
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Do amor do Eterno Pai
dando-nos o seu Filho.
1.
“Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho
unigênito” (Jo 3,16). Três coisas devemos considerar
nesta dádiva: quem é quem dá, que coisa e com que o amor
no-la dá. É sabido que, quanto mais nobre o doador,
tanto mais apreciável a dádiva; se alguém recebe uma flor de
um monarca, estimará essa flor mais que um tesouro.
Quanto, pois, devemos estimar este dom que nos vem das mãos
de Deus? E que foi o que nos deu? Seu próprio Filho.
Não se
contentou o amor desse nosso Deus com dar-nos tantos bens
nesta terra, mas chegou a dar-se todo inteiro a nós na
pessoa do Verbo encarnado. S. João Crisóstomo diz:
Deu-nos não um servo, nem um anjo, mas seu próprio Filho
(In Jo. Hom. 26). Por isso exclama a Igreja, cheia de
júbilo: “Ó maravilhosa condescendência de vossa
ternura! Ó inapreciável rasgo de caridade! Para resgatar o
escravo, sacrificastes o Filho!”
Ó Deus
infinito, como pudestes usar para conosco de tão admirável
piedade? Quem jamais poderá compreender um excesso tão
grande, que, para resgatar o escravo, quisésseis sacrificar
vosso único Filho? Ah, meu benigníssimo Senhor, desde que me
destes o que de melhor possuíeis, é justo que eu vos dê o
mais que me for possível. Vós quereis o meu amor e eu
nada mais de vós desejo que o vosso amor. Aqui tendes o meu
mísero coração que eu consagro inteirinho a vos amar.
Criaturas todas, saí do meu coração e dai lugar ao meu Deus,
que o merece e quer possuí-lo todo e sem partilha. Amo-vos,
ó Deus de amor, amo-vos sobre todas as coisas e só a vós
quero amar, meu Criador, meu tesouro, meu tudo.
2.
Deus nos deu seu Filho e por quê? Só por
amor. Pilatos, por termos humano, entregou Jesus aos
judeus (Lc 23,25). O Eterno Pai entrega-nos seu Filho,
mas pelo amor que nos consagra (Rm 8,32). S.Tomás
afirma que numa dádiva o amor vem em primeiro lugar (I q.
38. a. 2). Quando nos fazem um presente, o primeiro dom que
recebemos é o amor que o doador nos oferece na dádiva que
faz, porque a única razão de um dom gratuito é o amor:
quando se dá com outro fim, que não seja o puro afeto, o dom
perde a razão de verdadeiro dom.
A
dádiva que nos fez de seu Filho o Padre Eterno, foi um
verdadeiro dom todo gratuito e sem mérito algum da nossa
parte. É por isso que se diz que a Encarnação do Verbo foi
obra do Espírito Santo, isto é, efetuada por puro amor, como
afirma o mesmo santo doutor: “Que o Filho de Deus se
revestiu de carne proveio do mais acendrado amor de Deus”
(III q. 32, a. 1).
Mas
Deus não somente nos deu seu Filho por puro amor, mas no-lo
deu igualmente com amor imenso. Foi justamente o que quis
Jesus significar, dizendo: “Assim amou Deus o mundo”.
A palavra assim denota a grandeza do amor, diz S. João
Crisóstomo, com que Deus nos fez essa grande dádiva (In Jo.
Hom. 26). E que maior amor poderia um Deus demonstrar-nos do
que condenar à morte seu próprio Filho, inocente, para nos
salvar a nós, míseros pecadores? “Não poupou a seu
próprio Filho, mas entregou-o por nós todos” (Rm
8,32). Se o Padre Eterno pudesse padecer, que dor não
sentiria ao ver-se obrigado por sua justiça a condenar o
Filho, que amava como a si mesmo, a uma morte tão cruel e
cheia de ignomínias? Quis que morresse consumido pelos
tormentos e pelas dores, diz Isaías (53,10).
Imaginai que estais vendo o Padre eterno com Jesus morto nos
braços, dizendo-vos: Ó homens, é este o meu Filho muito
amado, em que eu encontrei todas as minhas complacências.
Vede como eu o quis ver maltratado pelas vossas iniqüidades
(Is
53,8). Ei-lo condenado à morte nessa cruz, aflito,
abandonado até de mim, que tanto o amo. E tudo isto eu o fiz
para que vós me ameis.
Ó bondade infinita! Ó misericórdia infinita! Ó Deus de minha
alma, já que por minha causa quisestes a morte do objeto
mais caro ao vosso coração, ofereço-vos por mim o grande
sacrifício que vos fez de si mesmo este vosso Filho, e por
seus merecimentos vos peço o perdão de meus pecados, o vosso
amor, o vosso paraíso.
São grandes estes favores que eu vos peço, mas é ainda mais
valiosa a oferta que vos apresento.
Perdoai-me e salvai-me, ó meu Pai, pelo amor de Jesus
Cristo. Se vos ofendi pelo passado, arrependo-me disso mais
que de todo o mal e agora eu vos estimo e vos amo mais que
todos os bens.
3.
Quem, a não ser um Deus de infinito amor, poderia nos
amar a tal ponto? S. Paulo escreve: “Mas Deus,
que é rico em misericórdia, pela excessiva caridade com que
nos amou, nos vivificou em Cristo quando estávamos mortos
pelo pecado” (Ef 2,4). Chama o Apóstolo amor
excessivo esse amor que Deus nos demonstrou, dando aos
homens, por meio da morte de seu Filho, a vida da graça que
haviam perdido por seus pecados.
Para
Deus, porém, não foi excessivo esse amor, pois que Deus é o
mesmo amor: “Deus é amor” (1Jo 4,16). Diz S.
João que nisso quis Deus fazer-nos ver até aonde chegava a
grandeza do amor de um Deus para conosco, enviando seu Filho
ao mundo para obter-nos com sua morte o perdão e a vida
eterna (1Jo 4,9). Estávamos mortos à graça pelo
pecado, e Jesus com sua morte os restituiu a vida. Estávamos
na miséria disformes e abomináveis, mas Deus, por meio de
Jesus Cristo, tornou-nos belos e caros aos seus olhos
divinos.
Escreve o Apóstolo: “Ele nos fez agradáveis a si no
seu amado Filho” (Ef 1,6). O texto grego diz:
fez-nos graciosos. Por isso S. João Crisóstomo ajunta que,
se houvesse um pobre leproso todo dilacerado e disforme, e
alguém o curasse da lepra e o tornasse belo e rico, qual não
seria a sua obrigação para com esse benfeitor?
Ora,
imensamente maior é a nossa dívida para com Deus, pois sendo
nossas almas disformes digno as de ódio pelas culpas
cometidas, ele por meio de Jesus Cristo não só as livrou dos
pecados como também as tornou mais belas e amáveis.
“Abençoou-nos com toda a bênção espiritual em bens celestes,
em Cristo” (Ef 1,3). Cornélio a Lápide comenta esta
passagem: “Gratificou-nos com todos os bens
espirituais”. A bênção de Deus é gratificar ou fazer
bem e o Padre eterno, dando-nos Jesus Cristo, cumulou-nos de
todos os bens, não terrenos para o corpo, mas espirituais
para a alma.
Em
bens celestes, “dando-nos com seu Filho uma vida
celeste neste mundo, e no outro uma glória celeste”.
Abençoai-me, pois, fazei-me bem, ó Deus amantíssimo, e que
esse benefício seja atrair-me inteiramente ao vosso amor:
“Atraí-me pelos laços de vosso amor”. Fazei que o
amor que me consagrastes me arrebate em amor pela vossa
bondade. Vós mereceis um amor infinito: eu vos amo com o
amor de que sou capaz, amo-vos sobre todas as coisas,
amo-vos mais do que a mim mesmo. Consagro-vos toda a minha
vontade e esta é a graça que vos peço: fazei que de hoje em
diante eu viva e faça tudo segundo a vossa vontade, visto
que nada mais quereis que o meu bem e minha salvação eterna.
4.
“Introduziu-me em sua adega e ordenou em mim a
caridade” (Ct 2,4). O meu Senhor, diz a esposa
sagrada, conduziu-me à adega, isto é, pôs-me diante dos
olhos todos os benefícios que me fez para induzir-me a
amá-lo: Ordenou em mim a caridade. Diz um autor que Deus,
para conquistar nosso amor, enviou, por assim dizer, contra
nós um exército de graças de amor. “Dispôs contra mim
a caridade como um exército” (Casp. Sánchez).
Segundo o Cardeal Hugo, o dom de si mesmo a nós, que Jesus
nos fez, foi a seta reservada predita por Isaías:
“Pôs-se como uma seta reservada: escondeu-me na sua aljava”
(Is 49,2). Como o caçador reserva a melhor seta para o
último tiro que deve abater a fera, assim Deus entre todos
os seus benefícios reservou Jesus, até chegar o tempo da
graça, e então o enviou como último golpe para ferir de amor
os corações dos homens. Ferido por esta seta, dizia S. Pedro
a seu Mestre: Senhor, vós bem sabeis que eu vos amo
(Jo 21,15).
Ah,
meu Deus, vejo-me circundado de todas as partes pelas
finezas de vosso amor. Eu também vos amo e se eu vos amo sei
que também vós me amais. E quem poderá privar-me de vosso
amor? Só o pecado. Mas deste monstro do inferno, vós, pela
vossa misericórdia, me haveis de livrar. Prefiro todos os
males, a morte mais cruel, mesmo a destruição de meu ser, a
ofender-vos com um pecado mortal. Vós, porém, já conheceis
minhas quedas passadas, conheceis minha fraqueza, ajudai-me,
meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo. “Não desprezeis a
obra de vossas mãos” (Sl 137,8).
Sou a
obra de vossas mãos, vós me criastes; não me desprezeis. Se
por minhas culpas mereço ser abandonado, mereço não menos
que tenhais misericórdia de mim por amor de Jesus Cristo,
que vos sacrificou sua vida por minha salvação. Eu vos
ofereço os seus merecimentos, que são todos meus, e por eles
eu vos peço e espero de vós a santa perseverança com uma boa
morte e, entretanto, a graça de viver o resto de minha vida
todo consagrado à vossa glória.
Basta quanto vos ofendi: eu me arrependo de todo o coração e
quero amar-vos quanto posso. Não quero mais resistir ao
vosso amor: entrego-me inteiramente a vós. Dai-me a vossa
graça e o vosso amor e fazei de mim o que quiserdes. Meu
Deus, eu vos amo e quero e peço-vos sempre o vosso amor:
Atendei-me pelos merecimentos de Jesus Cristo.
Maria, minha Mãe,
rogai a Deus por mim. Amém.
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