30,6).
2.
“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não
pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um advogado junto do
Pai, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação pelos
nossos pecados”
(1Jo
2,1). Jesus Cristo não cessou com sua morte de interceder
por nós junto de seu Pai, e mesmo agora é nosso advogado e
parece, como escreve S. Paulo, que no céu não tem outra
ocupação que mover seu Pai a usar de misericórdia para
conosco. “Vive sempre a rogar por nós” (Hb
7,25). E ele ajunta que para isso subiu ao céu o Salvador:
“Para se apresentar agora perante a face de Deus por
nós outros” (Hb 9,24). Assim como são expulsos da
face dos reis os rebeldes, nós, pecadores, não seríamos mais
dignos de ser admitidos na presença de Deus nem mesmo para
pedir-lhe perdão.
Jesus,
porém, como nosso Redentor, apresenta-se por nós perante
Deus e por seus merecimentos nos obtêm a graça perdida:
“Vós vos chegastes ao mediador do Novo Testamento, Jesus,
e à aspersão do sangue mais eloqüente que o de Abel”
(Hb 12,24). Oh! quanto melhor por nós implora
misericórdia o sangue do Redentor, do que o sangue de Abel
exigia castigo contra Caim! A minha justiça, disse Deus a S.
Maria Madalena de Pazzi, se transformou em clemência com a
vingança exercida sobre a carne inocente de Jesus Cristo. O
sangue de meu Filho não exige de mim vingança, como o sangue
de Abel, mas pede somente misericórdia e compaixão, e minha
justiça não pode deixar de ficar aplacada com essas voz.
Esse sangue lhe amarra as mãos de tal maneira que não as
pode mover, por assim dizer, para tomar aquela vingança, que
deveria, dos pecados.
3.
“Não te esqueças da graça que te fez teu fiador”
(Eclo 29,20). Ah, meu Jesus, eu era incapaz, depois de meus
pecados, de satisfazer a divina justiça, mas vós quisestes
com a vossa morte satisfazer por mim. Oh! quão grande seria
a minha ingratidão se eu me esquecesse dessa tão grande
misericórdia. Não, meu Redentor, não quero esquecer-me mais;
quero agradecer-vos sempre e mostrar-me grato, amando-vos e
fazendo quanto puder para vos contentar. Socorrei-me com as
graças que me merecestes com tantos sofrimentos. Amo-vos, ó
meu amor, minha esperança. “Minha pomba nas fendas do
rochedo” (Ct 2,13).
Oh!
que refúgio seguro encontraremos sempre nessas fendas
sagradas da pedra, que não as chagas de Jesus Cristo.
“As fendas da pedra são as chagas do Redentor, diz S. Pedro
Damião; nelas a alma fiel põe a sua esperança” (De
S. Mat. serm. 3). Ah, aí nos veremos livres da desconfiança
causada pela vista de nossos pecados, aí encontraremos as
armas para nos defendermos quando formos tentados a pecar
novamente. “Confiai, eu venci o mundo” (Jo
16,33). Se não tendes forças bastantes, exorta-nos o
Salvador, para resistir aos assaltos que o mundo vos oferece
com seus prazeres, confiai em mim, porque eu o venci e agora
vós também o vencereis. Pedi para que meu eterno Pai vos
conceda, por meus merecimentos, a força e eu vos prometo que
tudo que lhe perdirdes em meu nome, ele vos dará (Jo
16,23).
E em
outro lugar nos reafirma a promessa, dizendo que qualquer
graça que pedirmos a Deus por seu amor, ele mesmo, que é uma
só coisa com o Pai, no-la dará: “Tudo que pedirdes a
meu pai em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja
glorificado no Filho” (Jo 14,13).
Ah! eterno Pai, confiado nos merecimentos e nessas promessas
de Jesus Cristo, não vos peço bens da terra, mas somente a
vossa graça.
É verdade que eu, pelas injúrias que vos fiz, não mereceria
nem o perdão nem graças. Mas se eu não o mereço, mereceu-mas
vosso Filho, oferecendo seu sangue e sua vida por mim.
Perdoai-me, pois, por amor desse vosso Filho. Dai-me uma
grande dor de meus pecados e um grande amor a vós.
Alumiai-me para que conheça quanto é amável a vossa bondade
e quão grande é o amor que me tendes tido desde toda a
eternidade. Fazei-me compreender a vossa vontade e
dai-me a força para executá-la perfeitamente. Senhor, eu vos
amo, e quero fazer tudo o que de mim exigis.
4.
Que grande esperança de salvação nos dá a morte de Jesus
Cristo. “Quem é que nos há de condenar? Jesus Cristo,
que morreu por nós e que também intercede por nós” (Rm
8,34). Quem será que nos condenará, pergunta o Apóstolo: é
aquele mesmo Redentor que, para não nos condenar à morte
eterna, condenou-se a si mesmo a morrer cruelmente numa
cruz. Isso anima S. Tomás de Vilanova a dizer: “Que
temes, ó pecador, se pretendes deixar o pecado? Como há de
te condenar aquele Senhor que morrer para te não condenar?
Como te há de expulsar, quando voltares a seus pés, aquele
que desceu do céu a tua procura, quando fugias dele?”
Mas ainda maior coragem nos incute o Salvador mesmo, dizendo
por Isaías: “Eis que eu te gravei nas minhas mãos;
tuas muralhas estão sempre diante de meus olhos” (Is
49,16). Não percas a confiança, ovelha minha, vê quanto me
custaste, eu tenho-te escrita nas minhas mãos, nestas chagas
que eu sofri por ti: elas sempre me recordam que devo
ajudar-te e defender-te contra teus inimigos: ama-me e
confia.
Sim,
meu Jesus, eu vos amo e em vós confio. O resgatar-me vos
custou tanto, mas o salvar-me nada vos custa. A vossa
vontade é que todos se salvem e que ninguém se perca. Se meu
pecados me espantam, anima-me a vossa bondade que mais
deseja fazer-me bem que eu recebê-lo. Ah, meu amado
Redentor, vos direi com Jó. “Mesmo que ele me mate
esperarei nele... E ele será meu salvador” (Jó
13,15). Ainda que me expulseis de vossa face, ó meu amor,
não deixarei de esperar em vós, que sois meu Salvador. Essas
vossas chagas e esse vosso sangue me dão suficiente
confiança para esperar todos os bens de vós. Eu vos amo,
caro Jesus, eu vos amo e em vós espero.
A
glorioso S. Bernardo, achando-se enfermo, viu-se uma vez
transportado diante do tribunal de Deus, onde o demônio o
acusava de seus pecados e afirmava que ele não merecia o
paraíso. O santo respondeu: É verdade que eu não
mereço o paraíso, mas Jesus tem duplo direito a esse reino:
um por ser Filho natural de Deus, outro por havê-lo
conquistado com sua morte; ele se contenta com o primeiro e
cede-me o segundo, por isso eu peço e espero o paraíso.
O
mesmo podemos nós dizer, pois S. Paulo escreve que Jesus
Cristo quis morrer consumido de dores para obter o paraíso a
todos os pecadores arrependidos e resolvidos a emendar-se.
“E, sacrificado, foi feito o autor da salvação eterna
para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). E o
Apóstolo ajunta: “Corramos ao combate que nos está
proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus,
que, sendo-lhe proposto o gozo, suportou a cruz, desprezando
a ignomínia” (Hb 12,1-2). Combatamos com coragem os
nossos inimigos, olhando para Jesus Cristo que, com os
merecimentos de sua paixão, nos oferece a vitória e a coroa.
5.
Ele disse que subia aos céus para preparar-nos um lugar:
“Não se turbe o vosso coração... porque eu vou
preparar-vos um lugar” (Jo 14,1). Ele disse e
continua a dizer a seu Pai que, visto o Pai nos ter dado a
ele, nos quer ter consigo no paraíso: “Pai, quero que
aqueles que me destes estejam comigo onde eu estou”
(Jo 17,24). Que maior misericórdia poderíamos esperar do
Senhor, diz S. Anselmo, que o Padre Eterno dizer a um
pecador já condenado ao inferno por seus crimes e que não
tinha meios de livrar-se do castigo: “Toma o meu Filho
e oferece-o por ti” e o Filho acrescentar:
“Toma-me e livra-te do inferno” (Cur Deus homo l. 2,
c. 20).
Ah, meu Pai amoroso, agradeço-vos haver-me dado vosso Filho
por meu Salvador, ofereço-vos sua morte e por seus
merecimentos vos suplico compaixão.
Agradeço-vos sempre, ó meu Redentor, por haverdes dado vosso
sangue e vossa vida para livrar-me da morte eterna.
Socorrei-nos, pois, a nós, servos rebeldes, os quais com
tanto custo remistes. Ó meu Jesus, única esperança minha,
vós me amais e porque sois onipotente, fazei-me santo. Se eu
sou fraco, dai-me fortaleza, se estou enfermo pelas culpas
cometidas, aplicai à minha alma uma gota de vosso sangue e
sarai-me. Dai-me o vosso amor e a perseverança final e fazei
que eu morra na vossa graça. Dai-me o paraíso. Eu vos amo, ó
Deus amabilíssimo, com toda a minha alma, e espero amar-vos
sempre: ajudai a um mísero pecador que vos quer amar.
6.
“Tendo nós o grande pontífice que penetrou nos céus,
Jesus, Filho de Deus, conservemos a nossa confissão. Não
temos um pontífice que não possa compadecer-se de nossas
enfermidades, tendo experimentado todas as tentações, exceto
o pecado” (Hb 4,14). Já que temos um Salvador que
nos abriu o paraíso, que por um certo tempo nos estava
fechado pelo pecado, diz o Apóstolo, confiemos sempre nos
seus merecimentos, pois ele sabe se compadecer de nós, tendo
querido na sua bondade padecer as nossas misérias.“Vamos,
pois cheios de confiança, ao trono da graça, para que
consigamos misericórdia e encontremos a graça para sermos
socorridos oportunamente” (Hb 4,16).
Dirijamo-nos, pois, com confiança ao trono da misericórdia,
ao qual temos acesso por meio de Jesus Cristo, para que aí
encontremos todas as graças de que necessitamos. E como
poderemos duvidar, ajunta S. Paulo, que Deus, tendo-nos dado
seu Filho, nos tenha dado com ele todos os bens?
“Entregou-o por nós todos: como não nos deu com ele todas as
coisas?” (Rm 8,32). O cardeal Hugo comenta este
passo: Não nos negará o menos, que é a glória eterna, aquele
Senhor que chegou a dar-nos o mais, que é o seu próprio
Filho. Ó meu sumo bem, que vos darei por um tal dom que me
fizestes de vosso Filho? Dir-vos-ei com Davi: O Senhor
retribuirá por mim (Sl 137,8).
Senhor, não tenho com que retribuir-vos, vosso próprio Filho
é o único que vos poderá agradecer dignamente: ele vos
agradece por mim. Pai piedosíssimo, pelas chagas de Jesus,
peço-vos que me salveis. Amo-vos, bondade infinita, e,
porque vos amo, arrependo-me de vos haver ofendido. Meu
Deus, meu Deus, eu quero ser todo vosso; aceitai-me por amor
de Jesus Cristo. Ah, meu doce Criador, será possível que,
havendo-me dado o vosso Filho, me negueis os vossos bens, a
vossa graça, o vosso amor, o vosso paraíso?
7.
Assevera S. Leão que foram maiores os bens que nos trouxe a
morte de Jesus Cristo, do que os danos a nós causados pelo
demônio com o pecado de Adão (Serm. 1, de Asc.). É o que
afirma claramente o Apóstolo quando escreve aos Romanos:
“Não se deu com o pecado como com o dom. Onde abundou o
pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Explica o
Cardeal Hugo: A graça de Cristo é de maior eficácia do que o
pecado. “Não há comparação entre o pecado do homem e o
dom que Deus fez dando-nos Jesus Cristo; foi grande o delito
de Adão, mas muito maior a graça que Jesus Cristo nos
mereceu com sua paixão. “Eu vim para que tenham vida e a
tenham em abundância” (Jo 10,10).
Eu vim
ao mundo, atestou o Salvador, para que os homens, mortos
pelo pecado, não só recebam por mim a vida da graça, mas uma
vida mais abundante do que a que perderam pela culpa. Motivo
esse que levou a santa Igreja a chamar feliz a culpa que nos
mereceu ter um tal Redentor. “Eis o Deus meu Salvador:
agirei com confiança e não recearei” (Is 12,2). Se
vós sois um Deus onipotente, ó meu Jesus, e sois também meu
Salvador, que receios poderei ter de condenar-me? Se no
passado vos ofendi, arrependo-me disso de todo o coração: no
futuro quero servir-vos, obedecer-vos e amar-vos: espero
firmemente que vós, meu Redentor, que tanto fizestes e
padecestes por minha salvação, não me negareis graça alguma
necessária para salvar-me (S. Boaventura).
“Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador e direis
nesse dia: Louvai o Senhor e invocai o seu nome”
(Is 12,3). As chagas de Jesus Cristo são essas benditas
fontes das quais podemos receber todas as graças se com fé
lhas pedirmos. “E sairá da casa do Senhor uma fonte,
que regará a torrente dos espinhos” (Joel 3,18). A
morte de Jesus é essa fonte prometida que irrigou as nossas
almas com as águas da graça e transformou em flores e frutos
da vida eterna por seus merecimentos os espinhos do pecado.
Como diz S. Paulo, nosso amante Redentor fez-se pobre
neste mundo para que nós pelo merecimento de sua pobreza nos
tornássemos ricos (2Cor 8,9).
Pelo
pecado nos fizemos ignorantes, injustos, iníquos, escravos
do inferno; Jesus Cristo morrendo e satisfazendo por nós,
fez-se por Deus nossa sabedoria, nossa santificação e nossa
redenção, diz o Apóstolo (1Cor 1,20). Fez-se nossa
sabedoria, instruindo-nos; nossa justiça, perdoando-nos;
nossa santidade, com seu exemplo; nosso resgate, com sua
paixão, livrando-nos das garras de Lúcifer. Em suma,
diz S. Paulo, os merecimentos de Jesus Cristo nos
enriqueceram de todos os bens, de maneira que nada mais nos
falta para receber todas as graças (1Cor 1,5).
Ó meu Jesus, meu Jesus, que belas esperanças me incute vossa
paixão. Quanto vos devo, meu amado Senhor. Ah, não vos
tivesse eu ofendido. Perdoai-me todas as injúrias que vos
fiz: inflamai-me para sempre. E como posso temer não ser
perdoado e receber a salvação de todas as graças de um Deus
onipotente que me deu todo o seu sangue?
Ah, meu Jesus, minha esperança, para não me condenardes,
quisestes perder a vossa vida: não quero perder-vos mais,
bem infinito. Se vos perdi no passado, eu me arrependo e no
futuro não quero perder-vos mais, vós me ajudareis para que
eu não vos perca mais. Senhor, eu vos amo e quero amar-vos
sempre. Maria, depois de Jesus sois a minha esperança; dizei
a vosso Filho que vós me protegereis e serei salvo. Amém.
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