
Reflexões sobre a paixão de Jesus Cristo.
Quando
for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim
(Jo
12, 32)
“«Oh! se conhecesses o mistério da cruz!, disse Santo André
ao tirano que queria induzi-lo a renegar a Jesus Cristo, por
ter Jesus se deixado crucificar como malfeitor. «Oh! se
entendesses, tirano, o amor que Jesus Cristo te mostrou
querendo morrer na cruz para satisfazer por teus pecados e
obter-te uma felicidade eterna...»”
Quanto
agrada a Jesus Cristo que nós nos lembremos continuamente de
sua paixão e da morte ignominiosa que por nós sofreu,
muito bem se deduz de haver ele instituído o Santíssimo
Sacramento do altar com o fito de conservar sempre viva em
nós a memória do amor que nos patenteou, sacrificando-se na
cruz por nossa salvação.
Já
sabemos que na noite anterior à sua morte ele instituiu este
sacramento de amor e depois de ter dado seu corpo aos
discípulos, disse-lhes – e na pessoa deles a nós todos – que
ao receberem a santa comunhão se recordassem do quanto ele
por nós padeceu: “Todas as vezes que comerdes deste
pão e beber de deste cálice, anunciareis a morte do Senhor”
(1 Cor 11, 26).
Por
isso a santa Igreja, na missa, depois da consagração, ordena
ao celebrante que diga em nome de Jesus Cristo: “Todas
as vezes que fizerdes isto, fazei-o em memória de mim”.
E São Tomás escreve: “Para que permanecesse sempre
viva entre nós a memória de tão grande benefício, deixou seu
corpo para ser tomado como alimento” (Op.
57). E continua o santo a dizer que por meio de um tal
sacramento se conserva a memória do amor imenso que Jesus
Cristo nos demonstrou na sua paixão.
Se
alguém padecesse por seu amigo injúrias e ferimentos e
soubesse que o amigo, quando se falava sobre tal
acontecimento nem sequer nisso queria pensar e até costumava
dizer: falemos de outra coisa – que dor não sentiria vendo o
desconhecimento de um tal ingrato? Ao contrário, quanto se
consolaria se soubesse que o amigo reconhece dever-lhe uma
eterna obrigação e que disso sempre se recorda e se lhe
refere sempre com ternura e lágrimas?
Por
isso é que todos os santos, sabendo a satisfação que causa a
Jesus Cristo quem se recorda continuamente de sua paixão,
estão quase sempre ocupados em meditar as dores e os
desprezos que sofreu o amantíssimo Redentor em toda a sua
vida e particularmente na sua morte.
Santo
Agostinho escreve que as almas não podem se ocupar com coisa
mais salutar que meditar cotidianamente na paixão do Senhor.
Deus revelou a um santo anacoreta que não há exercício mais
próprio para inflamar os corações com o amor divino do que o
meditar na morte de Jesus Cristo. E a Santa Gertrudes foi
revelado, segundo Blósio, que todo aquele que contempla com
devoção o crucifixo é tantas vezes olhado amorosamente por
Jesus quantas ele o contempla. Ajunta Blósio que o meditar
ou ler qualquer coisa sobre a paixão traz-nos maior bem que
qualquer outro exercício de piedade. Por isso escreve São
Boaventura: “A paixão amável que diviniza quem a
medita” (Stim. div. amor, p. 1. c. 1).
E falando das chagas do crucifixo, diz que são chagas que
ferem os mais duros corações e inflamam no amor divino as
almas mais geladas.
O SALVADOR
Adão
peca e se rebela contra Deus e sendo ele o primeiro homem,
pai de todos os homens, perdeu-se com todo o gênero humano.
A injúria foi feita a Deus, motivo por que nem Adão nem os
outros homens, com todos os sacrifícios, mesmo oferecendo
sua própria vida, poderiam dar uma digna satisfação à
Majestade divina; para aplacá-la plenamente era
necessário que uma pessoa divina satisfizesse a justiça
divina. E eis que o Filho de Deus, movido à
compaixão pelos homens, arrastado pelos extremos de sua
misericórdia, se oferece a revestir-se da carne humana e a
morrer pelos homens, para assim dar a Deus uma completa
satisfação por todos os seus pecados e obter-lhes a graça
divina que perderam.
Desce,
pois, o amoroso Redentor a esta terra e fazendo-se homem
quer curar os danos que o pecado causara ao homem. Portanto,
quer não só com seus ensinamentos, mas também com os
exemplos de sua santa vida, induzir os homens a
observar os preceitos divinos e por essa maneira conseguir a
vida eterna. Para esse fim Jesus Cristo
renunciou a todas as honras, às delícias e riquezas de
que podia gozar neste mundo e que lhe eram devidas como ao
Senhor do mundo, e escolhe uma vida humilde, pobre e
atribulada até morrer de dor sobre uma cruz.
Foi um
grande erro dos judeus pensar que o Messias devia vir à
terra para triunfar de todos os seus inimigos com o poder
das armas e, depois de os ter debelado e adquirido o domínio
do mundo inteiro, deveria tornar opulentos e gloriosos os
seus sequazes. Mas se o Messias fosse qual os judeus o
desejavam, príncipe soberano e honrado de todos os homens
como senhor de todo o mundo, não seria o Redentor prometido
por Deus e predito pelos profetas. É o que ele mesmo declara
quando responde a Pilatos: “O meu reino não é deste
mundo” (Jo 18, 36). Por esse motivo repreende São
Fulgêncio a Herodes por ter tão grande temor de ser privado
do seu reino pelo Salvador, quando ele não viera para vencer
o rei pela guerra, mas a conquistá-lo com sua morte (Serm.
5 de Epiph.).
Dois
foram os erros dos judeus a respeito do Redentor esperado: o
primeiro foi que, quando os profetas falavam dos bens
espirituais e eternos, eles o interpretavam dos bens
terrenos e temporais. “E a fé reinará nos teus tempos;
a sabedoria e a ciência serão as riquezas da salvação; o
temor do Senhor esse é o teu tesouro” (Is 33, 6).
Eis os
bens prometidos pelo Redentor, a fé, a ciência das virtudes,
o santo temor, eis as riquezas da prometida salvação. Além
disso, promete que dará remédio aos penitentes, perdão aos
pecadores e liberdade aos cativos dos demônios:
“Enviou-me para evangelizar os mansos, para curar os
contritos de coração e pregar remissão aos cativos e soltura
aos encarcerados” (Is 61, 1).
O
outro erro dos judeus foi que pretenderam entender da
primeira vinda do Salvador o que fora predito pelos profetas
da segunda vinda, para julgar o mundo no fim dos séculos.
Assim, escreve Davi do futuro Messias que ele deverá
vencer os príncipes da terra e abater a soberba de muitos e
com a força da espada subjugar toda a terra (Sl
109,6). E o profeta Jeremias escreve: “A espada do
Senhor devorará a terra de um extremo a outro” (Lm
12, 12).
Isso,
porém, entende-se da segunda vinda, quando vier como juiz a
condenar os malvados. Falando, porém, da primeira vinda, na
qual deveria consumar a obra da redenção, mui claramente
predisseram os profetas que o Redentor levaria neste mundo
uma vida pobre e desprezada. Eis o que escreve o profeta
Zacarias, falando da vida abjeta de Jesus Cristo: “Eis
que o teu rei virá a ti, justo e salvador; ele é pobre e vem
montado sobre uma jumenta e sobre o potrinho da jumenta”
(Zc 9, 9).
Esta
profecia realizou-se plenamente quando Jesus entrou em
Jerusalém, assentado sobre um jumento, sendo recebido com
todas as honras, como o Messias desejado, segundo o
testemunho de São João
(Jo 12,14). Também sabemos que ele foi pobre desde o seu
nascimento, tendo vindo a este mundo em Belém, lugar
desprezado, e numa manjedoura: “E tu, Belém Efrata, tu
és pequenina entre os milhares de Judá, mas de ti é que há
de sair aquele que há de reinar em Israel e cuja geração é
desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq
5, 2). E essa profecia foi assinalada por São Mateus (2,6) e
São João (7, 42). Além disso, escreve o profeta Oséias:
“Do Egito chamarei o meu Filho” (11, 1), o que se
realizou quando Jesus Cristo, como menino, foi levado para o
Egito, onde permaneceu sete anos como estranho no meio de
gente bárbara, dos parentes e dos amigos, devendo viver
necessariamente mui pobremente. Continuou, depois de voltar
à Judéia, a levar uma vida pobre. Ele mesmo predisse pela
boca de Davi que pobre deveria ser durante toda a sua vida e
atribulado pelas fadigas: “Eu sou pobre e vivo em
trabalhos desde a minha mocidade” (Sl 87,16).
A EXPIAÇÃO
Deus
não podia ver plenamente satisfeita a sua justiça com os
sacrifícios oferecidos pelos homens, mesmo sacrificando-lhe
suas vidas e, por isso, dispôs que seu próprio Filho tomasse
um corpo humano e fosse a digna vítima que o reconciliasse
com os homens e lhes obtivesse a salvação. “Não
quiseste hóstia nem oblação, mas tu me formaste um corpo”
(Hb 10, 5). E o Filho unigênito se ofereceu voluntariamente
a sacrificar-se por nós e desceu à terra para completar o
sacrifício com sua morte e assim realizar a redenção do
homem: “Eis, aqui venho para fazer, ó Deus, a tua
vontade, como está escrito de mim no princípio do livro”
(Hb 10, 7).
Pergunta o Senhor, referindo-se ao pecador: “Que
importará que eu vos fira de novo?” (Is 1, 5). Isso
dizia Deus, para nos dar a entender que, por mais que
punisse os seus ofensores, suas penas não seriam suficientes
para reparar a sua honra ultrajada, e por isso enviou seu
próprio Filho a satisfazer pelos pecados dos homens, visto
que ele podia dar uma digna reparação à justiça divina.
Depois declarou por Isaías, falando de Jesus feito vítima
para expiar nossas culpas: “Eu o feri por causa dos
crimes de meu povo” (53, 8), e não se contentou com
uma pequena satisfação, mas quis vê-lo abatido pelos
tormentos: “E o Senhor quis quebrantá-lo na sua
enfermidade” (Is 53, 10).
Ó meu
Jesus, ó vítima de amor, consumida de dores na cruz para
pagar os meus pecados, desejaria morrer de dor, pensando
quantas vezes vos tenho desprezado depois de tanto me
haverdes amado. Não permitais que eu continue a viver tão
ingrato a tão grande bondade. Atraí-me todo a vós: fazei-o
pelos merecimentos desse sangue que derramastes por mim!
Quando
o Verbo divino se ofereceu para remir os homens, de duas
maneiras se podia fazer essa redenção: uma por meio do gozo
e da glória, outra das penas e dos vitupérios. Ele,
porém, que com sua vinda não só pretendia livrar o homem da
morte eterna, mas também ganhar a si o amor de todos os
corações humanos, repeliu o caminho do gozo e da glória e
escolheu o das penas e dos vitupérios (Hb 10, 34).
A fim,
portanto, de satisfazer por nós a justiça divina e
juntamente para inflamar-nos com seu santo amor, quis qual
criminoso sobrecarregar-se de todas as nossas culpas e,
morrendo sobre uma cruz, obter-nos a graça e a vida feliz. É
justamente o que exprime Isaías quando afirma:
“Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas
fraquezas e ele mesmo carregou com as nossas dores”
(Is 53, 4).
Disso
encontram-se duas figuras claras no Antigo Testamento:
a primeira era a cerimônia usada todos os anos do “bode
expiatório” sobre o qual o sumo pontífice entendia impor
todos os pecados do povo e por isso todos, cumulando-o de
maldições, o enxotavam para a floresta para servir aí de
objeto à ira divina (Lv 16, 5). Esse bode
figurava nosso Redentor, que quis espontaneamente
sobrecarregar-se com todas as maldições a nós devidas por
nossos pecados (Gl 3, 13), feito por nós maldição,
para nos obter as bênçãos divinas. E assim escreve o
Apóstolo em outro lugar: “Aquele que desconhecia o
pecado, fê-lo por nós, para que nós fôssemos feitos justiça
de Deus nele” (2 Cor 5, 21). Como explicam Santo
Ambrósio e Santo Anselmo, aquele que era a mesma inocência,
fê-lo pecado; revestiu-se com as vestes do pecador e quis
tomar sobre si as penas devidas a nós pecadores, para nos
obter o perdão e nos tornar justos aos olhos de Deus.
A
segunda figura do sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por
nós a seu eterno Pai na cruz, foi a
“serpente de bronze” suspensa em um
poste, que curava os hebreus mordidos pela serpente de fogo,
quando para ela olhavam (Nm 21, 8). Assim escreve
São João: “Como Moisés suspendeu a serpente no
deserto, assim importa que seja levantado o Filho do homem,
para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida
eterna” (Jo 3, 14).
À LUZ DAS PROFECIAS
É
preciso refletir que no capítulo 2º da “Sabedoria” está
predita a morte ignominiosa de Jesus Cristo. Ainda que as
palavras desse capítulo possam se referir à morte de
qualquer homem justo, contudo, afirma Tertuliano, São
Cipriano, São Jerônimo e muitos outros santos Padres, que de
modo especial quadram à morte de Cristo: Aí se diz no
versículo 18: “Se realmente é o verdadeiro filho de
Deus, ele o amparará e o livrará das mãos dos contrários”.
Essas palavras correspondem perfeitamente ao que diziam os
judeus, quando Jesus estava na cruz: “Confiou em Deus:
livre-o agora, se o ama; pois disse que era filho de Deus”
(Mt 27, 43).
Continua o sábio a dizer: “Façamos-lhe perguntas por
meio de ultrajes e tormentos... e provemos a sua paciência.
Condenemo-lo a uma morte a mais infame” (Sb 2,
19-20). Os judeus escolheram para Jesus Cristo a morte da
cruz, que era a mais ignominiosa, para que seu nome ficasse
para sempre aviltado e não fosse mais relembrado, segundo um
outro testemunho de Jeremias: “Ponhamos madeira no seu
pão e exterminemo-lo da terra dos viventes e não haja mais
memória de seu nome” (Jr 11, 19). Ora, como podem
dizer hoje em dia os judeus ser falso que Jesus fosse o
Messias prometido, por ter sido arrebatado deste mundo por
uma morte torpíssima, quando seus mesmos profetas haviam
predito que ele deveria ter uma morte tão vil?
Jesus
aceitou, porém, semelhante morte porque morria para pagar os
nossos pecados: também por esse motivo quis qual pecador ser
circuncidado, ser resgatado quando foi apresentado ao
templo, receber o batismo de penitência de São João.
Na sua paixão, finalmente quis ser pregado na cruz para
pagar por nossos licenciosas liberdades, com a sua nudez
reparar a nossa avareza, com os opróbrios a nossa soberba,
com a sujeição aos carnífices a nossa ambição de dominar,
com os espinhos os nossos maus pensamentos, com o fel a
nossa intemperança e com as dores do corpo os nossos
prazeres sensuais.
Deveríamos por isso continuamente agradecer com lágrimas de
ternura ao eterno Pai por ter entregue seu Filho inocente à
morte para livrar-nos da morte eterna. “O qual não
poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós: como
não nos deu também com ele todas as coisas?” (Rom 8,
32). Assim fala São Paulo e o próprio Jesus diz, segundo São
João (3, 16): “Tanto Deus amou o mundo que lhe deu seu
Filho unigênito”. Daí exclamar a santa Igreja no
sábado santo: “Ó admirável dignação de vossa piedade
para conosco! Ó inestimável excesso de vossa caridade! Para
resgatar o escravo, entregastes o vosso Filho”. Ó
misericórdia infinita, ó amor infinito de nosso Deus, ó
santa fé! Quem isto crê e confessa, como poderá viver ser
arder em santo amor para com esse Deus tão amante e tão
amável?
Ó Deus
eterno, não olheis para mim, carregado de pecados, olhai
para vosso Filho inocente, pregado numa cruz, e que vos
oferece tantas dores e suporta tantos ludíbrios para que
tenhais piedade de mim. Ó Deus amabilíssimo e meu verdadeiro
amigo, por amor, pois, desse Filho que vos é tão caro, tende
piedade de mim. A piedade que desejo é que me concedais o
vosso santo amor. Ah, atraí-me inteiramente a vós do meio do
lodo de minhas torpezas. Consumi, ó fogo devorador, tudo o
que vedes de impuro na minha alma e a impede de ser toda
vossa.
NOSSO FIADOR
Agradeçamos ao Pai e agradeçamos igualmente ao Filho que
quis tomar a nossa carne e juntamente os nossos pecados para
dar a Deus com sua paixão e morte uma digna satisfação.
Diz o Apóstolo que Jesus Cristo se fez nosso fiador,
obrigando-se a pagar as nossas dívidas (Hb 7, 22).
Como mediador entre Deus e os homens, estabeleceu um
pacto com Deus por meio do qual se obrigou a satisfazer por
nós a divina justiça e em compensação prometeu-nos da parte
de Deus a vida eterna. Já com muita antecedência o
Eclesiástico nos advertia que não nos esquecêssemos do
benefício deste divino fiador, que, para obter a salvação,
quis sacrificar a sua vida (Eclo 29, 20).
E para
mais nos assegurar do perdão, diz São Paulo, foi que
Jesus Cristo apagou com seu sangue o decreto de nossa
condenação, que continha a sentença da morte eterna contra
nós, e a afixou à cruz, na qual, morrendo, satisfez por nós
a justiça divina (Col 2, 14). Ah, meu Jesus, por
aquele amor que vos obrigou a dar a vida e o sangue no
Calvário por mim, fazei-me morrer a todos os afetos deste
mundo, fazei que eu me esqueça de tudo para não pensar senão
em vos amar e dar-vos gosto. Ó meu Deus, digno de infinito
amor, vós me amastes sem reserva e eu quero também amar-vos
sem reserva. Eu vos amo, meu sumo Bem, eu vos amo, meu amor,
meu tudo.
Em
suma, tudo o que nós podemos ter de bens, de salvação, de
esperança, tudo possuímos em Jesus Cristo e nos seus
merecimentos, como disse São Pedro: “E não há em outro
nenhuma salvação, nem foi dado aos homens um outro nome
debaixo dos céus em que nós devemos ser salvos” (At
4, 12). Assim para nós não há esperança de salvação senão
nos merecimentos de Jesus Cristo. Donde São Tomás, com todos
os teólogos, conclui que depois da promulgação do Evangelho
nós devemos crer explicitamente, por necessidade não só de
preceito, como também de meio, que somente por meio de nosso
Redentor nos é possível a salvação.
Todo o
fundamento de nossa salvação está, portanto, na redenção
humana do Verbo divino, operado na terra. É preciso, pois,
refletir que ainda que as ações de Jesus Cristo feitas no
mundo, sendo ações de uma pessoa divina, eram de um valor
infinito, de maneira que a mínima delas bastava para
satisfazer a justiça divina por todos os pecados dos homens,
contudo só a morte de Jesus foi o grande sacrifício com o
qual se completou a nossa redenção, motivo pelo qual as
Sagradas Escrituras se atribui a redenção do homem
principalmente à morte por ele sofrida na cruz:
“Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte e morte
de cruz” (Fl 2, 8).
Razão
por que escreve o Apóstolo que, quando tomamos a sagrada
eucaristia, nos devemos recordar da morte do Senhor:
“Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste
vinho, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha”
(1 Cor 11,26). Por que é que diz da morte e não da
encarnação, do nascimento, da ressurreição? Porque foi
esse tormento, o mais doloroso de Jesus Cristo, que
completou a redenção.
Por
isso dizia S. Paulo: “Não julgueis que eu sabia alguma
coisa entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado”
(1 Cor 2,2). Muito bem sabia o apóstolo que Jesus Cristo
nascera numa gruta, que habitara por trinta anos uma oficina
que ressuscitara e subira aos céus. Por que então escreve
que não sabia outra coisa senão Jesus crucificado?
Porque a morte sofrida por Jesus na cruz era o que mais o
movia a amá-lo e o induzia a prestar obediência a Deus, a
exercer a caridade para com o próximo, a paciência nas
adversidades, virtudes praticadas e ensinadas
particularmente por Jesus Cristo na cátedra da cruz.
São Tomás escreve: “Em qualquer tentação encontra-se na cruz
o auxílio; aí a obediência para com Deus, aí a caridade para
com o próximo, aí a paciência nas adversidades, donde
assevera Agostinho: A cruz não foi só o patíbulo do mártir,
como também a cátedra do mestre”. (In c. 12 ad Heb.).
À SOMBRA DA CRUZ
Almas
devotas, procuremos ao menos imitar a esposa dos Cânticos,
que dizia: “Eu assentei-me à sombra daquele que tanto
desejei” (Cânt 2, 3). Oh! que doce repouso as almas
que amam a Deus encontram nos tumultos deste mundo e nas
tentações do inferno e mesmo nos temores dos juízos de Deus,
contemplando a sós em silêncio o nosso amado Redentor
agonizando na cruz, gotejando seu sangue divino de todos os
seus membros já feridos e rasgados pelos açoites, pelos
espinhos e pelos cravos. Oh! como a vista de Jesus
crucificado afugenta de nossas mentes todos os desejos de
honras mundanas, das riquezas da terra e dos prazeres dos
sentidos! Daquela cruz emana uma vibração celeste, que
docemente nos desprende dos objetos terrenos e acende em nós
um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que quis
sofrer tanto e morrer por amor de nós.
Ó
Deus, se Jesus Cristo não fosse o que ele é, Filho de Deus e
verdadeiro Deus nosso criador e supremo senhor, mas um
simples homem, quem não sentiria compaixão vendo um jovem de
nobre linhagem, inocente e santo, morrer à força de
tormentos sobre um madeiro infame, para pagar, não os seus
delitos, mas os de seus mesmos inimigos e assim libertá-los
da morte em perspectiva? E como é possível que não ganhe os
afetos de todos os corações um Deus que morre num mar de
desprezos e de dores por amor de suas criaturas? Como
poderão essas criaturas amar outra coisa fora de Deus? Como
pensar em outra coisa que em ser gratos para com esse tão
amante benfeitor?
“Oh!
se conhecesses o mistério da cruz!”.
disse Santo André ao tirano que queria induzi-lo a renegar a
Jesus Cristo, por ter Jesus se deixado crucificar como
malfeitor. Oh! se entendesses, tirano, o amor que Jesus
Cristo te mostrou querendo morrer na cruz para satisfazer
por teus pecados e obter-te uma felicidade eterna,
certamente não te empenharias em persuadir-me a renegá-lo;
pelo contrário, tu mesmo abandonarias tudo o que
possuis e esperas nesta terra para comprazeres e contentares
um Deus que tanto te amou. Assim já procederam
tantos santos e tantos mártires que abandonaram tudo por
Jesus Cristo. Que vergonha para nós, quantas tenras
virgenzinhas renunciaram a casamentos principescos, riquezas
reais e todas as delícias terrenas e voluntariamente
sacrificaram sua vida para testemunhar qualquer gratidão
pelo amor que lhes demonstrou este Deus crucificado.
Como
explicar então que a muitos cristãos a paixão de Cristo faz
tão pouca impressão?
Isso provém do pouco que consideram nos padecimentos
sofridos por Jesus Cristo por nosso amor. Ah, meu Redentor,
também eu estive no número desses ingratos. Vós
sacrificastes vossa vida sobre uma cruz, para que não me
perdesse, e eu tantas vezes quis perder-vos, ó bem infinito,
perdendo a vossa graça!
Ora, o
demônio, com a recordação de meus pecados, pretenderia
tornar-me dificílima a salvação, mas a vista de vós
crucificado, meu Jesus, me assegura que não me repelireis de
vossa face se eu me arrepender de vos haver ofendido e
quiser vos amar. Oh! sim, eu me arrependo e quero amar-vos
com todo o meu coração. Detesto aqueles
malditos prazeres que me fizeram perder a vossa graça.
Amo-vos, ó amabilidade infinita, e quero amar-vos sempre e a
recordação de meus pecados servirá para me inflamar ainda
mais no vosso amor, que viestes em busca de mim quando eu de
vós fugia. Não, não quero mais separar-me de vós, nem deixar
mais de vos amar, ó meu Jesus.
Maria,
refúgio dos pecadores, vós que tanto participastes das dores
de vosso Filho na sua morte, suplicai-lhe que me perdoe e me
conceda a graça de o amar.
Santo Afonso Maria de Ligório
(1696-1787).
Bispo e Doutor da Igreja.
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