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Nosso Senhor no Santísismo Sacramento

não é amado!

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São Pedro Julião Eymard.

 

Oh! entre tantos milhares de criaturas em quem Deus colocou um coração capaz de amar, quantas amariam o Santíssimo Sacramento se O conhecessem como eu! Não devo, ao menos, esforçar-me em amá-LO por elas em seu lugar?

Entre os católicos, são poucos, muito poucos os que amam a Jesus no Santíssimo Sacramento: quantos pensam n'Ele frequentemente? N'Ele falam? Vão adorá-LO, recebê-LO?

 

Por que esse esquecimento, essa frieza? Oh! é que jamais provaram a Eucaristia, a Sua suavidade, as delícias do Seu amor! É que jamais conheceram Jesus em Sua bondade. É que não suspeitam a extensão de Seu amor no Santíssimo Sacramento.

 

Alguns têm a fé em Jesus Cristo, mas uma fé inativa, uma fé tão superficial que não chega ao coração, limitando-se ao que exigem rigorosamente a consciência, a salvação. E mesmo esses últimos são relativamente pouco numerosos entre tantos outros católicos que vivem como verdadeiros pagãos, como se jamais houvessem ouvido falar da Eucaristia.

 

Por que é Nosso Senhor tão pouco amado na Eucaristia?

 

Porque não se fala bastante, porque se recomenda apenas a fé na presença de Jesus Cristo, em vez de falar em Sua vida, em Seu amor no Santíssimo Sacramento, em vez de ressaltar os sacrifícios que Lhe impõe o seu amor, em uma palavra, em vez de mostrar Jesus-Eucaristia amando a cada um de nós pessoalmente, particularmente.

 

Outra causa é o nosso proceder que em nós denota pouco amor: quando se nos vê orar, adorar, freqüentar a igreja, não se compreende a presença de Jesus Cristo. Quantos entre os melhores, não fazem jamais uma visita de devoção ao Santíssimo Sacramento, para falar-Lhe de coração, para dizer-Lhe de seu amor! Não amam, pois, a Nosso Senhor na Eucaristia, porque não O conhecem bastante. Mas se O conhecem no Seu amor, nos sacrifícios, nos desejos de Seu Coração, e, apesar disso, não O amam, que injúria! Sim, uma injúria!

 

Pois é dizer a Jesus Cristo que Ele não é bastante belo, bastante bom, bastante amável para ser preferido ao que lhes agrada. Que ingratidão! Após tantas graças recebidas desse bom Salvador, após tantas promessas de amá-LO, tantas ofertas de si mesmo ao Seu serviço, é zombar de Seu amor tratá-LO assim. Que covardia!

 

Pois se não se quer conhecê-LO demais, vê-LO de perto, recebê-LO, falar-Lhe intimamente, é por medo de ser conquistado por Seu amor! Tem-se medo de se ver obrigado a render-se e a sacrificar-Lhe sem reserva o coração, sem condição o espírito e a vida!

 

Tem-se medo do amor de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento, e dele se foge! Sente-se a perturbação diante d'Ele, tem-se o receio de ceder! A exemplo de Pilatos e Herodes, foge-se de Sua presença!

Não se ama Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, porque se ignoram ou não se examinam suficientemente os sacrifícios que Seu amor aí faz por nós. Sacrifícios tão surpreendentes que, só ao pensar neles, sinto o coração opresso e os olhos rasos de lágrimas!

 

A instituição da Eucaristia custava o preço de toda a Paixão do Salvador. Como assim? Eis a razão: A Eucaristia é o sacrifício da nova Lei; ora, não há sacrifício sem vítima; a imolação exige a morte da vítima e, para participar dos méritos do sacrifício, é preciso participar da vítima pela manducação. Ora, tudo isso se encontra na Eucaristia.

 

Ela é o sacrifício incruento porque a vítima morreu uma só vez e, por esta única morte, reparou e mereceu toda justificação; mas perpetua-Se em Seu estado de vítima, para aplicar-Se os méritos do sacrifício cruento da Cruz, que deve durar e ser representado a Deus até o fim do mundo. Devemos comer a nossa parte da vítima; mas se ela não possuísse esse estado de morte, teríamos excessiva repugnância em comê-l'A: não se come senão o que está morto para a sua vida própria.

 

De modo que a Eucaristia custava o preço da agonia no Jardim das Oliveiras, das humilhações sofridas diante dos tribunais de Caifás e de Pilatos, da morte no Calvário! A vítima teria de passar por todas essas imolações para chegar até o estado sacramental e até nós.

 

Instituindo o Seu Sacramento, Jesus perpetuava os sacrifícios de sua Paixão; condenava-Se a sofrer:

 

- Um abandono tão doloroso quanto o que padeceu no Jardim das Oliveiras;

- A traição de seus amigos, de seus discípulos, tornando-se cismáticos, heréticos, renegados, que venderiam a santa hóstia aos judeus, aos mágicos;

- Ele perpetuava as engações que O afligiriam em casa de Anás;

- Os furores sacrílegos de Caifás;

- Os desprezos de Herodes;

- A covardia de Pilatos;

- A vergonha de Se ver preterido por uma paixão, um ídolo de carne, como se vira preterido por Barrabás;

- A crucificação sacramental no corpo e na alma do comungante sacrílego.

 

Pois bem, Nosso Senhor sabia tudo isso antecipadamente, conhecia todos os novos Judas, contava-os entre os Seus, entre os Seus filhos bem-amados; tudo isso não O deteve, Ele quis que Seu amor ultrapassasse a ingratidão e a malícia do homem; quis sobreviver à sua malícia sacrílega.

 

Conhecia antecipadamente a tibieza dos Seus, a minha; o pouco fruto que se haveria de tirar da Comunhão. Quis amar assim mesmo, amar mais do que era amado, mais do que o homem poderia reconhecer.

 

Mais o quê? Esse estado de morte, enquanto ele possui a plenitude da vida e de uma vida sobrenatural e gloriosa; ser tratado como um morto, considerado um morto, não é nada? Esse estado de morte diz que Jesus está sem beleza, sem movimento, sem defesa, envolto nas santas espécies como num sudário, e no Tabernáculo como num túmulo; entretanto Ele ali está, vendo tudo, tudo ouvindo. Tudo sofre como se fora morto. Seu amor Lhe velou o poder, a glória, as mãos, os pés, o belo semblante, a sagrada boca, tudo enfim. Não Lhe deixou senão o coração para amar e o estado de vítima para interceder em nosso favor.

 

À vista de tanto amor de Jesus Cristo pelo homem, tão pouco reconhecido, parece que o demônio triunfa e insulta a Jesus. Eu, diz ele, não dou ao homem nada de verdadeiro, de belo, de bom; não sofri por ele, e sou mais amado, mais obedecido, mais bem servido que Vós.

 

Ai de nós! é por demais uma verdade, e a nossa frieza, a nossa ingratidão, são o triunfo de Satanás contra Deus. Oh! como podemos esquecer o amor de Nosso Senhor, um amor que tanto Lhe custou e ao qual Ele nada recusou?

 

É verdade também que o mundo faz todos os seus esforços para impedir que se ame a Jesus no Santíssimo Sacramento com um amor verdadeiro e prático, para impedir que se O visite, para paralisar os efeitos desse amor. Absorve, liga, aprisiona as almas nas ocupações, nas boas obras exteriores, para afastá-las de aplicar por muito tempo os pensamentos no amor de Jesus.

 

Combate até diretamente esse amor prático e o apresenta como não necessário, como possível, quanto muito, em um claustro. E o demônio trava uma guerra de todos os instantes ao nosso amor para com Jesus no Santíssimo Sacramento. Sabe que Jesus ali está vivo, substancial, atraindo e possuindo diretamente as almas por Si mesmo: apaga em nós o pensamento, a boa impressão da Eucaristia. Para ele, é decisivo.

 

E, no entanto, Deus é todo amor.

 

E Esse doce Salvador nos clama da Sua hóstia: Amai-Me como Eu vos amei; permanecei no Meu amor! Vim trazer à terra o fogo do amor, e o Meu mais ardente desejo é que abrase os vossos corações. Oh! na hora da morte, após a morte, que se deverá pensar da Eucaristia, ao vê-l'A, ao conhecer-Lhe toda a bondade, todo o amor, todas as riquezas!

 

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